Em Lisboa e no Porto, há quem já não espere pela Justiça para agir. Cansados do aumento de furtos e da aparente impunidade dos carteiristas, grupos de cidadãos estão a assumir o papel de vigilantes urbanos, patrulhando as ruas e partilhando nas redes sociais vídeos de quem apanha turistas desprevenidos.
Segundo o Notícias ao Minuto, o fenómeno, que começou de forma discreta, está agora a ganhar dimensão e a preocupar as autoridades. Páginas como Pickpockets Lisbon, com mais de 72 mil seguidores, e Patrulha Pickpockets Lisboa, com 44 mil, publicam diariamente imagens e vídeos de carteiristas em ação, sobretudo em zonas turísticas.
Os “caçadores”, como lhes chamam, afirmam querer apenas alertar o público e proteger as vítimas, mas a sua atuação, que por vezes inclui confrontar suspeitos e até lançar tinta para os marcar, está a gerar polémica.
Um movimento que cresce nas redes e nas ruas
Inspirados em iniciativas semelhantes em Madrid, Paris e Roma, os “hunters” portugueses criaram até uma “caderneta de cromos” digital com os rostos dos carteiristas mais ativos, em colaboração com a página espanhola Patrulla Madrid, que tem mais de 700 mil seguidores.
Em Lisboa, as zonas mais vigiadas são as da Baixa, Graça, Belém e Parque das Nações, onde turistas se misturam com grupos de carteiristas: muitos pertencentes a redes internacionais, disfarçados de visitantes, com telemóvel na mão e um olhar atento às bolsas alheias.
Moradores e comerciantes agradecem o trabalho destes grupos, dizendo que a PSP faz o que pode, mas os tribunais libertam os detidos quase de imediato. “São apanhados, levados para tribunal e voltam às ruas no mesmo dia”, relatam residentes citados pelo Notícias ao Minuto.
PSP alerta: “vivemos num Estado de Direito”
Apesar de reconhecer o aumento do número de carteiristas e o papel da vigilância civil, a PSP alerta para os riscos deste tipo de ação popular. Em resposta ao Notícias ao Minuto, a polícia sublinha que “a repressão de crimes compete às autoridades competentes” e que não incentiva nem apoia qualquer tipo de movimento que atue fora da lei.
A PSP explica ainda que, embora as imagens partilhadas possam servir como prova em casos futuros, “a exposição pública de suspeitos pode configurar um ilícito criminal”, cabendo ao Ministério Público avaliar cada situação. Até ao momento, não existem queixas formais sobre os “caçadores de carteiristas”.
Mais furtos, mais detenções, mas poucas prisões efetivas
O combate da PSP continua. Desde 2018, através da Força Conjunta de Combate aos Carteiristas (F3C), foram detidos 638 carteiristas, dos quais apenas 61 cumpriram pena de prisão efetiva. Outros ficaram com penas suspensas ou apresentações periódicas, e mais de 200 foram apenas multados.
Em 2024, registaram-se 5.762 ocorrências relacionadas com carteiristas, quase o dobro do número registado em 2020. Lisboa, Porto e Algarve são as zonas mais afetadas.
Como proteger-se dos carteiristas
A PSP aconselha a guardar objetos de valor em bolsos interiores, manter malas e mochilas à frente do corpo, evitar grandes quantias de dinheiro e denunciar sempre qualquer tentativa de furto.
Enquanto isso, os “caçadores” continuam nas ruas, entre a linha ténue da denúncia e da ilegalidade. Para uns, são heróis urbanos; para outros, um reflexo da desconfiança crescente na Justiça.
O certo é que o fenómeno veio para ficar, e os carteiristas já sabem que, em Lisboa, há olhos e câmaras a segui-los em cada esquina.
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