Já não vivíamos tempos pré-históricos, desses em que nascer em ambulâncias maculava a reputação familiar. O Benfica deixara de ser campeão vitalício, e os écrans a preto e branco tinham cessado de nos encandear. As mulheres, agora senhoras da palavra, podiam nomear a sua orquídea sexual sem recorrer a eufemismos. Tínhamos internet, — essa nova religião que dispensa sacerdotes, mas exige wi-fi — e não tínhamos casa própria; amadurecíamos em quartos herdados, sob o teto dos nossos pais, até à idade de ter barbas brancas, paciência curta e colesterol alto, — como as alvas daquele velho bonacheirão que, todos os anos, parte da globalizada Lapónia com renas fatigadas e um saco de ilusões.
A língua evoluíra: o amor — outrora Eros, Philia, Ágape — fora substituído por expressões higiénicas como “molhar o biscoito”. As redes sociais, oráculos pós-modernos, converteram a ignorância em prova de autenticidade. E a política, sempre diligente, aplicava-se agora à empreitada metafísica da ocultação do rosto, numa cruzada civilizacional contra tecidos e tradições, em nome da liberdade que proíbe.
Assim, por conta da clareza facial, fabricou-se um anátema étnico disfarçado de zelo cultural. O Ocidente voltou a atribuir-se um desígnio moral, julgando-se um centro de humanidade e progresso, enquanto os “outros” — esses exóticos da canela, herdados dos Descobrimentos — permaneciam como intermediários entre o primitivo e o civilizado.
Entre máscaras e heróis
A antropologia, que devia unir ciência e política, serviu durante muito tempo para legitimar o mesmo eurocentrismo que hoje se esforça por repudiar. No divórcio entre saber e poder, o rosto tornou-se variável identitária, máscara da exclusão. A alteridade, observada no seu evolucionismo social, gerou políticas infladas de mau gosto, que tomam a caracterização identitária de uma pessoa, pela sua redução a uma só variável: o rosto.
Para não me afundar na gravidade desse divórcio, busquei consolo numa tentativa de higiene mental do meu cérebro gelatinoso. A controvérsia sobre rostos e máscaras remeteu-me ao imaginário da infância — onde ocultar a face era liberdade, e não crime.
Excluo, desde já, os Caretos de Podence, cuja máscara é património mundial da humanidade e não delito. Já os preveni: qualquer dia, por zelo de segurança, também eles poderão ser proibidos de chocalhar.
Tampouco culpo o meu primo Chico, angustiado com a hipótese de que o novo código da estrada lhe vede o uso do capacete que lhe oculta o rosto e o protege — não do perigo, mas do absurdo.
Entre baforadas de cigarro, arrastadas pela sala, e recordações televisivas, revi os meus heróis mascarados, de rosto oculto: o Homem-Aranha, o Batman, e sobretudo o Zorro — símbolo de justiça e rebeldia que me serviu de alter ego infantil. Quando o Zorro lutava pela justiça, ocultava o rosto não por vergonha, mas por estímulo dos imaginários povoados de um desejo romanesco de justiça.
Foi-lhe, contudo, comunicada a infeliz notícia: ao chegar a Portugal, o seu disfarce negro estaria legalmente interdito. Que ficasse o homem, e se abolisse o símbolo — pois a máscara, em nome da segurança, tornara-se subversiva.
Na infância, a máscara era o portal da imaginação: uma segunda pele que libertava. Por trás dela, na minha imaginação fantástica, eu era justiceiro, valente, herói. O disfarce não escondia, revelava: nos jogos de infância, convertia o miúdo tímido em defensor dos fracos, autor dos três golpes em “Z”, que marcavam o triunfo da justiça sobre a mediocridade.
Era no secretismo dessa esplendida figura, cuja máscara ocultava o rosto, que se abria espaço à minha imaginação. Nesse meu mundo, eu podia recriar cenas emotivas de ação e aventura, através de brinquedos feitos por mim, que incluíam espada e máscara, estimulando jogos povoados do desejo romanesco de justiça.
Ao usar o disfarce da “mascarilha” como proteção e símbolo mais forte do Zorro, eu sentia-me protegido para “lutar”, “defender-me” e crescer como pessoa nos meus jogos. Era esse disfarce que me permitia uma brincadeira de faz-de-conta, de forma tão completa quanto intensa. Ela não era apenas uma simulação, mas a essência do meu carácter heroico, acessório central na expansão da minha fantasia.
O policiamento da identidade
Era uma pedagogia da coragem — e bem que podia constituir um protesto lúdico contra o Estado Novo que policiava até a fantasia.
Com o tempo, percebi que o policiamento se aperfeiçoara: agora, não censura histórias infantis, mas hábitos culturais. No rosto oculto de uma mulher, ou sob a máscara ritual de um careto, vê-se ameaça e não expressividade. E, em nome da transparência, o poder impõe a nudez facial — esse novo uniforme da obediência, que associa a certos usos e costumes a uma repulsiva barbárie, uma oposição ao processo civilizacional de que se ocupou Norbert Elias.
O que chamamos modernidade talvez não passe de um retorno requintado ao medo antigo: o medo do diferente, do símbolo, do disfarce. Sob pretexto de civilizar, tornamo-nos caricaturas de nós mesmos — iluministas com medo da sombra.
A modernidade, dizem, é progresso. Mas às vezes parece só uma reciclagem elegante do medo. O medo do diferente, do exótico, do simbólico. O medo de que alguém, por trás de um pano, esteja a rir-se de nós. E está.
A máscara, afinal, é apenas um espelho. Mostra-nos o pavor que temos de não controlar o rosto do outro. Proibir a máscara é uma forma de castrar a imaginação. É negar o direito de cada um ser ele próprio um Zorro, um Batman ou um careto de aldeia.
O rosto tornou-se um campo de batalha política. Querem-no limpo, visível, catalogado. Somos livres — desde que com a cara destapada, o sorriso ensaiado e o olhar aprovado pelo algoritmo. A máscara, essa antiga companheira de brincadeiras e rituais, foi declarada inimiga do Estado.
Claro que é sempre mais cómodo proibir do que compreender. Proibir requer decreto; compreender exige cultura.
Por isso, não consultamos as culturas em causa. Ignoramos o que nos é estranho, e chamamos progresso ao ato de censurar tradições que não entendemos. Já não há paciência para pensar — só para legislar. E legislar dá votos. É mais fácil proibir um véu do que reformar a habitação; mais cómodo perseguir máscaras do que encarar a hipocrisia institucional.
A política, incapaz de pensar o rosto como território simbólico, prefere higienizá-lo, limpá-lo da diferença, como se lavar significasse libertar.
Entre um decreto e uma selfie, o rosto tornou-se espetáculo e prova de cidadania. Somos livres, desde que visíveis.
A máscara, que um dia me fez herói na minha adolescência, tornou-se suspeita. E a liberdade, essa antiga dama que tanto custou conquistar, cobre agora o rosto com um véu de ironia.
E assim, em nome da liberdade, aprendemos a desconfiar do mistério. Em nome da transparência, abraçámos a vigilância. Em nome da civilização, regressámos à barbárie higiénica dos decretos.
Talvez o verdadeiro perigo nunca tenha sido a ocultação do rosto, mas a incapacidade de sustentar o olhar do outro, o facto de já não sabermos o que fazer com ele quando o mostramos.
Afinal, a máscara protege-nos — não dos vírus, mas da falta de bom senso.
E se há coisa que continua epidémica, mesmo sem rosto, é essa.
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