Quem tem ido à praia neste verão poderá já ter reparado no fenómeno. As alforrecas parecem estar mais presentes em várias zonas da costa portuguesa e os avistamentos multiplicam-se numa altura em que milhares de pessoas aproveitam os últimos dias de agosto junto ao mar.
Não se trata apenas de uma impressão dos banhistas. As populações destes organismos podem sofrer aumentos rápidos, dando origem aos chamados “blooms” ou surtos, fenómenos que fazem com que grandes quantidades apareçam concentradas em determinadas zonas.
O próprio programa GelAvista, desenvolvido pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), tem acompanhado a presença destes organismos ao longo da costa portuguesa, de acordo com o Público.
Há avistamentos desde Ílhavo ao Algarve
Nos registos mais recentes divulgados pelo GelAvista, a medusa-do-Tejo continua a ser encontrada numa extensa faixa da costa portuguesa, entre Ílhavo e Vila Real de Santo António.
O IPMA revelou também recentemente um caso de queimadura associado a uma caravela-portuguesa em Esposende, enquanto nos Açores têm sido registadas ocorrências de água-viva.
A presença destes animais não significa, contudo, que todas as praias estejam afetadas nem que todas as espécies apresentem o mesmo risco para os banhistas.
Afinal, porque aparecem tantas alforrecas?
Os aumentos repentinos das populações de organismos gelatinosos são fenómenos naturais e podem ocorrer periodicamente.
Condições favoráveis no oceano podem permitir uma rápida multiplicação destes organismos, enquanto ventos e correntes marítimas podem transportá-los e concentrá-los junto à costa.
É precisamente por isso que uma praia pode registar uma grande quantidade de alforrecas num determinado momento e apresentar uma situação completamente diferente pouco tempo depois.
Alterações climáticas podem favorecer estes episódios
O GelAvista explica que as populações de organismos gelatinosos têm capacidade para crescer rapidamente e que estes surtos fazem parte de fenómenos naturais periódicos.
Contudo, num contexto de alterações climáticas, o IPMA admite que estes episódios poderão tornar-se mais frequentes e de maior dimensão, sobretudo quando conjugados com outras pressões exercidas sobre os ecossistemas marinhos.
Isto não significa que cada concentração de alforrecas observada numa praia portuguesa possa ser diretamente atribuída às alterações climáticas, já que existem vários fatores envolvidos.
Nem todas as alforrecas são igualmente perigosas
Outro aspeto importante é identificar corretamente o organismo encontrado na praia.
A medusa-do-Tejo, uma das espécies atualmente observadas em grande parte da costa, apresenta baixo poder urticante, segundo o GelAvista.
Apesar da sua dimensão, a toxina é relativamente fraca para os seres humanos. Ainda assim, o contacto pode provocar dor ou reações alérgicas ligeiras em algumas pessoas.
Atenção à caravela-portuguesa
A situação é diferente quando se trata da caravela-portuguesa, facilmente reconhecível pela estrutura flutuante de tonalidade azulada ou arroxeada.
Neste caso, o contacto com os tentáculos pode provocar uma reação bastante mais intensa, pelo que deve ser evitado mesmo quando o organismo aparenta estar morto ou se encontra no areal.
O IPMA recomenda que, quando não for possível identificar com segurança a espécie encontrada, não se toque no animal.
Foi picado? Não esfregue a zona
Em caso de contacto com uma alforreca, uma das primeiras recomendações do IPMA é lavar cuidadosamente a zona afetada utilizando água do mar, sem esfregar.
Os tentáculos que permaneçam presos à pele devem ser retirados cuidadosamente, preferencialmente com a ajuda de uma pinça.
No caso das alforrecas, podem ser aplicadas compressas de gelo. Já perante uma picada de caravela-portuguesa, as recomendações são diferentes e justificam cuidados adicionais.
Banhistas também podem ajudar a acompanhar o fenómeno
O GelAvista depende também dos registos enviados por quem frequenta as praias portuguesas.
Quem encontrar alforrecas ou outros organismos gelatinosos pode comunicar o avistamento através da aplicação do projeto, indicando o local, data, hora, quantidade aproximada e, sempre que possível, enviando uma fotografia.
Até os registos de praias onde não existem alforrecas são importantes, uma vez que ajudam os investigadores a perceber a verdadeira distribuição destes organismos ao longo da costa.
Com milhares de portugueses ainda a aproveitar as praias no final de agosto, a recomendação passa sobretudo por estar atento ao mar e ao areal e evitar tocar em organismos que não consiga identificar.
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