Entrei na Fundação Fernando Leite Couto depois de algumas horas de deambulação pelo bairro dos escritores em Maputo, em busca dos vestígios familiares de uma outra vida. A sensação era a de um passado que se dissolve a par dos edifícios que se erosionam. Dentro de algum tempo ninguém se lembrará de nada. A casa onde nasci, as casas onde os meus pais viveram, os meus avós, bisavós, o resto da família e amigos… Maputo é uma espécie de viagem ao passado quase desaparecido. O esforço de tentar encontrar o rasto daquilo que os meus pais garantem que lá existiu e cuja memória tão vívida lhes acende a alma de uma forma que nenhuma outra coisa alcança fazer, consegue tornar-se exasperante. Entrar aqui, na fundação do pai desse grande Mia Couto, escritor que tanto admiro, aconteceu quase por acaso. Só queria um pouco de sombra, hidratar a garganta e descansar a alma açoitada por tantas memórias herdadas.
Dei de caras com ela: uma zebra que se ergueu dos recortes de capulana e espaço vazio, dispostos na perfeição, num pedaço de papel maltratado. Passada a surpresa inicial avancei uns passos para encontrar outros animais que ganhavam vida a partir daquilo a que normalmente chamamos lixo. Na cafetaria uma raia de capulana nadava pelas paredes acima, soltando-se das ondas de plástico azul onde uma baleia feita de chinelos de borracha mergulhava.

Doutorada em Filosofia Contemporânea, investigadora da Universidade Nova de Lisboa
Tchalata explicou-me o seu processo criativo e, de repente, percebi que estava diante de um alquimista. Só que em vez de transformar tudo em ouro, Tchalata transformava tudo em arte.
Aquela fauna autóctone, mas tão particular, foi-me guiando até que desaguei na sala-galeria onde o artista desmontava a exposição. Era o último dia. Também aqui cheguei só a tempo de ainda encontrar alguns vestígios. Ecos de obras nas paredes, uma mola aqui, um rectângulo sem pó ali. O contraste era enorme: a beleza e a delicadeza dos animais nascia daqueles materiais horríveis e poluentes. Pensei nas flores de lótus que nascem do lodo dos lagos. Pensei na Fenix que renasce das cinzas. E não pude deixar de pensar em Moçambique — aterrei em Maputo no dia da celebração da independência, porém, fora dos discursos oficiais, o povo grita que outros 50 anos de opressão não instigam qualquer celebração — quando te erguerás tu, do lodo, do lixo, da miséria, Moçambique?
Em frente a mim Tchalata sorria solícito. Talvez fosse o meu ar de espanto, ou o mar que assomava os meus olhos e que, a custo, consegui reter. Havia tanta esperança, tanta beleza ali!
Tchalata explicou-me o seu processo criativo e, de repente, percebi que estava diante de um alquimista. Só que em vez de transformar tudo em ouro, Tchalata transformava tudo em arte. Das borrachas dos pneus, do alcatrão, saíam pássaros suaves como só as aves conseguem ser, desafiando esse material que ali lhes conferia existência. Uma arte feliz, exuberante, esperançadora! Como conseguia ele arrancar-me este sorriso que começava por nascer lá no fundo e depois inundava a minha pessoa toda e eu, que não estou habituada a sorrir assim, sentia as bochechas a repuxar e os lábios a querer crescer para além da sua anatomia. Tchalata também exibia um sorriso desses, mas parecia estar mais cómodo que eu, nele o sorriso tinha a doçura do veludo.

A certa altura encontrei, ainda na parede, o texto de Eduardo Quive “Quando o belo se rende à natureza” cujo excerto não resisto a citar aqui:
“Eis que da extinção, ressurgem os bichos e do descarte, os materiais que lhes dão vida. Tchalata recusa-se a aceitar os finais trágicos, conduz-nos para a metáfora do belo. Tudo que nos mostra vem da angústia, da desolação e das marcas dos actos humanos. Quem contemplar esta arte, terá de se confrontar com as várias possibilidades a que os materiais teriam sido votados, se não fosse o talento de um artista, de dar sentido às coisas, conferir estética ao acaso e a sua tentativa, por mais ínfima que seja num oceano em devastação, de fazer com que a nossa acção cause males menores.
Eis aos nossos olhos a arte de Tchalata, que transforma o feio em belo, o sujo em limpo, o trágico em renascença. Há quem chame de materiais, as ‘coisas’ que tornam possível estas obras de arte. Mas são, em princípio, a pegada negativa do Homem na natureza. Contra si mesmo, é verdade, pois embora se equivoque e até se esqueça por vezes, as pessoas fazem parte do ecossistema. Afinal, o meio ambiente é formado por elementos, como a água, o ar, o solo, a energia, a flora, a fauna e pela cultura humana, seus valores sociais, políticos, econômicos, científicos, morais, religiosos, eoutros. Esta exposição, em última instância ou por consequência, lembra-nos isso. A extinção de um, é um alerta sobre a qualidade de vida do outro.”
Além de artista Tchalata — Aniceto Leonardo Banze, nascido na Katembe em Moçambique, no anos da graça de 1981 — é professor. Na sua terra natal criou uma escolinha de ensino pré-primário, a KaTembe, onde através da arte, ajuda muitas crianças a transformarem-se em alquimistas como ele, a reciclar o planeta, a transformar a morte em vida, o feio em belo, e a salvar, a salvar, a salvar…

Neste uso consciente de materiais que recicla — borracha, madeira, ferro, corda, restos de capulana – esses elementos tornam-se mediadores de histórias não contadas mas que podemos adivinhar, vozes esquecidas dos seres que lutam para não se afogar nos oceanos de plástico, nos mares de petróleo ou flores que teimam em nascer no betão. A natureza não é um pano de fundo sobre o qual a cultura é construída, mas sim o corpo onde a memória coletiva se inscreve. Essa visão ecoa filosofias africanas tradicionais como o ubuntu, onde o ser é compreendido em relação, em rede, em conexão. A arte, neste contexto, não é uma instância à parte, mas o prolongamento de uma vivência comunitária com o mundo natural. Tchalata encarna assim um pensamento ecológico, não apenas no sentido ambiental, mas também ontológico — uma arte que pensa o ser humano como parte indissociável do solo, da árvore, do mar, do silêncio.
Há ainda uma ética implícita no gesto de Tchalata, pois a escolha de materiais pobres ou abandonados ressoa com a condição de um país que, apesar de tão rico, é historicamente marcado por miséria e silêncio dos oprimidos. Na sua arte sente-se uma tensão constante entre o esfacelamento e a reconstrução, a ruína e a esperança. Felizmente, a esperança ganha. Energizados pelo belo, vimos de lá a querer ser um pouco também Tchalata, a querer reciclar o planeta e abraçar o mundo com um sorriso.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
Leia também: A ilusão da comunicação na era digital | Por Maria João Neves
















