Os salários reais na Europa deverão crescer ligeiramente mais em 2026 do que em 2025, num contexto em que a recuperação do poder de compra já se aproximou, em várias economias, dos níveis anteriores ao pico inflacionista de 2021. De acordo com o Banco Central Europeu, a subida dos salários nominais acima dos preços ajudou a reverter grande parte da perda registada durante o período de inflação elevada em 2022.
O retrato comparativo para 2025 e 2026 resulta, em parte, de um inquérito a multinacionais e de projeções de inflação usadas para transformar aumentos nominais em ganhos reais, isto é, já descontando a subida de preços.
O que dizem as projeções europeias para 2025 e 2026
O relatório Salary Trends 2025-26, da Employment Conditions Abroad (ECA), estima que, até ao final de 2025, os salários reais aumentem em 23 dos 25 países europeus analisados, com quedas apontadas para a Roménia (-0,9%) e a Ucrânia (-3,2%). No conjunto, a ECA projeta uma mediana de crescimento real de 1,4% em 2025 e de 1,7% em 2026.
Leste europeu volta a destacar-se
Entre os países com maiores crescimentos previstos, a ECA coloca economias da Europa de Leste e Central como Hungria, Polónia, Chéquia e Bulgária, associando este desempenho a ritmos mais rápidos de crescimento económico e ganhos de produtividade face a vários pares da Europa Ocidental.
Turquia lidera, mas com inflação muito acima da média
A Turquia surge como o caso mais extremo. Para 2025, a ECA aponta uma subida real de 5,1%, resultado de um aumento nominal de 40% combinado com uma projeção de inflação de 34,9% usada no cálculo. Para 2026, a previsão volta a colocar o país no topo, com crescimento real estimado de 8,1%.
Steven Kilfedder, responsável pela análise de produto na ECA, sublinhou ao Euronews Business que o país se destaca por operar com níveis de inflação e aumentos salariais muito superiores aos europeus, embora sem recuperar o poder de compra perdido em anos anteriores.
Grandes economias abaixo da mediana europeia
Entre as quatro maiores economias europeias, França aparece à frente, seguida de Alemanha, Itália e Reino Unido. Ainda assim, o relatório nota que países como Espanha e Países Baixos deverão continuar abaixo da média regional, apesar do abrandamento da inflação, apontando fatores como produtividade mais fraca, condições orçamentais apertadas e prudência das empresas em compromissos salariais prolongados.
Projeções para Portugal: aumentos moderados e inflação a ditar o ganho real
No caso português, alguns sinais disponíveis apontam para uma evolução mais contida do que a observada nos líderes do ranking, mas com possibilidade de ganhos reais se a inflação se mantiver baixa. A edição de julho do Salary Budget Planning Survey da WTW indica aumentos salariais médios de 3,5% em 2025 e uma previsão de 3,4% em 2026.
Do lado dos preços, a Comissão Europeia antecipa que a inflação abrande e se situe em 2,0% em 2026. Já o Banco de Portugal, no Boletim Económico de outubro de 2025, aponta para inflação média anual de 1,9% em 2026. Numa leitura simples, aumentos nominais na ordem dos 3,4% com inflação perto de 2% traduzir-se-iam em ganhos reais próximos de 1,4%, embora o resultado final dependa do que efetivamente acontecer aos preços e da forma como as subidas se distribuem por setores e perfis salariais.
Em paralelo, o Governo aprovou a subida do salário mínimo nacional para 920 euros em 2026, mais 50 euros face a 2025, uma atualização que incide sobre a base da distribuição salarial, mas não determina, por si só, a evolução do salário médio.
Como foram feitas as contas
A Euronews refere que os resultados assentam num inquérito a 200 empresas multinacionais realizado entre agosto e outubro de 2025, com perguntas sobre aumentos implementados em 2025 e expectativas para 2026. Para transformar aumentos nominais em variação real, a ECA recorreu a taxas de inflação do World Economic Outlook do FMI, publicado em outubro de 2025.
















