O empresário Amancio Ortega é conhecido em todo o mundo pelo império que inclui a Zara, mas uma das suas operações mais recentes em Portugal aconteceu longe das lojas de roupa. O empresário espanhol vendeu ao Estado português a participação que detinha na REN e os documentos do negócio revelam agora como decorreram as negociações.
Segundo informação avançada esta sexta-feira, 18 de setembro, pelo Jornal Económico, a Pontegadea Inversiones, sociedade de investimento de Ortega, chegou inicialmente à mesa com uma exigência superior àquela que acabaria por ficar estabelecida.
A operação tinha o nome de código “Projeto Nascente” e envolvia a compra pelo Estado de cerca de 14% da REN – Redes Energéticas Nacionais, empresa responsável pelas redes de transporte de eletricidade e gás em Portugal.
Amancio Ortega começou por pedir um prémio até 20%
A proposta inicial da Pontegadea previa um prémio entre 17% e 20%. Posteriormente, a empresa de Ortega baixou essa pretensão para 15%, segundo documentação do processo consultada pelo Jornal Económico no Tribunal de Contas.
A diferença está longe de ser pequena. Se tivesse prevalecido um prémio de 20%, o Estado português teria desembolsado aproximadamente mais 15,6 milhões de euros do que acabou por pagar, segundo os cálculos divulgados pelo jornal.
Na proposta apresentada à Parpública em agosto, a Pontegadea estabeleceu duas referências para determinar o preço: a média das ações nos seis meses anteriores acrescida de 15% ou 4,25 euros por ação, prevalecendo o valor mais elevado.
Acabou por ser este último valor a determinar o negócio. O montante indicado pelo Jornal Económico ronda os 390 milhões de euros.
Dono da Zara terá recebido 462 milhões
Mas os milhões recebidos por Amancio Ortega em Portugal não se resumem ao preço da venda.
Contabilizando o dinheiro recebido com a alienação da participação e os dividendos distribuídos pela REN durante o período em que foi acionista, o empresário terá encaixado 462 milhões de euros, segundo as contas apresentadas pelo mesmo jornal.
Ortega tinha entrado na REN em 2021. Considerando os cerca de 214 milhões de euros que poderá ter desembolsado na altura, o saldo acumulado entre o investimento inicial, dividendos e posterior venda aproxima-se dos 248 milhões de euros em cinco anos, segundo aqueles cálculos.
A Pontegadea deixou entretanto de ter qualquer participação na empresa portuguesa. A operação transferiu 91.723.676 ações, equivalentes a 13,7% do capital da REN, para a Parpública. O Tribunal de Contas deu visto à aquisição em 31 de agosto.
Estado quer chegar aos 20% da REN
A compra significa o regresso do Estado português ao capital da REN depois de ter vendido a última participação que ainda conservava na empresa em 2014.
O Governo pretende chegar a uma posição de até 20%, pelo que ainda faltam cerca de seis pontos percentuais. Uma eventual nova aquisição obrigará a procurar outros acionistas dispostos a vender ou a recorrer ao mercado.
A justificação apresentada pelo Governo para a entrada na REN tem incidido na importância estratégica das redes energéticas e na possibilidade de o Estado acompanhar e influenciar decisões relacionadas com investimentos nas infraestruturas.
O negócio, contudo, também tem gerado discussão política sobre o preço pago e o prémio associado à participação. O PS, por exemplo, pediu ao Governo documentação sobre a operação e contestou publicamente o valor pago; o Governo, por seu lado, tem sustentado que a dimensão da participação, a reduzida liquidez das ações e os direitos associados justificam um prémio face à cotação.
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