A inteligência artificial (IA) já faz parte do quotidiano, seja através de assistentes virtuais ou de ferramentas como o ChatGPT, capazes de dar respostas detalhadas em segundos. Quando uma destas IA produz uma resposta ‘incrível’ sobre como preparar crianças para um futuro com inteligência artificial, levanta-se uma questão que pais e educadores em todo o mundo se colocam: estamos a educar as novas gerações para um mundo dominado por máquinas inteligentes? A urgência desta pergunta é real.
Segundo um inquérito global da UNESCO, menos de 10% das escolas e universidades desenvolveram orientações formais sobre o uso de ferramentas de IA como o ChatGPT, apesar de estas tecnologias estarem cada vez mais acessíveis. O consenso emergente é de que é preciso agir depressa para integrar a IA na educação “nos nossos termos”, priorizando a segurança, a inclusão, a diversidade, a transparência e a qualidade.
Em Portugal e no mundo, multiplicam-se debates sobre quais competências e conhecimentos são essenciais para que crianças e jovens possam tirar proveito da IA, sem abdicar do pensamento crítico e da criatividade. Stefania Giannini, diretora-geral adjunta da UNESCO para a Educação, resume a responsabilidade coletiva: “A IA generativa abre novos horizontes e desafios para a educação, mas precisamos urgentemente de agir para garantir que as novas tecnologias sejam integradas nos nossos termos… É nosso dever priorizar a segurança, a inclusão, a diversidade, a transparência e a qualidade”. Mas como se traduzem estes princípios na sala de aula e em casa, no dia-a-dia das crianças?
Competências humanas em destaque
Especialistas em educação sublinham que preparar as crianças para um futuro com IA não passa apenas por ensinar tecnologia, mas sobretudo por reforçar capacidades humanas insubstituíveis. Segundo Rebecca Winthrop, investigadora e autora na área de educação, defende que a formação escolar hoje deve fornecer ferramentas sociais, para que as crianças não percam a habilidade de manter contactos humanos e criar experiências de aprendizagem que formem indivíduos interessados, que tenham fome de aprender. Em outras palavras, num mundo onde algoritmos resolvem problemas complexos em instantes, é crucial incentivar nas crianças a curiosidade, a vontade de aprender continuamente e a habilidade de colaboração e empatia. Essas qualidades – trabalhar em equipa, comunicar ideias, lidar com pessoas – serão tão ou mais importantes quanto saber programar ou dominar gadgets futuristas.
Os pedagogos realçam igualmente a importância de competências cognitivas e éticas. Pensamento crítico e literacia digital ocupam o topo da lista: desde cedo, os jovens precisam de aprender a avaliar a informação que consomem (ou que a IA lhes fornece), a distinguir fatos de desinformação e a usar ferramentas digitais de forma responsável. “Os ambientes digitais nas escolas requerem competências digitais, pensamento crítico, responsabilidade digital e bem-estar digital”, destaca Maria João Horta, subdiretora-geral da Direção-Geral da Educação (DGE). Esta responsável alerta que usar IA na educação implica rigor na forma como se utilizam estas ferramentas e “responsabilidade de não aceitar como boas todas as ferramentas que as multinacionais apresentam”. Ou seja, professores e pais devem analisar criteriosamente as novidades tecnológicas antes de as abraçar, garantindo que servem objetivos pedagógicos claros e que não colocam em risco a privacidade ou o desenvolvimento saudável dos jovens.
IA/ChatGPT na sala de aula: aliada ou adversária?
Nas escolas, a chegada de sistemas de IA gera fascínio e receios. Por um lado, a IA promete personalizar o ensino como nunca. Ferramentas já disponíveis conseguem adaptar exercícios e explicações ao ritmo de cada aluno, atuando como tutores virtuais personalizados. “Com a ferramenta, há mais professores do que alunos”, observa Rebecca Winthrop, referindo-se a estas IAs educacionais que se multiplicam e se adaptam individualmente a cada estudante. Plataformas inteligentes podem identificar um aluno com dificuldades em matemática e propor-lhe tarefas adicionais, enquanto avançam mais depressa com outro que já domina a matéria. Em contextos de salas superlotadas ou de ensino à distância, essas soluções de IA podem ser uma ajuda bem-vinda para dar atenção personalizada a cada criança. Iniciativas inovadoras ao estilo do “tutor de IA” estão a emergir: a Khan Academy, por exemplo, já testa um assistente baseado em ChatGPT para apoiar estudantes nos exercícios, e escolas piloto em vários países experimentam chatbots educativos em disciplinas que vão da programação à literacia financeira.
Além disso, a IA pode nivelar o terreno para alunos em desvantagem, quando usada com discernimento. “Algumas crianças não têm um pai em casa que possa ajudá-las… [a IA] é uma forma de nivelar o campo de jogo”, observa Denise Pope, professora da Escola de Educação de Stanford. Essa académica salienta que ferramentas como o ChatGPT podem auxiliar alunos sem apoio extracurricular ou com barreiras linguísticas, explicando tarefas de casa ou traduzindo conteúdos para quem está a aprender a língua. “Os estudantes precisam de aprender a usar a IA, uma vez que a tecnologia só se vai tornar mais prevalente no mundo do trabalho”, acrescenta Pope, refletindo uma opinião partilhada por muitos: ignorar a IA não é solução; em vez disso, deve ensinar-se a usá-la de forma eficaz e ética.
Contudo, há um reverso da medalha. Professores do ensino básico e secundário reportam já casos de alunos que recorrem ao ChatGPT para “terceirizar” o dever de casa e até “trapacear” nas tarefas escolares. Num estudo recente com “trabalhadores do conhecimento”, investigadores da Universidade Carnegie Mellon e da Microsoft notaram que “usadas de forma inadequada, as tecnologias podem (…) resultar na deterioração das faculdades cognitivas”, privando as pessoas da prática regular de resolver problemas e deixando-as “atrofiadas e despreparadas”. Gina Parnaby, professora de inglês num liceu norte-americano, descreveu ao jornal Axios que alguns alunos já mostram dificuldade em construir linhas de raciocínio próprias, habituados que estão a aceitar sem questionar as respostas instantâneas dos chatbots. Essa dependência precoce da IA pode atrofiar o pensamento crítico e a capacidade de concentração, alertam docentes, um impacto que consideram mais preocupante nos mais jovens, que ainda não solidificaram bases de conhecimento.
Face a estes riscos, educadores defendem um equilíbrio. “Os professores devem repensar os trabalhos propostos, de modo a garantir que os alunos continuem a utilizar competências de pensamento crítico”, aconselha Denise Pope. Várias escolas estão a adaptar estratégias: em vez de proibirem totalmente ferramentas de IA (o que pode ser contraproducente), optam por ensinar onde elas são úteis e onde falham. Por exemplo, ao pedir uma redação, o professor pode permitir que o aluno use o ChatGPT para gerar um esboço inicial de ideias, mas depois exigir que ele próprio desenvolva o texto e o discuta em sala, treinando assim a análise crítica do conteúdo produzido pela máquina. A palavra de ordem é integração consciente – usar a IA como aliada para enriquecer a aprendizagem, e não como substituta do esforço intelectual.
Preparar as crianças hoje para o amanhã
Ensinar crianças para um futuro com inteligência artificial significa educá-las hoje para serem flexíveis, curiosas e éticas, capazes de conviver e cooperar com tecnologias inteligentes. Além de investir nas áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e em habilidades de programação, é crucial incentivar a criatividade artística, o pensamento original e a resolução de problemas complexos – domínios em que a mente humana pode complementar (e não competir com) as máquinas. Iniciativas de literacia digital e clubs de robótica nas escolas portuguesas e europeias já dão passos nesse sentido, promovendo atividades em que alunos criam os seus próprios miniprojetos de IA ou exploram conceitos de maneira lúdica. Fora das salas de aula, os pais também têm um papel essencial: cultivar o espírito crítico nos filhos ao consumir informação online, discutir os limites éticos da tecnologia (como privacidade e segurança) e demonstrar que, por trás de cada resposta “inteligente” do ChatGPT, há algoritmos que podem falhar.
A transição para um futuro onde a IA estará em todo o lado traz oportunidades e incógnitas. “Vamos com calma. Mas vamos”, escreveu Maria Prata, jornalista e mãe, refletindo sobre o que ensinar às filhas pequenas neste novo mundo. Em última instância, educar crianças para a era da inteligência artificial não significa ter todas as respostas prontas – significa prepará-las para fazer as perguntas certas, para aprender continuamente e para nunca perder de vista aquilo que as torna inconfundivelmente humanas.
Fontes
1. Maria Prata – “No mundo com inteligência artificial, o que as escolas precisam ensinar?” (coluna Futuro Presente, UOL Universa, 18 de junho de 2025);
2. Ana Sofia Neto – “IA está a afetar o pensamento crítico dos alunos, dizem professoras” (Pplware, 1 de abril de 2025);
3. Lusa (via SIC Notícias) – “Utilização de IA na educação implica rigor e responsabilidade, alerta Direção-Geral da Educação” (SIC Notícias, 6 de maio de 2025);
4. UNESCO / United Nations News – “UNESCO releases a new roadmap for using AI in education” (World Economic Forum, 6 de junho de 2023).
















