Abrir o automóvel sem retirar a chave do bolso tornou-se habitual em cada vez mais modelos. Os sistemas keyless, antes associados sobretudo a veículos de segmentos superiores, chegaram entretanto a automóveis mais acessíveis e permitem destrancar as portas apenas pela proximidade do comando. O problema é que a mesma comunicação por rádio que torna o sistema cómodo pode também ser explorada por ladrões.
Segundo o Notícias ao Minuto, com base em testes realizados pelo clube automóvel alemão ADAC, existem automóveis nos quais é possível prolongar artificialmente o sinal emitido pela chave, levando o veículo a interpretar que o proprietário está por perto. O método pode permitir abrir as portas e, em alguns casos, colocar o motor em funcionamento sem que o ladrão tenha fisicamente a chave.
Como conseguem abrir um carro se a chave está dentro de casa?
Num sistema keyless, o automóvel e o comando comunicam através de sinais de rádio. Quando a chave se encontra suficientemente próxima, o carro reconhece-a e autoriza a abertura das portas. Já no interior, basta normalmente carregar no botão start/stop para ligar o motor.
É precisamente esta comunicação que está na origem de um dos ataques mais conhecidos, geralmente chamado “relay attack” ou ataque por retransmissão. Com equipamento próprio, os criminosos procuram captar o sinal da chave e retransmiti-lo até junto do automóvel, fazendo com que este interprete que o comando está nas proximidades. Isto significa que a chave pode estar dentro de casa enquanto alguém tenta fazer chegar o respetivo sinal ao veículo estacionado no exterior. A operação pode ser realizada sem partir vidros ou forçar fechaduras, razão pela qual este tipo de furto pode deixar menos sinais exteriores imediatos do que um assalto tradicional.
ADAC já testou cerca de 850 automóveis
O ADAC, um dos maiores clubes automóveis europeus, testa há vários anos a resistência dos sistemas keyless a este tipo de ataque. Ao longo da última década, terá analisado cerca de 850 veículos equipados com esta tecnologia. Os resultados mostram que os construtores têm vindo a introduzir mecanismos mais seguros, mas o clube alemão continua a encontrar automóveis que podem ser abertos e colocados em andamento recorrendo à amplificação ou retransmissão do sinal.
Uma das maiores melhorias surgiu com a utilização de tecnologia Ultra-Wideband (UWB). Ao contrário dos sistemas mais antigos, esta solução permite ao automóvel determinar com maior precisão a distância real a que se encontra a chave. Desta forma, não basta amplificar o sinal: o veículo consegue perceber que o comando não está verdadeiramente próximo e recusa a abertura.
Há marcas que já reforçaram a proteção
De acordo com os testes citados pelo Notícias ao Minuto, existem diferenças relevantes entre fabricantes e mesmo entre modelos de uma mesma marca. O ADAC registou melhorias de segurança em veículos de fabricantes como Jaguar Land Rover e marcas do Grupo Volkswagen, incluindo Audi, Seat, Skoda e Volkswagen, devido à introdução de sistemas capazes de resistir melhor aos ataques por retransmissão.
Por outro lado, nos testes realizados ao longo dos anos foram encontrados modelos sem este nível de proteção em várias marcas, incluindo fabricantes dos grupos Stellantis, Tesla, BYD, Alpine e Honda. Isto não significa que todos os automóveis dessas marcas sejam vulneráveis. A tecnologia utilizada pode mudar consoante o modelo, o ano de produção e a versão do sistema keyless, pelo que a segurança deve ser verificada para cada veículo em concreto.
Algumas chaves desligam o sinal quando deixam de se mexer
Outro mecanismo adotado pelos fabricantes consiste na instalação de sensores de movimento no próprio comando. Quando a chave permanece imóvel durante determinado período, o sinal de rádio é desligado. Se estiver pousada numa mesa durante a noite, por exemplo, deixa de emitir o sinal necessário para uma tentativa de retransmissão. A solução reduz a janela de oportunidade, mas o ADAC considera-a menos robusta do que a tecnologia UWB. Enquanto a chave ainda estiver ativa — nomeadamente logo depois de o condutor chegar a casa — o sinal poderá continuar acessível.
Deixar a chave junto à porta pode aumentar a exposição
Há medidas simples que podem dificultar este tipo de ataque. Uma das principais é não deixar a chave do automóvel junto à porta de entrada, a uma janela ou a uma parede exterior da casa. Quanto mais próximo estiver o comando do exterior, mais fácil poderá ser captar o sinal. Se o veículo permitir desligar manualmente o sistema keyless, essa poderá também ser uma solução para quem prefere utilizar temporariamente o automóvel como se tivesse um comando convencional. Estacionar numa garagem fechada acrescenta ainda uma barreira física, embora não substitua as medidas de proteção eletrónica.
Uma caixa metálica pode ajudar, mas convém testar primeiro
Outra solução passa por guardar a chave num recipiente que bloqueie os sinais de rádio, frequentemente vendido como bolsa ou caixa Faraday. O ADAC refere igualmente soluções domésticas, como recipientes metálicos, desde que consigam efetivamente impedir a comunicação entre o comando e o veículo. O papel de alumínio é por vezes apontado como alternativa, mas o simples facto de envolver a chave não garante que o sinal fique completamente bloqueado.
Existe uma forma simples de testar. Coloque a chave dentro do recipiente, aproxime-se do automóvel e tente abrir a porta normalmente. Se o veículo continuar a destrancar, a solução não está a bloquear suficientemente o sinal.
Tem keyless? Primeiro confirme que sistema equipa o seu carro
Ter abertura e arranque sem chave não significa automaticamente que o automóvel seja fácil de roubar. Os sistemas mais recentes, especialmente os que utilizam UWB, foram desenvolvidos precisamente para combater este tipo de ataque. A idade do veículo também pode fazer diferença. Modelos com sistemas keyless de gerações anteriores tendem a não beneficiar das mesmas proteções introduzidas nos últimos anos.
Quem tiver dúvidas pode consultar o manual do automóvel, perguntar à marca se o modelo dispõe de UWB ou desativação automática do sinal da chave e verificar se existe a possibilidade de desligar a função de acesso sem chave. Até lá, uma precaução simples pode reduzir a exposição: evitar deixar o comando junto à entrada da casa e confirmar se o local onde é guardado consegue realmente impedir a comunicação com o automóvel.
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