Um aumento de 459,09% nas reclamações relacionadas com recall automóvel foi registado pelo Portal da Queixa no primeiro semestre de 2026, num período marcado por novas regras nas inspeções, maior visibilidade das campanhas e dificuldades no processo de reparação.
Entre janeiro e junho deste ano, a plataforma recebeu 123 reclamações, contra 22 no mesmo período de 2025. No conjunto do ano passado, tinham sido contabilizadas 64 queixas, mais 10,34% do que em 2024.
O Portal da Queixa considera que o crescimento não deve ser atribuído apenas a falhas nas campanhas, estando também relacionado com as recentes alterações regulamentares e com o maior acesso dos condutores à informação sobre intervenções pendentes.
Inspeção revela campanhas desconhecidas aos condutores
A inspeção periódica obrigatória é referida em 32,5% das reclamações analisadas. Em 9,8% dos casos, os consumidores afirmaram ter descoberto durante a inspeção que o veículo estava abrangido por uma campanha ainda por resolver.
De acordo com a análise, desde 1 de março de 2026, os veículos com ações de recall pendentes reprovam automaticamente na inspeção periódica, o que contribuiu para tornar visíveis situações anteriormente desconhecidas pelos proprietários.
A criação da plataforma RECALL, desenvolvida pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP) em parceria com o Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), reforçou também o acesso à informação. O serviço permite verificar a existência de campanhas pendentes através da matrícula ou do número de identificação do veículo.
Falta de peças e demora nas reparações motivam críticas
As ações de recall correspondem a intervenções gratuitas realizadas pelos fabricantes para corrigir defeitos que possam comprometer a segurança dos ocupantes, de outros utilizadores da estrada ou o ambiente.
As marcas devem contactar diretamente os proprietários identificáveis, recorrendo a meios como carta, correio eletrónico, telefone ou mensagem escrita. Quando um automóvel muda de titular, porém, a atualização dos dados pode não ocorrer de imediato, dificultando a comunicação.
Mesmo nessas situações, os fabricantes mantêm a obrigação de divulgar publicamente as campanhas e de assegurar as respetivas reparações.
Entre os principais motivos de reclamação encontram-se as dificuldades em marcar a intervenção dentro de um prazo considerado adequado, a falta de informação clara sobre o problema, as demoras provocadas pela indisponibilidade de peças e uma comunicação considerada pouco eficaz por parte das marcas.
A categoria “Produto e Reparação” reúne 62,02% das queixas, enquanto “Serviço e Atendimento” representa 24,03%.
Numa reclamação dirigida à Citroën, uma condutora afirmou não ter recebido informação antecipada sobre uma campanha que, segundo a própria, estava associada a um risco elevado.
“Nunca fui notificada previamente pela marca sobre esta campanha de recolha, apesar de se tratar de um problema classificado como de risco potencialmente mortal”, relatou.
Lisboa e Porto concentram maior número de reclamações
Lisboa reúne 22,48% das reclamações analisadas, seguindo-se o Porto, com 18,60%.
A maioria das queixas foi apresentada por consumidores do sexo masculino, que representam 72,09% do total. A maior incidência verifica-se entre os 35 e os 54 anos.
Para o Portal da Queixa, os dados mostram a necessidade de reforçar a comunicação, a rastreabilidade dos veículos e a articulação entre fabricantes, oficinas, entidades públicas e proprietários.
“Mais do que apontar responsabilidades de forma automática, é fundamental olhar para o ecossistema como um todo”, afirmou Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust.
O responsável reconheceu a existência de “falhas que devem ser corrigidas”, nomeadamente quando não há resposta, faltam peças ou as reparações sofrem atrasos, mas chamou também a atenção para as dificuldades em identificar os atuais proprietários.
“Também existem limitações reais, como a dificuldade em contactar os atuais proprietários quando os veículos mudam de titular e os dados não estão atualizados”, explicou.
“O desafio passa por reforçar a eficácia dos processos, garantindo uma comunicação clara, respostas atempadas e capacidade de execução adequada — elementos críticos para a segurança rodoviária e para a confiança dos cidadãos”, concluiu Pedro Lourenço.
A.Pinto / HDF
Leia também: Tem um destes? Centenas de carros desta marca chamados à oficina em Portugal por risco de incêndio
















