O ciclista espanhol Juan Ayuso (Lidl-Trek) conquistou hoje a 52.ª edição da Volta ao Algarve, sucedendo ao dinamarquês Jonas Vingegaard, ao vencer a quinta e última etapa, no Malhão.
Ayuso cumpriu os 148,5 quilómetros entre Faro e o alto do Malhão (Loulé) em 3:20.02 horas, superando sobre a meta o escocês Oscar Onley (INEOS), segundo, e o francês Paul Seixas (Decathlon), terceiro, que marcaram o mesmo tempo, com o português João Almeida (UAE Emirates) em quarto, a quatro segundos.
O espanhol, que já partiu para a tirada na liderança da geral, acabou a prova com tempo total de 15:51.12 horas, com o francês Paul Seixas (Decathlon) a acabar em segundo, a 14 segundos, e o português João Almeida (UAE Emirates) em terceiro, a 59.
A Volta ao Algarve já não era conquistada por um ciclista espanhol desde 2010, ano em que Alberto Contador ‘bisou’, ao serviço da Astana, repetindo o sucesso de 2009.
Juan Ayuso fez da sua ambição o segredo para ganhar a Volta ao Algarve
O perfil de Juan Ayuso por Ana Marques Gonçalves, da agência Lusa
Juan Ayuso demonstrou hoje que querer é poder, ao conquistar a sua primeira prova pela Lidl-Trek, com o ambicioso ciclista espanhol a confirmar na Volta ao Algarve que deixar a UAE Emirates foi a melhor opção.
Talvez o ciclista mais odiado pelos fervorosos fãs de João Almeida, o catalão de 23 anos não é um tipo afável. Profissional com a imprensa, raramente sorri – fá-lo apenas quando vislumbra entre o público os pais, que o acompanharam todos os dias nos bastidores da 52.ª Volta ao Algarve – e não esconde a impaciência quando tem de esperar ou lhe fazem demasiadas perguntas.
O semblante fechado combina com a sua postura ambiciosa na estrada, onde o espírito ganhador o torna verdadeiramente ‘ávido’ de triunfos.
Ayuso leva-se tão a sério e ao seu trabalho que todos os pormenores contam, ao ponto de ter pedido para não vestir a camisola amarela no contrarrelógio da ‘Algarvia’, apostado que estava em testar em competição o fato que vestirá na Volta a França, a prova que sonha vencer.
Desde o primeiro momento em que ‘aterrou’ na Volta ao Algarve, foi evidente que era fundamental para o agora campeão da 52.ª edição sair vencedor da sua corrida de estreia com as cores da Lidl-Trek, até porque os seus grandes adversários à partida eram Almeida e, sobretudo, a UAE Emirates.
Embora nesta prova tenha recusado estabelecer comparações entre o seu passado e a sua atual equipa, não é segredo para ninguém o ressentimento que o corredor espanhol sente em relação à formação que representou durante cinco temporadas e que acusou de querer denegrir a sua imagem.
Se há qualidade que Ayuso tem é a sua sinceridade, na estrada e fora dela.
Foram demasiadas as vezes em que desobedeceu a ordens da equipa, não quis trabalhar para colegas – o incidente com Almeida no Tour2024 foi o exemplo mais ‘gritante’ -, com o divórcio com a UAE a tornar-se inevitável durante uma Vuelta em que também pensou apenas nos seus interesses, preferindo vencer duas etapas do que ajudar o português a conquistar a geral.
Antes de se tornar na ‘vedeta’ que é hoje, Ayuso teve um profícuo percurso pessoal e profissional: nascido em 16 de setembro de 2002, em Barcelona, emigrou com apenas dois anos para Atlanta (Estados Unidos).
O sonho americano dos Ayuso durou cinco anos, tempo suficiente para aprender inglês e ter “uma boa pronúncia”, como o próprio admite no seu site. Foi já em Espanha, mais concretamente quando a família se mudou para Jávea, que descobriu o ciclismo.
Apaixonado pelo futebol até então – chegou a treinar no centro desportivo do Real Madrid, apesar de ser ferrenho adepto do FC Barcelona -, o pequeno ainda conciliou as duas modalidades, até optar definitivamente pela bicicleta aos 11 anos, uma decisão que se revelou mais do que acertada já que os resultados não tardaram a aparecer.
No seu primeiro ano como cadete, em 2017, sagrou-se campeão espanhol de fundo e de contrarrelógio, com esses dois triunfos a fazerem-no acreditar que poderia ser profissional, uma ‘miragem’ que concretizou quatros anos depois, quando a UAE Emirates o contratou.
Nos primeiros meses ainda ‘rodou’ na Colpack Ballan, mas a vitória no ‘Baby Giro’ abriu-lhe definitivamente as portas do plantel principal da formação dos Emirados, que no ano seguinte lhe deu a oportunidade de estrear-se numa grande Volta.
Ao desafio, Ayuso respondeu com o terceiro lugar na Vuelta2022, tornando-se, aos 19 anos, o mais jovem da história a subir ao pódio da prova espanhola e o segundo mais novo numa grande Volta.
A grande expectativa criada em torno do ciclista espanhol acabou por não se confirmar nas temporadas seguintes, com o catalão a evocar problemas físicos e psicológicos nunca completamente esclarecidos para entrar tardiamente na época de 2023, na qual foi quarto na Vuelta.
Talvez excessivamente autoconfiante, o egocêntrico corredor mostrou lidar mal com lideranças partilhadas, nomeadamente escusando-se a trabalhar até para o ‘intocável’ Pogacar no Tour2024, que abandonou alegando “falta de força” após ter contraído covid-19.
Também a estreia no Giro2025 foi um fracasso, com o agora líder da Lidl-Trek a vencer a sétima etapa, mas a desistir depois de ter sido picado por uma abelha, numa altura em que o líder da geral era o seu jovem companheiro Isaac del Toro.
Vencedor do Tirreno-Adriático em 2025 e agora da Volta ao Algarve, Ayuso tem este ano para demonstrar se é efetivamente um campeão de grandes Voltas numa equipa em que é o incontestável líder ou se é apenas mais um excelente corredor, mas num patamar abaixo dos ‘extraterrestres’ Pogacar ou Jonas Vingegaard, o homem que sucedeu no palmarés da ‘Algarvia’.
Vencedores no alto do Malhão
Lista dos vencedores de etapas da Volta ao Algarve em bicicleta com meta instalada no alto do Malhão (Loulé), após a quinta e última etapa da 52.ª edição, disputada hoje:
– As 22 chegadas ao alto do Malhão:
2026: Juan Ayuso, Esp (Lidl-Trek).
2025: Jonas Vingegaard, Din, (Visma-Lease a Bike)*
2024: Daniel Martínez, Col (BORA-hansgrohe)
2023: Thomas Pidcock, GB (INEOS).
2022: Sergio Higuita, Col (BORA-hansgrohe).
2021: Élie Gesbert, Fra (Arkéa-Samsic).
2020: Miguel Ángel López, Col (Astana).
2019: Zdenek Stybar, Che (Deceuninck-QuickStep).
2018: Michal Kwiatkowski, Pol (Sky).
2017: Vicente García de Mateos, Esp (Louletano-Hospital de Loulé) **
2016: Alberto Contador, Esp (Tinkoff).
2015: Richie Porte, Aus (Sky).
2014: Alberto Contador, Esp (Tinkoff-Saxo).
2013: Sergio Henao, Col (Sky).
2012: Richie Porte, Aus (Sky).
2011: Stephen Cummings, GB (Sky).
2010: Alberto Contador, Esp (Astana).
2009: António Cólom, Esp (Katusha).
2006: João Cabreira, Por (Maia Milaneza).
2005: Hugo Sabido, Por (Paredes Rota dos Móveis).
2004: Floyd Landis, EUA (US Postal).
2003: Pedro Cardoso, Por (Milaneza-MSS).
* A etapa foi disputada em formato de contrarrelógio individual.
** O vencedor Amaro Antunes (W52-FC Porto) foi desclassificado por doping.
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