Quase toda a gente no Algarve já viveu este momento: uma caixa de gatinhos deixada junto ao contentor, um gato faminto que aparece à porta e não desiste. A vontade de ajudar é imediata. A pergunta que se segue é que trava tudo: e agora, a quem é que eu ligo?
Foi exatamente nessa pergunta que Iain Short e Sandra Regina tropeçaram, vezes sem conta, desde que se mudaram para Portugal em 2022. Primeiro em Lagos, onde ajudavam a alimentar colónias da cidade, depois a norte de Tavira, onde os gatinhos abandonados junto aos contentores pareciam não ter fim. Levaram cada um ao veterinário para esterilizar e vacinar, sempre a pagar do próprio bolso.

O que ninguém lhes disse durante muito tempo é que grande parte daquela despesa era desnecessária. Todos os municípios algarvios têm um canil municipal, e a esterilização de gatos de rua é, em geral, feita gratuitamente. É um serviço público que existe, funciona e está à distância de um telefonema. O problema é que muita gente, portugueses incluídos, não sabe que ele existe, nem sabe qual é o número certo no seu concelho.
“Só descobrimos os canis depois de muitas contas do veterinário”, conta Iain. “Pensávamos sempre: alguém nos devia ter dito isto no primeiro dia. Até percebermos que esse alguém podia ser uma app.”

Essa app é a Stray – Algarve Cat Help, lançada este ano, primeiro para Android e depois para iPhone. É totalmente gratuita, sem registo, sem publicidade e sem fins lucrativos. Quem encontra um gato de rua abre a app e, em segundos, fica a saber qual o veterinário, associação ou canil municipal mais próximo, com contactos prontos a usar e conselhos práticos sobre o que fazer a seguir. Os dezasseis concelhos do Algarve estão abrangidos, de Aljezur a Vila Real de Santo António.
A Stray não foi construída de forma isolada. Durante o desenvolvimento, o casal pediu a opinião das associações e dos canis municipais da região, e a resposta surpreendeu-os. “As pessoas foram genuinamente positivas e generosas com o seu tempo”, diz Iain. “Conhecem este problema melhor do que ninguém e deram sugestões excelentes que moldaram a app.” O resultado é uma ferramenta que não substitui o trabalho de quem está no terreno; encaminha-lhe as pessoas certas, no momento certo.

A receção tem confirmado a ideia. Depois de uma reportagem no The Portugal News, os downloads subiram e começaram a chegar mensagens de desconhecidos a oferecer ajuda, de traduções a design. Afinal, o Algarve está cheio de pessoas que alimentam discretamente os gatos abandonados dos outros. Faltava-lhes uma forma de se encontrarem.
Entretanto, perto de Estoi, a história do casal repetiu-se: continuam a chegar gatos à porta, cada um a precisar de comida, vacinas e uma ida ao canil. Hoje alimentam todas as tardes uma colónia no Sítio do Azinheiro, dois malhados, um ruivo de porte senhorial e uma gatinha preta de três patas convencida de que a quinta é dela. Tudo tem saído do bolso dos dois, e por isso criaram uma angariação de fundos: cada donativo é usado em comida e vacinas e, à medida que o fundo crescer, esperam acrescentar abrigos exteriores para o inverno. Os donativos podem ser feitos em gofund.me/29b7cf23e.

Há ainda uma forma de ajudar com histórias: Iain é autor de um livro infantil, The Purrfect Rescue, sobre uma família que acolhe um gatinho de rua. O livro está disponível na Amazon e todos os direitos de autor revertem para a colónia.
Quanto ao futuro, há ideias, mas sem grandes promessas: abrir a app a todos os animais e alargá-la ao resto do país estão nos planos. Para já, o foco é o Algarve e a sua gente. A app custa zero e pode ser o número certo no dia em que a caixa de gatinhos aparecer à sua porta: basta procurar “Stray – Algarve Cat Help” no Google Play ou na App Store.

















