A partir desta segunda-feira, os utentes acompanhados pelos hospitais e centros de saúde da Unidade Local de Saúde do Algarve vão poder realizar fisioterapia em casa com recurso à inteligência artificial, através de dispositivos prescritos por médicos do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A solução, disponível em todo o país a partir de segunda-feira, 22 de junho, não terá custos para os utentes e destina-se à reabilitação musculoesquelética, área que abrange problemas dos músculos, articulações, ossos e tendões.
“Não é o utente que vai ao centro clínico, é o centro clínico que vai ao utente”, afirmou Virgílio Bento, presidente e fundador da empresa portuguesa Sword Health, durante a apresentação da medida no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Segundo a empresa, será disponibilizada “fisioterapia remota com IA em todos os Hospitais e Centros de Saúde do setor público, sem quaisquer custos para os utentes”.
ULS Algarve integra protocolos para novas soluções de IA
Além da disponibilização nacional da fisioterapia à distância, a ULS Algarve integra o grupo de nove unidades locais de saúde envolvidas em protocolos para avançar com soluções de inteligência artificial noutras áreas, nomeadamente na triagem e na gestão de cuidados continuados.
Os acordos abrangem também as ULS Santa Maria, Alto Ave, Baixo Mondego, Cova da Beira, Matosinhos, São João, Almada-Seixal e São José.
O recurso à tecnologia poderá ter particular relevância para os utentes que vivem mais longe das unidades de saúde ou que enfrentam dificuldades de mobilidade e transporte, ao permitir que parte da recuperação seja feita em casa. O acompanhamento presencial continuará, contudo, a ser necessário nas situações clínicas que assim o exijam.
Dispositivo corrige exercícios em tempo real
O modelo funciona através de um dispositivo médico certificado, semelhante a um tablet, que transmite ao utente as indicações necessárias para executar o seu plano de exercícios.
A inteligência artificial analisa os movimentos e pode corrigir a sua execução em tempo real. Os resultados das sessões são acompanhados por uma equipa clínica, que poderá intervir em caso de erro, falha ou dúvida e ajustar o plano terapêutico quando necessário.
O dispositivo é enviado para casa após prescrição médica e uma avaliação inicial. Virgílio Bento afirmou que a entrega deverá ser feita “bastante rápido”, embora tenha salientado que determinadas situações continuarão a ser avaliadas presencialmente pelos profissionais de saúde.
De acordo com a informação divulgada pela empresa, os médicos de família e outros médicos assistentes do SNS poderão prescrever este modelo a utentes com problemas musculoesqueléticos comuns, como dores lombares, dores no ombro ou no joelho, entorses e distensões musculares.
Empresa estima redução das listas de espera
A Sword Health estima que a utilização da tecnologia possa reduzir em 97% o tempo de espera para o início da fisioterapia e permitir uma poupança de 45% face ao modelo convencional. Estes valores constituem estimativas apresentadas pela própria empresa.
A ULS Cova da Beira foi a primeira unidade do SNS a disponibilizar os dispositivos aos utentes, em 2025.
“Foi possível reduzir significativamente o número de utentes com estas condições em lista de espera”, declarou João Marques Gomes, presidente do conselho de administração daquela unidade.
Segundo o responsável, o tempo médio entre a referenciação hospitalar e o início da fisioterapia passou de dois anos para dez dias.
Maria Teresa, uma das utentes que continua a utilizar o dispositivo, afirmou ter conseguido retomar as suas rotinas e considerou que, desde o primeiro contacto com o equipamento, a “simplicidade [do dispositivo] é extraordinária”.
Novo enquadramento legal permitiu avançar
A parceria tornou-se possível após a publicação, em fevereiro, de um novo enquadramento para convenções nacionais de medicina física e de reabilitação através de telerreabilitação.
As regras preveem a utilização de dispositivos médicos certificados e de plataformas tecnológicas para a avaliação funcional remota, prescrição e monitorização de exercícios terapêuticos, treino funcional e acompanhamento da adesão ao tratamento. A legislação estabelece também que os utentes abrangidos devem possuir literacia digital adequada à utilização autónoma destes meios.
A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, afirmou durante a cerimónia que a inteligência artificial não resolverá todos os problemas do setor, mas poderá contribuir para aumentar a acessibilidade aos cuidados de saúde.
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