Uma das mensagens políticas mais repetidas nos últimos tempos, estampada em cartazes por todo o país, entrou em rota de colisão com a realidade material da própria campanha que a promove. Durante uma ação de contacto com a população no norte do país, a distribuição de brindes acabou por revelar uma ironia que não passou despercebida a quem recebeu as ofertas. O detalhe encontra-se numa pequena etiqueta cosida no interior das peças de vestuário oferecidas.
A situação insólita envolve as t-shirts distribuídas pela candidatura de André Ventura em Mirandela, cuja origem de fabrico contradiz o slogan do líder partidário. Quem verificou a etiqueta das camisolas deparou-se com a inscrição “made in Bangladesh”, precisamente o país que o candidato usa como termo de comparação negativa nos seus discursos e cartazes.
De acordo com a NiT, as camisolas foram entregues na segunda-feira durante uma ação de campanha no distrito de Bragança. A publicação destaca a incoerência entre o produto oferecido e a frase “Isto não é o Bangladesh”, uma das bandeiras da comunicação do Chega para as presidenciais.
Uma produção asiática em larga escala
As t-shirts em questão são produzidas por uma empresa do grupo Keya, sediado no país asiático que tem sido alvo das críticas do candidato. Indica a mesma fonte que esta organização têxtil possui uma capacidade de produção superior a cem milhões de peças e conta com uma representante na Europa, referenciada na própria etiqueta da roupa.
O grupo industrial responsável pelo fabrico é um gigante do setor, empregando mais de dez mil pessoas em diversos departamentos, desde a fiação até à costura. Os seus artigos são vendidos globalmente sob várias marcas há mais de duas décadas, chegando agora às mãos dos eleitores portugueses através de uma campanha nacionalista.
Outros brindes com origem chinesa
Para além das t-shirts, a origem dos restantes materiais de campanha também levantou questões sobre a preferência por produtos nacionais. Embora os chapéus e cachecóis não apresentem referência direta ao local de produção, a forma como foram transportados revela a sua proveniência.
Explica a referida fonte que a maioria destes brindes estava acondicionada em caixas com referências à empresa Best Oriente. Esta companhia define-se como luso-chinesa e posiciona-se no mercado de marketing promocional com artigos “Made in China”, possuindo estrutura própria de produção em Yiwu.
O discurso contra a “invasão”
A ironia ganha contornos mais definidos quando confrontada com as declarações proferidas pelo candidato sobre a imigração oriunda do sudeste asiático. André Ventura tem alertado recorrentemente para o que classifica como uma invasão de cidadãos destes territórios, usando o tema como eixo central do seu apelo ao voto.
Ainda na manhã da ação de campanha, durante uma visita a Vila Real, o líder do Chega reforçou que se o país pagasse melhor aos portugueses, não precisaria desta mão de obra estrangeira. O candidato mencionou especificamente a necessidade de evitar a entrada de pessoas da Índia, do Nepal e do Bangladesh.
Certificações e comércio internacional
A empresa fabricante das t-shirts polémicas mantém uma forte presença internacional, com escritórios regionais em Bruxelas e nos Estados Unidos. A organização possui várias certificações globais e integra a Câmara de Comércio e Indústria Bangladesh-Alemanha para facilitar a sua posição no mercado europeu.
Explica ainda a NiT que as imagens das etiquetas começaram a circular rapidamente nas redes sociais, gerando comentários sobre a proveniência dos materiais de propaganda. O episódio surge numa altura em que o partido já tinha sido obrigado pela justiça a remover cartazes com mensagens consideradas discriminatórias para com minorias.
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