O regresso às aulas para uma criança com necessidades educativas específicas é sempre um momento delicado, um território de transição que tanto pode oferecer esperança como pode despertar fragilidade. A escola abre-se como um espaço de possibilidades, mas também de obstáculos invisíveis. Para estas crianças, o reencontro com os corredores e as salas não é apenas um ritual de início do ano, é um confronto com mudanças que, para muitos, são difíceis de assimilar. A instabilidade das equipas docentes e técnicas agrava essa sensação de imprevisibilidade, colocando-os perante um chão que se move constantemente debaixo dos seus pés.

Presidente da Delegação Regional Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Não se trata apenas de currículos, manuais ou horários. O que está em causa é a rede que deveria sustentar cada passo. Professores, psicólogos, terapeutas e outros técnicos formam uma teia de relações que deveria ser consistente e comunicante. No entanto, a realidade portuguesa revela fissuras. Psicólogos externos às escolas denunciam repetidamente a dificuldade em articular com as instituições de ensino, encontrando barreiras onde deveria existir diálogo. Esta falta de pontes compromete o acompanhamento integrado, transformando o esforço individual de cada profissional num eco isolado que dificilmente chega ao coração da criança.
Estas crianças não são homogéneas, cada uma traz consigo um mapa único de forças e vulnerabilidades. Algumas revelam capacidades excecionais em áreas específicas, mas isso não apaga os desafios que enfrentam noutras dimensões. Uma criança que deslumbra pela memória ou pelo raciocínio lógico pode simultaneamente ter sérias dificuldades em compreender subtilezas sociais, gerir emoções ou lidar com mudanças repentinas. Ignorar esta complexidade é reduzir o ser humano a um fragmento e não a um todo.

Cédula profissional n.º 5137 da OPP
O que está em jogo não é apenas o sucesso escolar, é a dignidade do percurso. É a possibilidade de sentir que o regresso às aulas não significa um mergulho em águas turbulentas, mas antes um navegar em mar, ainda que incerto, acompanhado por mãos firmes. Para isso, é necessária uma articulação mais profunda entre as instituições e os profissionais, uma comunicação que vá além da burocracia e da urgência. Uma escola que se quer inclusiva não pode viver de improvisos. Precisa de continuidade, de equipas estabilizadas, de uma visão comum que saiba reconhecer o que cada criança necessita para florescer.
A realidade desafia-nos a construir essa rede de apoio como quem tece um manto protetor, ponto a ponto, gesto a gesto. Porque cada falha nessa costura recai sobre aqueles que menos conseguem suportar o peso da descontinuidade. E talvez seja essa a nossa maior responsabilidade: garantir que a escola, em vez de se tornar um espaço de fragmentação, possa ser um lugar de pertença, de segurança e de futuro.
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