Antigamente, o beijo entre namorados era roubado à sombra das árvores, longe dos olhares curiosos. Assuntos de família resolviam-se à mesa de jantar, entre poucos, e não havia espaço — nem vontade — para que a intimidade se tornasse pública. Hoje, a fronteira entre o que é do foro privado e o que pertence ao domínio público parece ter-se evaporado.
Vivemos tempos em que tudo parece estar à distância de uma publicação. O almoço em família é fotografado, editado e partilhado com legendas afetadas. As discussões de casal ganham palco nas redes sociais, com desabafos, acusações e pedidos de opinião alheia. A vida íntima deixou de ser, necessariamente, íntima. Passou a ser conteúdo.
Mas esta exposição é, muitas vezes, voluntária. Não somos apenas vítimas de um sistema que tudo regista — somos também protagonistas dessa exibição. Procuramos atenção, validação, pertencimento. E, nesse processo, tornamo-nos espetadores e espetáculos ao mesmo tempo.

Jurista
Recuperar a fronteira entre o público e o privado não significa fechar-se ao mundo. Significa escolher. Escolher o que se partilha, com quem, e porquê
Há, no entanto, uma outra dimensão mais preocupante: a da exposição involuntária. Ojulgamento público tornou-se um ritual social. Bastam alguns segundos de vídeo, um tweet fora de contexto ou um rumor mal explicado, para que alguém seja condenado na praça digital. Sem defesa. Sem nuances. A devassa da vida privada já não exige jornalistas ou investigação — basta uma partilha viral.
Este fenómeno afeta não só figuras públicas, mas qualquer um de nós. Um momento mal interpretado pode ser suficiente para manchar reputações, destruir relações ou afetar a saúde mental. E quase sempre, quem assiste consome, comenta, e depois esquece. Mas quem é exposto raramente esquece.
Mesmo as crianças, que outrora cresciam no recato das famílias, veem-se agora transformadas em pequenas personagens de reality shows domésticos. O fenómeno do sharenting — a exposição excessiva da vida dos filhos nas redes sociais — levanta sérias questões éticas: que direito têm os pais de construir uma identidade digital para alguém que ainda não pode consentir?
Talvez valha a pena perguntar: o que perdemos com tudo isto? Perdemos privacidade, sim. Mas também perdemos o silêncio, o mistério, o tempo de amadurecer antes de partilhar. Perdemos, talvez, a noção de que há coisas que só existem plenamente quando permanecem no íntimo.
Recuperar a fronteira entre o público e o privado não significa fechar-se ao mundo. Significa escolher. Escolher o que se partilha, com quem, e porquê. Significa entender que há gestos — como um beijo, uma dor, ou um perdão — que ganham profundidade precisamente por serem guardados.
No final, talvez a intimidade seja o último espaço de liberdade. E a verdadeira pergunta que se impõe é: o que ainda escolhemos calar?
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