Houve um tempo em que o capitalismo dominante tinha uma natureza industrial, produtiva e, até certo ponto, enraizada em valores familiares e nacionais. Era um capitalismo que se construía em torno da fábrica, da produção de bens tangíveis, da criação de riqueza sustentada no trabalho humano e no desenvolvimento das comunidades locais. Não era, obviamente, um sistema isento de conflitos ou injustiças, mas havia nele um certo sentido de responsabilidade social, ainda que motivado, muitas vezes, por interesses pragmáticos. Esse modelo industrial procurava preservar a saúde e a estabilidade dos seus trabalhadores, não por filantropia pura, mas porque reconhecia neles um recurso essencial à continuidade do negócio. O bem-estar da força de trabalho era, pois, um investimento na produtividade futura. Empresas como a CUF — Companhia União Fabril — fundada por Alfredo da Silva em Portugal, são exemplo desse capitalismo paternalista: criavam bairros operários, prestavam cuidados médicos, investiam em educação e promoviam uma certa ideia de coesão social dentro do universo fabril.
Paralelamente, era um capitalismo em que, na relação entre os respetivos agentes, subsistia um certo respeito por princípios éticos hoje em grande parte perdidos. Bastava, por vezes, a palavra dada, acompanhada de um aperto de mão, para que um negócio se fechasse e cada uma das partes o respeitasse, sob pena de se ver recair sobre quem à sua palavra faltasse o estigma social da desonra. É certo que essa ética informal nem sempre era cumprida e, por vezes, limitava-se a círculos sociais específicos, deixando de fora muitos trabalhadores e pequenos agentes económicos. Ainda assim, o simples facto de existir como norma reconhecida funcionava como um travão simbólico a certos abusos, refletindo uma conceção das relações económicas em que a confiança e a reputação tinham peso real.

Jurista
Em vez de investir na coesão social ou no bem-estar dos trabalhadores, este novo capitalismo transfere para o Estado as responsabilidades sociais que antes, ainda que parcialmente, assumia
Contudo, esse capitalismo produtivo cedeu progressivamente lugar a uma nova forma de acumulação, agora hegemónica: o capitalismo financeiro e especulativo. Este novo paradigma já não tem rosto nem pátria. Organizado sob a forma de grandes corporações anónimas, atua à escala global, orientando-se não pela criação de valor a longo prazo, mas por lucros rápidos, muitas vezes descolados de qualquer atividade produtiva.
Com a globalização, o capital tornou-se ainda mais móvel, deslocando-se com agilidade para os contextos onde a fiscalidade é mais favorável, a regulação mais branda e a mão-de-obra mais barata. Em vez de investir na coesão social ou no bem-estar dos trabalhadores, este novo capitalismo transfere para o Estado as responsabilidades sociais que antes, ainda que parcialmente, assumia. A habitação, a saúde, a educação e a segurança social passaram a ser encargos públicos (por enquanto, já que cada vez mais limitados), enquanto os lucros são privatizados e muitas vezes canalizados para paraísos fiscais.
Mais grave ainda: este capitalismo financeiro opera frequentemente com base numa lógica de risco desenfreado e desprovido de racionalidade económica sustentável. A busca incessante por retornos imediatos leva a práticas especulativas que alimentam bolhas e instabilidades sistémicas. A crise financeira de 2008, causada pela proliferação de hipotecas subprime e por instrumentos financeiros opacos, é um exemplo marcante das consequências desta lógica predatória. Um capitalismo onde um contrato, mesmo reduzido a escrito e com assinaturas das partes reconhecidas pelo notário, deixa, muitas vezes, de ser cumprido.
É neste mundo — onde o capital deixou de produzir riqueza real para se alimentar de si próprio — que hoje vivemos. Um mundo em que as grandes decisões económicas são tomadas por atores invisíveis, frequentemente indiferentes às consequências sociais e ambientais das suas ações. Um mundo, enfim, em que o capitalismo deixou de ser um sistema produtivo para se tornar, muitas vezes, um jogo de soma zero em que poucos ganham e muitos perdem.
Resta-nos, enquanto sociedade, interrogar se este é o único modelo possível. Será inevitável que o capital se emancipe de toda e qualquer ética? Ou poderemos, coletivamente, imaginar um sistema que volte a colocar a economia ao serviço da vida humana, construção lúcida de um futuro mais justo, solidário e sustentável?
Post Scriptum:
Mau grado a censura decretada pela UE ao canal russo RT, conseguimos, contudo, ter acesso à seguinte notícia dada pelo mesmo na sua edição brasileira:
A Rússia deu início aos primeiros testes clínicos da EnteroMix, uma vacina experimental contra o cancro baseada no uso de vírus que atacam diretamente células tumorais.
Segundo o oncologista-chefe do Ministério da Saúde russo, Andrei Kaprin, os primeiros resultados indicam que o medicamento apresenta um efeito tóxico «muito leve».
O anúncio foi feito durante o 28º Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo. Kaprin, que também é diretor do Centro Nacional de Pesquisa Médica Radiológica (NMRRC), explicou que o instituto foi designado para conduzir um ensaio clínico de fase 1, aberto e em um único centro, envolvendo 48 voluntários.
Os testes incluem homens e mulheres com idades entre 18 e 75 anos, todos com diagnóstico confirmado de tumores sólidos que não responderam a cirurgias ou aos tratamentos convencionais. A seleção dos pacientes foi anunciada ainda no final do ano passado.
A vacina utiliza vírus oncológicos — no caso, enterovírus — geneticamente modificados para não afetar células saudáveis, mas que atuam seletivamente contra as células malignas. «Na nossa linguagem usual, esses vírus ‘se alimentam’ das células cancerígenas», afirmou Kaprin.
Segundo informações divulgadas pelo NMRRC, o imunizante é composto por uma combinação de quatro vírus não patogénicos capazes de destruir células tumorais e, ao mesmo tempo, estimular a resposta imune contra o câncer.”O efeito antitumoral pode variar desde a desaceleração do crescimento do tumor até sua completa destruição”, explica o centro em seu site oficial.
Além da EnteroMix, outras iniciativas russas estão em desenvolvimento. A Universidade de Ciência e Tecnologia de Sirius, em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia de Gamaleya e especialistas de grandes centros oncológicos do país, está desenvolvendo uma vacina baseada em tecnologia de mRNA.
Esse tipo de vacina visa treinar o sistema imunológico a reconhecer e eliminar células cancerígenas e, por enquanto, está em fase de testes pré-clínicos, sendo avaliada em modelos animais.»
Poderá uma vacina unir povos que guerras separam? Será que vamos, ainda, ver cientistas russos trabalhando em conjunto com cientistas portugueses no Centro Oncológico do Algarve!
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