No debate político contemporâneo, marcado por interesses diversos e não raro contraditórios, há uma palavra, contudo, que atravessa todo o espetro ideológico com surpreendente unanimidade: “povo”. Da esquerda à direita, todos os partidos a evocam, todos os líderes se apresentam como seus defensores. Mas será que falam realmente da mesma coisa quando recorrem a este termo tão carregado de simbolismo?
A partir de acontecimentos como a Revolução Francesa, a ideia de que o poder pertence ao povo consolidou a noção de soberania popular: governar passou a significar, pelo menos em teoria, governar em nome do povo e, daí, a evocação política que dele constantemente se faz.
O problema é que nunca existiu uma definição única do que seja esse povo.

Jurista
Para uns, o povo é uma categoria socioeconómica; para outros, é uma comunidade cultural. Ambos falam em seu nome, mas falam, na verdade, de povos diferentes
“Povo” é, por natureza, uma palavra ambígua. Pode referir-se ao conjunto dos cidadãos, às classes populares, à maioria social ou até a uma comunidade cultural e histórica. Essa elasticidade semântica é que permite que cada força o molde às suas próprias necessidades.
Na tradição da esquerda, “povo” tende a significar sobretudo as classes trabalhadoras e os grupos socialmente desfavorecidos. Surge associado à desigualdade económica, à exploração e à luta por justiça social. O povo é visto como sujeito coletivo que deve emancipar-se e conquistar direitos.
Já na direita, o termo aproxima-se mais da ideia de “nação”: uma comunidade unida por valores, história e identidade cultural. Aqui, o foco não está na divisão entre classes, mas na coesão, na continuidade e na preservação de tradições. Em certos discursos, o “povo” aparece até como contraponto às elites cosmopolitas, consideradas distantes da realidade nacional.
Assim, embora a palavra seja a mesma, o seu significado varia profundamente. Para uns, o povo é uma categoria socioeconómica; para outros, é uma comunidade cultural. Ambos falam em seu nome, mas falam, na verdade, de povos diferentes.
Talvez seja precisamente essa plasticidade que explica a força do termo. Ninguém se declara contra o povo, e todos procuram nele a legitimidade das suas propostas. “Povo” funciona como um espelho onde cada corrente política projeta a sua própria visão do mundo — e é por isso que continua a ser uma das palavras mais repetidas, e mais disputadas, da linguagem política contemporânea.
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