Vivemos tempos desafiadores em termos democráticos. Os jovens são cada vez mais “engolidos” por vídeos de quinze segundos a explicar política. Enquanto isso, o verdadeiro debate e o escrutínio democrático acabam muitas vezes reduzidos a quem tem mais visualizações e engagement nas redes sociais. Este panorama cria o ambiente perfeito para o crescimento da desinformação, para a simplificação excessiva de temas complexos e para a formação de opiniões rápidas. Muitas dessas opiniões surgem desligadas de factos ou de uma compreensão mínima do funcionamento das instituições democráticas. Num contexto em que grande parte do primeiro contacto dos jovens com a política acontece através destes formatos curtos e emocionais, torna-se cada vez mais difícil distinguir informação de propaganda e análise de mera reação.
Perante esta realidade, a questão já não é saber se os jovens devem contactar com a política. A verdadeira questão é perceber se queremos que o façam sozinhos, entre algoritmos e conteúdos virais, ou se a escola deve assumir o seu papel na formação de cidadãos mais informados, críticos e conscientes da sua participação democrática.
Este cenário torna-se ainda mais preocupante quando olhamos para os dados sobre a literacia política da população portuguesa. Diversos estudos internacionais têm apontado para níveis relativamente baixos de interesse e conhecimento político entre os portugueses. Muitos cidadãos revelam dificuldades em compreender o funcionamento das instituições democráticas ou em distinguir informação rigorosa de conteúdos manipuladores ou desinformativos. Neste contexto, a exposição dos jovens a conteúdos políticos superficiais nas redes sociais torna-se particularmente problemática.
Quando o primeiro contacto com a política surge através de vídeos curtos, slogans ou reações emocionais, o risco não é apenas a desinformação. Existe também o perigo de se formar uma relação tóxica com a própria democracia. Num país onde a literacia política ainda é frágil, ignorar este fenómeno não é uma solução. A política já entrou no quotidiano dos jovens através dos seus telemóveis, das suas redes sociais e dos conteúdos que consomem diariamente.
Perante esta realidade, a escola não pode simplesmente virar as costas ao problema. A escola deve assumir um papel de mediador. Deve incentivar o pensamento crítico e a capacidade de análise. Deve ajudar os jovens a distinguir factos de opiniões, a compreender o funcionamento das instituições e a formar juízos próprios sobre a realidade política. Mais do que ensinar respostas prontas ou promover qualquer ideologia, a escola deve apresentar o mundo político de forma transparente. Deve mostrar os desafios, as oportunidades e a importância da participação ativa.
Só assim será possível preparar cidadãos informados e conscientes dos seus direitos e deveres. Cidadãos capazes de intervir de forma responsável na democracia e de resistir à tentação de aceitar superficialmente qualquer conteúdo que encontrem nas redes sociais. Ignorar a política na vida dos jovens não os protege. Apenas os deixa à mercê de conteúdos superficiais e de desinformação. A escola tem a responsabilidade de intervir e de formar cidadãos críticos, informados e conscientes da sua participação democrática. Ao preparar esta geração para compreender e agir de forma responsável, damos-lhes as ferramentas para construir uma democracia mais sólida e mais participativa. Uma democracia capaz de preparar Portugal para os desafios do amanhã.
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