Continuo sem compreender porquê, em ti, Gaza, persiste em grassar uma despudorada falta de vergonha que teima em não mudar de rumo e os teus filhos persistem em morrer aos milhares, que nem tordos. De tanto sofrerem, quase parecem inumanos. Não sei se é pelo mediatismo que te é imposto que deixas que a sua morte se banalize, como num filme consumido ao instante e logo passado para trás, se é por nós, pobres etnocêntricos europeus, superiores aos demais povos, não sermos sensíveis à emporcalhada poeira dos destroços e do sangue de mulheres e crianças, que anuncia que a tua Faixa fica num outro hemisfério cultural.
Enquanto nós, modernaços ocidentais, lutamos pela superação da adversidade da morte, ou, pelo menos, procuramos minimizar o sofrimento que ela implica, vocês continuam a fazer dela uma estranha apologia metafísica. Vocês, que marcam encontro diário com o rolo compressor da morte, não choram. Vocês gritam, desfazendo-se em infinitos ais. Bem entendido que nessa Faixa, em que sois gente abusada, do nascer ao por do sol, com vidas viradas de um vegetativo avesso, não há tempo para lágrimas e suspiros. A fome de uma refeição seca-vos os rostos. Se, ao menos, a privação de alimentos vos proporcionasse uma morte indolor para aliviar o sofrimento da guerra, ainda vá que não vá, mas, porque é essa morte que vos avassala os dias de sofrimento, isso não tem piada nenhuma.
– “E nós aqui, com tanto desperdício de comida”, dizia um vizinho, em conversa de café, de olhar seráfico para aquelas macabras cenas televisivas da fome barulhada por malgas, tachos e latas em riste, implorando comida, como se estivéssemos regressados à saga de um distópico planeta dos macacos, onde criaturas humanas animalescas e escravizadas se confrontam com uma avançada espécie de símios.
Destemido, um outro, olhando, com placidez, para a fartura das prateleiras de rações para animais, outrora dedicadas a vestuário e leites em pó para lactentes, insistia, descrevendo, a seu modo, aquele enorme retrocesso: – “Não têm regras, não tiram senhas para a comida e, naquele alvoroço, todos querem tudo ao mesmo tempo, como se só tivessem o hoje para viver”. E prosseguia, num erudito comentário historicamente incisivo: – “Coisa assim, nem no período miserável da grande fome de 1315-1317, na Europa da Idade Média, avassalada por níveis extremos de crimes, doenças, mortes em massa e infanticídios”.
– “Hum!”, exclamava outro: – “O que aqueles árabes não devem é saber governar-se”.
Contaminado pela manipulação simbólica do léxico político em voga, afirmava à tripa forra que os palestinos eram uns subsídio-dependentes da ONU e que o que eles precisavam era de trabalhar, trabalhar, trabalhar.
– “Pois é! Concordo”, acenava um outro, com a cabeça, com ares de aclamação, hasteando a bandeira da subsidiodependência, com uma valente segurança de si, como se fosse um entendido em governança social, sem que se desse ao cuidado de desconstruir aquela ideia estapafúrdia: – “Eles não querem é trabalhar. É o que é!”.
Ele, que avidamente espera por um D. Sebastião, vocifera os discursos redondos dos políticos, que lhe provocam tédio, ao brandirem as velhas máximas estereotipadas dos partidos. Ele, a quem político algum conseguiria convencê-lo de que era possível ser-se trabalhador e ser-se pobre, garantia, a pés juntos, que as transferências sociais só podem levar os indivíduos a um desincentivo ao trabalho. Iluminado, do alto do seu saber, achava que aquilo que os árabes da Palestina mais aspiravam eram camiões do banco alimentar da ONU, que lhes permitissem viver sem trabalhar.
E, naquela tosca e superficial conversa, os comentários sucediam-se, em catadupa: – “Se não têm água para beber, acho que nem conseguem tomar um banho quente”, exclamava o outro, como se gozasse de uma hiperlúcida inferência, prosseguindo numa cínica ironia: – “Com as casas em ruínas e o cheiro fétido dos mortos a que não conseguem dar sepultura, já devem ter esquecido o que é o aconchego de uns lençóis lavados”.
Enquanto isso, a turbulência não passa, não há meio de passar para aquelas vidas esmagadas pela impaciência das armas. Tinha vindo para ali rodopiar, armada até aos dentes para aniquilar tudo e todos. Canhões, drones armadilhados, bombas esponja, granadas, rifles, espingardas, enfim, um número incontável de tecnologias de morte que parece continuar a espraiar-se com a leveza de confetis coloridos em salões de baile. Com eles, explodem vidas que não se sobreporão mais às aspirações dos colonatos que vão colocando os irados palestinos num canto apátrida, à espera de um amanhã sem futuro.
– “Bem vistas as coisas”, insurgia-se um outro: – “Nem a fome que a ONU não consegue debelar, torna dóceis os corações daqueles gajos que sangram ao ouvir o choro dos filhos gritando com fome. Resta-lhes apenas um lancinante ódio visceral, que a todos contagia”.
E logo aquela estreita tira de terra que, tendo a fome e a miséria como placas indicativas, amaçada pelo quotidiano das mortíferas bombas, bem poderia ser um paraíso turístico, a Riviera do Oriente Médio. Uma vez apinhada de barqueiros, banqueiros e taberneiros sovinas, logo se acantonariam jogos na bolsa de valores, para além dos muitos indivíduos que poderiam morrer multimilionários. Na sua serpenteada arte de corrida ao capital de risco seria mesmo possível a criação de uma feira do ópio, com paragem obrigatória para turistas, ao fim do primeiro dia de viagem à Terra Santa.
– “É um dó de alma” -, exclamava-se no empertigado diálogo, que aquele enclave palestino não tenha gente decente que nele viva, para o aproveitamento máximo da luxúria do local. Ora bem, e com toda a razão, já um presidente não pode ter ideias brilhantes, ser pragmático e afastar-se da ralé dos contendores?
Infetado pela ilustre e pragmática narrativa presidencial, o outro exclamava com uma inusitada e contaminada lucidez: – “Você sabe, Gaza é interessante, é uma localização fenomenal, no mar, o melhor clima. Tudo é bom. Algumas coisas bonitas poderiam ser feitas com ela”. A conselho do seu homólogo, de que estará Benjamin à espera para realocar os palestinos noutros países da região e avançar com um “projeto empresarial” de envergadura?
– “Não tenho dúvidas quanto ao que seria tão elevado e nobre quanto levantar imponentes hotéis em troca do desmantelamento da bárbara identidade de uns e outros”, retorquia um outro, em tom coloquial.
Acerco-me de certezas que Moisés veria nela a Terra Santa do leite, do mel e dos turistas inspirados nos verões que batem à porta daquela extensa área costeira, de águas amenas, e aí seria capaz de tirar as sandálias dos seus pés para sentir a pureza de um projeto imobiliário de tamanho relevo.
E assim ficaríamos descomprometidos de nos alongarmos em mais cogitações sobre essência da técnica contemporânea e de considerações sobre o morrer num cenário de hegemonia tecnológica, conquanto, tal como Pilatos, aquelas mortes não são da nossa responsabilidade, mas da incumbência de um Presidente anterior.
Que interesse podem ter os combates de uma vida, a vida dos homens diante da morte, perante uma possível medicalização da sociedade através da implantação de um bom resort turístico?
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