Como o foco recai frequentemente sobre a arte, os contornos mais profundos da cultura são moldados tanto pela luz como pela sombra: controvérsia, fracturas geopolíticas, direitos contestados e negados. Em Larnaka, Chipre, porém, a cultura não era enquadrada como exibição, mas como dever.
De 6 a 8 de maio, a cidade — Capital Europeia da Cultura 2030 — acolheu a 16.ª conferência internacional da Culture Next, a rede que liga 50 antigas, atuais e candidatas Capitais Europeias da Cultura.
Sob o título Empowering the Cultural and Creative Sectors, o encontro afastou-se decisivamente das narrativas orientadas por eventos, voltando-se antes para as pessoas, responsabilidade e confiança. Não mostras, mas direitos.
A sessão abriu com uma ronda de apresentações, moderada por Andras Farkas, Coordenador de Políticas, seguida do discurso sobre o Estado da Rede por Ștefan Teișanu, Secretário-Geral da Cultura Next. A apresentação ofereceu uma visão geral da evolução da Rede, das prioridades atuais e das ambições futuras, destacando como a Culture Next fortalece a cooperação entre as cidades da Capital Europeia da Cultura e contribui para um legado mais duradouro e um maior impacto cultural em toda a Europa.
A conferência continuou e, no centro das discussões, estiveram os direitos culturais, a mobilidade artística e a necessidade urgente de repensar as relações culturais internacionais para além dos modelos extrativos ou simbólicos. Os oradores apelaram repetidamente a estruturas de governação baseadas na reciprocidade, intercâmbio a longo prazo e cuidados.
Essa perspetiva foi fortemente articulada no discurso principal European Capitals of Care, de Mary Ann De Vlieg, consultora independente especializada em direitos e deslocamento de artistas. O seu foco era intransigente: os artistas não podem ser tratados como danos colaterais de crise. O empoderamento, argumentou ela, começa com redes de solidariedade, responsabilidade partilhada e o reconhecimento da cultura como um campo de trabalho digno de direitos.
Os próprios artistas reforçaram esta mensagem num painel moderado por Kelly Diapouli, Diretora Artística da Larnaka 2030. Contribuições de Ahmed Tobasi (Artistas na Linha da Frente), Eleana Alexandrou (finalista Lemesos 2030), Nurtane Karagil e Yulia Khomchyn (Instituto de Estratégia Cultural, Lviv) expuseram as limitações sob as quais muitos praticantes culturais atuam — guerra, exílio, pressão política, precariedade económica — ao mesmo tempo que demonstram como os artistas continuam a atuar como catalisadores de agência dentro das suas comunidades.
Questões de justiça e sustentabilidade foram abordadas na sessão Rumo a uma Economia Criativa Equitativa e Justa, facilitada por Tom Fleming, Diretor do TFCC e Especialista em Políticas da Culture Next. Alma Salem, Diretora da Al Mawred, refletiu sobre as histórias interligadas das culturas mediterrânicas e a necessidade de futuros partilhados fundamentados na equidade. Carla Rogers, Membro do Comité Diretivo da Campanha Nacional para as Artes da Irlanda, destacou o impacto do Rendimento Básico para Artistas da Irlanda, oferecendo um raro exemplo de reforma estrutural, enquanto Marilyn Gaughan Reddan, Presidente do EIT Cultura & Criatividade, sublinhou a importância de estratégias alinhadas para o desenvolvimento de talento, investimento e inovação em toda a Europa, apontando para o trabalho do EIT Culture & Creativity.
Foi também dada atenção à infraestrutura por detrás da política cultural. Maud Aubert, estagiária do TFCC, apresentou o arquivo Culture Next de livros de candidatura para a Capital Europeia da Cultura, destacando como o arquivamento fraco e a gestão fragmentada do conhecimento continuam a minar a aprendizagem institucional dentro do programa.
Um foco paralelo na cooperação regional enquadrou a sessão da MCCN Bridging Shores, Building Futures, moderada por Rita Orlando, Coordenadora Geral da Matera 2026 – Capital Mediterrânica da Cultura e do Diálogo. A troca reafirmou o Mediterrâneo não como uma linha divisória, mas como um espaço cultural e político partilhado, onde as cidades podem usar a cultura para enfrentar desafios comuns e fortalecer a coesão social. A discussão incluiu Stefano Dotto, Especialista Sénior da Direção-Geral da Comissão Europeia para o Médio Oriente, Mediterrâneo e Golfo; Genci Kojdheli, Diretora-Geral de Planeamento Estratégico no Município de Tirana; e Agnès Ruiz Clarasó, Responsável de Políticas e Ponto Focal para a Cultura na rede United Cities and Local Governments (UCLG).
Entre as experiências partilhadas e as iniciativas propostas, destacou-se o contributo de Matera. Antiga Capital Europeia da Cultura em 2019 e agora Capital Mediterrânica da Cultura e do Diálogo 2026, Matera posiciona-se como uma cidade articulação entre a Europa e o Mediterrâneo — capaz de falar tanto a um Sul inquieto como a uma Europa desorientada, de manter unida memória e contemporaneidade, comunidade e criação.
É neste quadro que a cidade propôs a criação e inclusão, na rede Culture Next, de capitais mediterrânicas emergentes. Embora estas cidades possam ainda estar numa fase inicial e não totalmente estabelecidas, podem — através de experiências partilhadas e diálogo estruturado com cidades da ECoC — participar na definição das políticas culturais europeias, atrair novos projetos culturais e dar voz aos artistas como cidadãos.
O que emergiu de Larnaka foi uma mensagem clara: não pode haver política cultural credível sem proteção concreta para os artistas — as suas condições laborais, liberdade de expressão e segurança pessoal quando as ordens políticas e sociais colapsam. Conversas sobre exílio, guerra e frágeis economias criativas não são preocupações periféricas; são o núcleo de um novo paradigma cultural europeu, que entende a cultura como infraestrutura cívica e espaço de cuidado.
O contraste com Veneza é gritante. Lá, a Bienal — um dos símbolos mais poderosos da arte contemporânea — foi abalada por resignações, conflitos institucionais e tensões geopolíticas por resolver. Os artistas encontram-se expostos, enquanto a estrutura que deveria protegê-los se fragmenta. É um lembrete de como até as instituições mais fortes falham sem um compromisso partilhado com os direitos culturais.
Faro, cidade portuguesa que participa ativamente neste consórcio europeu de cidades pela cultura, promove Next Generation um projeto da Divisão de Promoção do Desporto e Juventude da Câmara Municipal de Faro, desenvolvido em parceria com a DYPALL Network, que visa apoiar o empreendedorismo jovem e a inovação social. Em 2026, o programa regressa para a sua 3.ª edição, focando-se em dotar os participantes com ferramentas para transformar ideias inovadoras em realidade.
A partir de Chipre, a rede Culture Next agora olha para o futuro. O próximo capítulo irá desenrolar-se em Oulu, Capital Europeia da Cultura 2026, onde estas questões — de direitos, responsabilidade e resiliência — continuarão a moldar o futuro da política cultural europeia.
Edição e adaptação de João Palmeiro com Mariateresa Cascino/ECOCNEWS.
















