Em várias capitais europeias, quem recebe o salário mínimo bruto não ganha o suficiente para pagar a renda média de um apartamento T2. A análise da Confederação Europeia dos Sindicatos (ETUC), citada pela agência internacional de notícias Euronews e baseada em dados europeus, mostra que o problema é particularmente grave nesta cidade portuguesa, onde a renda média ultrapassa largamente o valor mensal do salário mínimo.
A habitação, a água, a eletricidade, o gás e outros combustíveis continuam a ser a maior fatia da despesa das famílias na União Europeia (UE). Segundo a Eurostat, estes encargos representaram 23,6% da despesa total dos agregados familiares da UE em 2024, à frente da alimentação e dos transportes, o que ajuda a explicar por que motivo o aumento das rendas tem um impacto tão forte nos rendimentos mais baixos.
Cidade portuguesa entre as capitais mais difíceis para quem ganha o mínimo
Praga surge como a capital onde a pressão é maior: a renda média de um T2 é de 1.710 euros, enquanto o salário mínimo bruto mensal na Chéquia é de 924 euros. Isto significa que a renda equivale a 185% do salário mínimo, obrigando um trabalhador a precisar de quase dois salários mínimos brutos para suportar apenas a renda.
A cidade portuguesa de Lisboa aparece logo a seguir, com uma renda média também de 1.710 euros, face a um salário mínimo bruto mensal equivalente a 1.073 euros em Portugal, tendo em conta o pagamento em 14 meses. Na prática, a renda corresponde a 168% do salário mínimo bruto, colocando a capital portuguesa entre as mais inacessíveis da UE para quem está na base da escala salarial, refere a mesma fonte.
Outras capitais onde a renda ultrapassa todo o salário mínimo
A lista de capitais onde a renda consome mais de 150% do salário mínimo inclui ainda Budapeste, com 159%, Bratislava, com 158%, Sófia, com 154%, Atenas, com 153%, e Riga, com 151%. Nestes casos, mesmo entregando a totalidade do salário bruto ao senhorio, o trabalhador continuaria sem conseguir pagar a renda média de um T2.
Há ainda várias capitais onde a renda supera os 100% do salário mínimo bruto, embora com menor intensidade. É o caso de Valeta, Paris, Tallinn, Madrid, Bucareste, Varsóvia, Dublin, Liubliana e Vilnius, o que significa que o salário mínimo não chega para cobrir a renda média, antes sequer de contar com alimentação, transportes, energia ou saúde.
Bruxelas e Berlim estão entre os casos mais favoráveis
No extremo oposto, de acordo com a mesma fonte, Bruxelas é apresentada como a capital mais favorável para quem recebe o salário mínimo, entre os países analisados. A renda média de um T2 é de 1.476 euros, enquanto o salário mínimo bruto é de 2.112 euros, fazendo com que a renda represente cerca de 70% desse rendimento.
Berlim surge em segundo lugar entre as capitais mais acessíveis para trabalhadores com salário mínimo, com a renda a representar 76% do salário mínimo bruto. Seguem-se Nicósia, com 85%, Luxemburgo, com 87%, e Haia, com 96%, valores ainda elevados, mas inferiores aos registados nas capitais onde a renda ultrapassa o salário por completo.
Fora das capitais, o cenário melhora
A comparação nacional mostra uma realidade menos pesada do que nas capitais. Num subconjunto de 16 países analisados pela ETUC, a percentagem do salário mínimo bruto necessária para pagar renda varia entre 33% na Polónia e 61% em Malta, o que confirma que as capitais concentram a maior pressão sobre os rendimentos baixos.
Na Polónia, por exemplo, o salário mínimo bruto é de 1.139 euros e a renda média nacional é de 376 euros. Em França, a diferença também é significativa quando se compara a média nacional com Paris: o salário mínimo é de 1.823 euros e a renda média nacional é de 695 euros, muito abaixo dos 2.523 euros registados na capital francesa, de acordo com a Euronews.
Sindicatos pedem salários mais adequados e mais habitação pública
A ETUC defende que os Estados-membros devem aplicar plenamente a diretiva europeia sobre salários mínimos adequados, promover a negociação coletiva e passar a considerar os custos da habitação quando avaliam se o salário mínimo é suficiente. A ETUC pede ainda mais investimento público em habitação social, incluindo através de instrumentos europeus de financiamento.
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