É verdade que Portugal arde. Mas não exageremos.
É verdade que milhares de alunos passaram meses sem professores e que alguns terminaram o ano letivo sem jamais terem conhecido quem lhes deveria ensinar. Também é verdade que os exames nacionais, de cujo resultado depende o acesso ao ensino superior, continuam a desenrolar-se entre improvisações e sobressaltos, como se a incerteza fizesse parte integrante do currículo escolar.
Mas convenhamos: nada disso justifica alarmismos.

Jurista
Portugal continua a ser um país extraordinariamente tranquilo: quando faltam professores, resigna-se; quando faltam casas, conforma-se; quando falta Governo, liga a televisão para ver a bola
Também é certo que os hospitais públicos vivem em permanente estado de pré-rutura, receando agora o previsível impacto de mais uma onda de calor sobre uma população cada vez mais envelhecida. Os incêndios devoram milhares de hectares e colocam Portugal, ano após ano, entre os campeões europeus da área ardida. Os combustíveis aumentam ao ritmo das guerras, as rendas e o preço das casas continuam a subir com a alegre indiferença de quem desconhece o significado da palavra “salário”, e a habitação transformou-se numa espécie de artigo de luxo para muitos portugueses.
Tudo isto é lamentável.
Mas nenhuma destas questões possui a nobreza suficiente para competir com o verdadeiro desígnio nacional: acompanhar a Seleção.
Percebe-se, por isso, que Luís Montenegro tenha considerado indispensável marcar presença quase permanente nos jogos disputados nos Estados Unidos. Afinal, um Primeiro-Ministro nunca sabe quando poderá ser chamado a resolver um problema de elevada complexidade tática: discutir um fora de jogo, confortar um avançado depois de uma bola ao poste ou testemunhar, em primeira fila, a epopeia de um pontapé de canto.
Governar pode esperar. Os incêndios, por delicadeza institucional, não ardem mais depressa por isso. Os doentes, por uma questão de boa educação, procurarão adoecer apenas quando Sua Excelência regressar. Os alunos, esses, já demonstraram possuir uma invejável capacidade de adaptação: aprenderam, finalmente, a ter aulas sem professores.
Infelizmente, a Seleção teve a deselegância de ser eliminada antes do previsto.
E foi então que o país revelou toda a profundidade da sua paixão futebolística. Enquanto na Noruega ou em Cabo Verde milhares de pessoas receberam as respetivas seleções, apesar da eliminação, em Portugal compareceram meia dúzia de curiosos e alguns funcionários obrigados pelas circunstâncias. A multidão, essa, desaparecera com a mesma rapidez com que surgira.
Descobriu-se, afinal, que o patriotismo nacional é um sentimento de resultados. Ama-se a camisola enquanto ela vence. Perdendo, regressa-se tranquilamente à praia, ao centro comercial ou ao comentário indignado nas redes sociais.
É uma forma muito portuguesa de amar o país: com entusiasmo durante noventa minutos e absoluto desprendimento no apito final.
Talvez seja por isso que também exigimos tão pouco de quem nos governa. Desde que haja fotografias na bancada, cachecóis ao pescoço e discursos sobre o orgulho nacional, o resto pode esperar. As escolas esperarão. Os hospitais esperarão. As casas continuarão inacessíveis. O país continuará a arder.
Mas, felizmente, nunca nos faltará tempo para o futebol.
E isso, ao que parece, é o que verdadeiramente importa.
Portugal continua a ser um país extraordinariamente tranquilo: quando faltam professores, resigna-se; quando faltam casas, conforma-se; quando falta Governo, liga a televisão para ver a bola.
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