De vez em quando, a natureza oferece-nos pequenas pérolas de humor negro. A mais recente veio do Uganda, onde uma comunidade de chimpanzés decidiu entrar em “guerra civil”. Sim, leu bem: chimpanzés. Primatas. Sem parlamentos, sem tanques, sem comentadores televisivos a explicar “o que está em causa”. E, no entanto, dividiram-se em fações, atacaram-se, mataram-se e redesenharam o território como quem ajusta fronteiras num tratado europeu mal digerido.
A notícia é científica, séria, documentada. O riso é nosso — talvez porque é mais fácil rir do que admitir o desconforto.
Há algo de deliciosamente irónico em ver os nossos primos distantes a comportarem-se como… bem, como nós. Nós, os tais “evoluídos”. Os donos da diplomacia, da tecnologia, da razão. Os que, neste momento, colecionam conflitos como quem coleciona cromos raros.

Jurista
A 'guerra civil' dos chimpanzés não nos diz nada sobre eles. Diz tudo sobre nós. Mostra que a linha que separa o Homo Sapiens do resto dos primatas é mais fina do que o nosso ego gostaria
Eles têm paus e dentes. Nós temos drones, conferências de imprensa e hashtags inflamadas. A diferença é sobretudo cosmética.
Os chimpanzés não têm redes sociais, mas conseguem dividir-se em grupos rivais. Não têm ideologias, mas arranjam motivos para se esfolarem. Não têm líderes carismáticos, mas seguem quem grita mais alto. Não têm geopolítica, mas disputam território com um zelo que faria corar qualquer ministro da Defesa.
E, no entanto, há um detalhe que nos devia preocupar: ao contrário de nós, eles não fingem que é por “princípios”. Fazem-no porque são chimpanzés. Nós fazemos o mesmo… e chamamos-lhe estratégia.
A ciência já nos dizia que os chimpanzés organizam patrulhas, planeiam ataques e até exibem comportamentos de vingança. O que talvez não dissesse — pelo menos não tão claramente — é que, ao observá-los, estamos a observar uma versão crua de nós próprios. Uma espécie de rascunho evolutivo que insiste em reaparecer nas margens do nosso verniz civilizacional.
A diferença é que nós acrescentamos uma camada de sofisticação ao caos: chamamos “interesses estratégicos” ao que eles resolvem com um grito; chamamos “polarização” ao que eles resolvem com um murro; chamamos “crise internacional” ao que eles resolvem com uma patrulha de machos maldispostos.
A nossa evolução é como aquelas obras públicas eternas: está sempre “em curso”, mas ninguém vê grandes resultados.
A “guerra civil” dos chimpanzés não nos diz nada sobre eles. Diz tudo sobre nós. Mostra que a linha que separa o Homo Sapiens do resto dos primatas é mais fina do que o nosso ego gostaria. Mostra que, apesar de satélites, universidades e cimeiras internacionais, continuamos a tropeçar nos mesmos impulsos tribais. Mostra que a evolução não é garantida — é um trabalho diário, e nós andamos a faltar às aulas.
Talvez por isso a notícia nos faça rir. Porque, se não rirmos, temos de admitir outra coisa: a selva não está assim tão longe. E, às vezes, somos nós que a carregamos ao ombro, com ar muito civilizado, enquanto fingimos que já a deixámos para trás.
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