Ouve-se frequentemente que a luta de classes ficou para trás — substituída por um mundo de “colaboradores”, “empreendedores de nós próprios” e até pequenos “investidores”. A ideia é reconfortante: já não haveria conflito estrutural, apenas pessoas a participar, cada uma à sua maneira, no mesmo sistema. Mas esta narrativa simplifica demasiado a realidade.
O conflito entre quem trabalha e quem detém o poder económico não desapareceu. Mudou de forma, tornou-se mais difuso e, por isso mesmo, mais difícil de reconhecer.
Um bom exemplo é a forma como hoje lidamos com o dinheiro das reformas. Em muitos países, uma parte crescente das pensões depende de fundos que investem nos mercados financeiros. À primeira vista, isto pode parecer uma democratização do capital: milhões de pessoas passam a ter, indiretamente, participações em empresas.

Jurista
A luta de classes não desapareceu. Continua presente, mas deslocou-se para zonas menos visíveis: contratos complexos, algoritmos, decisões financeiras, métricas de desempenho
E, de facto, há quem defenda isso mesmo. Grandes investidores institucionais — incluindo fundos de pensões — podem, em certos casos, influenciar decisões empresariais, pressionar para mudanças ambientais ou de governação, e até travar abusos. Mas para a esmagadora maioria dos trabalhadores, essa influência é distante e indireta. Não escolhem onde investir, não participam nas decisões, não controlam o rumo das empresas.
Na prática, continuam dependentes do salário para viver — e passam também a depender dos lucros dessas mesmas empresas para garantir o futuro.
Aqui surge uma contradição pouco visível no dia a dia. Um trabalhador pode lutar por melhores condições na sua empresa enquanto o fundo que financia a sua reforma investe noutra que reduz custos à custa de salários ou direitos. Pode apoiar greves e, ao mesmo tempo, preocupar-se com o impacto disso nos mercados que sustentam a sua pensão. Não é hipocrisia; é a forma como o sistema está montado.
Isto não significa que todos os trabalhadores vivam esta tensão da mesma forma. Quem tem salários mais altos ou poupanças investidas sente mais diretamente as oscilações do mercado. Já quem vive com rendimentos baixos continua muito mais exposto às condições imediatas de trabalho do que a qualquer lógica financeira global. Ainda assim, a tendência geral é clara: a vida de cada vez mais pessoas está ligada a mecanismos que não controlam e dificilmente compreendem.
Ao mesmo tempo, essa dependência é frequentemente apresentada como algo técnico, quase natural. Fala-se em “mercados”, “ajustes”, “eficiência”, como se fossem fenómenos neutros, inevitáveis. Mas por trás dessa linguagem estão decisões políticas concretas: privatização de sistemas de proteção social, desregulação financeira, prioridades económicas definidas ao longo de décadas.
A transformação não é apenas económica. Também mudou a forma como pensamos — ou deixamos de pensar — sobre tudo isto.
Vivemos numa disputa constante pela nossa atenção. Redes sociais, plataformas digitais, notícias em fluxo contínuo: tudo compete pelo nosso tempo. Isto não é necessariamente negativo — nunca tivemos tanto acesso a informação — mas tem efeitos. A atenção fragmenta-se, o debate simplifica-se e torna-se mais difícil perceber ligações entre fenómenos complexos, como aquelas que ligam o trabalho diário aos mercados globais.
Não é que as pessoas estejam simplesmente “distraídas”. O problema é mais subtil: quando tudo exige atenção ao mesmo tempo, sobra menos espaço para reflexão prolongada e ação coletiva.
O resultado é um trabalhador dividido — mas não de forma igual para todos. Para muitos, a precariedade continua a ser a preocupação central. Para outros, soma-se a dependência de rendimentos financeiros futuros. E, para quase todos, há uma sensação difusa de falta de controlo sobre processos que moldam a sua vida.
A luta de classes não desapareceu. Continua presente, mas deslocou-se para zonas menos visíveis: contratos complexos, algoritmos, decisões financeiras, métricas de desempenho. Não se apresenta como confronto direto, mas como uma série de pressões dispersas, muitas vezes difíceis de identificar.
Reconhecer isso não resolve o problema — mas é um começo. Porque só quando percebemos onde estão hoje as tensões é que podemos discutir, de forma informada, que alternativas queremos construir.
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