As intempéries que recentemente atingiram várias regiões do país deixaram um rasto de destruição que exige uma resposta rápida, coordenada e tecnicamente qualificada. Estradas colapsadas, infraestruturas danificadas, habitações tornadas inabitáveis, redes elétricas comprometidas — tudo isto precisa de ser reparado ou reconstruído num curto espaço de tempo. Contudo, há um constrangimento estrutural que se impõe com particular evidência nestes momentos de crise: Portugal não dispõe de mão-de-obra suficiente para o fazer.
A escassez de pedreiros, carpinteiros, canalizadores, eletricistas e outros profissionais técnicos não é um fenómeno recente nem conjuntural. Resulta de tendências profundas e bem documentadas: o envelhecimento acelerado da população, décadas de emigração de jovens em idade ativa, a desvalorização social e salarial das profissões técnicas e o crescimento sustentado do setor da construção, impulsionado pelo turismo, pela reabilitação urbana e pelos investimentos públicos e privados. Mesmo em períodos de normalidade, esta falta de trabalhadores já limita a execução de obras e atrasa projetos. Em contexto de emergência, transforma-se num bloqueio sério à capacidade de resposta do Estado e da economia.
Perante esta realidade, a pergunta impõe-se: como poderá Portugal reconstruir o que foi destruído se não tem trabalhadores suficientes? A resposta, por mais desconfortável que seja para alguns, é difícil de contornar: não o conseguirá fazer sem recorrer à imigração.

Jurista
Se o país quer reconstruir o que perdeu, terá também de reconstruir a forma como pensa, planeia e fala sobre quem chega para trabalhar e ajudar a fazê-lo
É aqui que surge uma contradição que merece reflexão. Nos últimos anos, o debate público tem sido marcado por discursos que retratam a imigração como ameaça — à identidade nacional, à coesão social ou à sustentabilidade dos serviços públicos. Embora algumas destas preocupações mereçam ser discutidas de forma séria e informada, o tom dominante tem sido frequentemente simplificador e alarmista. No entanto, quando as estradas ruem, quando as casas precisam de ser reconstruídas, quando é necessário restabelecer rapidamente serviços essenciais, a realidade impõe-se de forma clara: uma parte significativa da capacidade produtiva do país assenta no trabalho de cidadãos estrangeiros.
Sem eles, a construção civil ficaria paralisada. A agricultura teria dificuldades em funcionar. A restauração e vários serviços essenciais sofreriam ruturas graves. E, no contexto atual, a reconstrução pós-intempéries ficaria inevitavelmente mais lenta, mais cara ou simplesmente por realizar.
Isto não significa ignorar os desafios associados à imigração. A pressão sobre o mercado da habitação, a necessidade de planeamento urbano, a integração social e cultural, ou o combate à exploração laboral são questões reais que exigem políticas públicas eficazes. Mas reconhecer esses desafios não invalida um facto central: a imigração é hoje uma componente estrutural da economia portuguesa e uma condição prática para responder a situações de emergência.
Portugal pode — e deve — investir na formação profissional, valorizar carreiras técnicas, melhorar salários, criar incentivos para atrair jovens para estes sectores e apostar em tecnologias que reduzam a dependência de trabalho intensivo. Pode também reforçar a fiscalização laboral e garantir condições dignas para todos os trabalhadores. No entanto, estas medidas produzem resultados a médio e longo prazo. A reconstrução de que o país precisa agora exige capacidade imediata, e essa capacidade passa, inevitavelmente, por trabalhadores estrangeiros.
Talvez esta crise sirva para tornar mais evidente uma verdade que nem sempre é assumida no debate público: a imigração não é apenas uma questão ideológica, é uma realidade económica e social. Não é uma ameaça abstrata, mas uma necessidade concreta. E, se for bem gerida, pode ser também uma oportunidade — para reforçar a resiliência do país, promover maior justiça social e preparar Portugal para os desafios futuros.
Se o país quer reconstruir o que perdeu, terá também de reconstruir a forma como pensa, planeia e fala sobre quem chega para trabalhar e ajudar a fazê-lo.
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