Quando chegou a Portugal, filho de imigrantes moçambicanos, tinha apenas 11 anos e foi recebido com insultos que nunca esperava ouvir. “Preto, vai para a tua terra”, gritavam-lhe à porta da escola e nas ruas. Décadas mais tarde, Faisal Aboobakar é o diretor de um agrupamento de escolas em Palmela e símbolo de superação num país onde, um dia, sentiu que não pertencia, segundo aponta o Público.
Nascido em Moçambique, Faisal Aboobakar cresceu num ambiente multicultural onde convivia com brancos, negros, indianos e mulatos. Em 1981, chegou a Portugal com os pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil e das restrições políticas que marcavam o país africano. O que encontrou foi um país onde “só havia branco e preto”.
“Chegava à escola e era ‘preto’ para aqui, ‘preto’ para ali”, recorda. O choque foi grande. Até então, nunca se tinha sentido diferente por causa da cor da pele. Em Setúbal, onde se instalou com a família, percebeu que a integração seria uma maratona e não uma corrida de cem metros.
Quarenta e quatro anos depois, resume esse percurso com uma frase: “Tive de trabalhar o dobro para que as pessoas me vissem pelo que sou e não pela cor da pele ou pela origem.” Hoje, ouve com orgulho os alunos e colegas chamarem-lhe “professor Faisal Aboobakar”.
Um percurso académico e profissional exemplar
Desde 2021, é diretor do Agrupamento de Escolas José Saramago, no Poceirão, concelho de Palmela. Foi eleito por professores, funcionários, autarquia, pais e alunos. “Ganhei com 13 votos contra seis”, contou, citado pela mesma fonte.
Professor de Educação Física, com experiência de ensino do básico ao superior, acredita que venceu “porque o projeto foi visto como o melhor para a comunidade”. A zona onde trabalha é rural e acolhe muitos imigrantes em Portugal que laboram nas estufas e campos agrícolas, bem como no entreposto logístico do Lidl, na Marateca.
Apesar das diferenças políticas e culturais da região, sente-se integrado. “Sou aceite e tenho uma cor de pele diferente”, afirma, sublinhando o apoio que recebeu ao longo do caminho. Para Aboobakar, o verdadeiro desafio em Portugal é continuar a garantir que os filhos de imigrantes têm acesso à educação e oportunidades de futuro.
Professora que mudou tudo
A adaptação a Portugal começou com dificuldades. Quando os colegas o insultavam, respondia com agressividade. “A minha reação era bater-lhes”, confessa. Foi uma professora, Lígia Figueiredo, quem o ajudou a mudar de atitude.
“Faisal, responderes com agressão não é caminho. Tens de ser um estudante aplicado e fazer o teu percurso”, disse-lhe a docente. Desde então, prometeu “vingar-se” de outra forma: tornando-se um dos melhores alunos da turma, conforme refere a mesma fonte.
“Era a minha forma de mostrar que um aluno ‘preto’ tinha as mesmas capacidades que os outros”, recorda. A partir desse momento, começou a construir o seu próprio lugar, com esforço e resiliência.
Chegada a Portugal
A história da família Aboobakar confunde-se com a de milhares de outros imigrantes que deixaram África nos anos 80. O pai era serralheiro e a mãe secretária no Ministério da Educação de Moçambique. Tinham posições de chefia e acreditavam no futuro do país após a independência, mas a instabilidade política e os riscos da guerra civil tornaram a permanência impossível.
“Planeámos a saída em segredo, porque Moçambique não deixava ninguém sair”, lembra o professor. “Viemos de férias. Até hoje.” Trouxeram apenas três malas, duas sacolas e o equivalente a 45 contos.
Chegaram a Lisboa em novembro de 1981 sem ninguém à espera. “Ver o meu pai, com as poucas moedas que tinha, a telefonar de uma cabine para pedir ajuda, foi uma imagem que nunca esqueci.” Uma família amiga acolheu-os durante duas semanas. “Foi o primeiro exemplo de acolhimento do povo português.”
Recomeçar do zero
Segundo o Público, em Portugal, o pai voltou a trabalhar como serralheiro, mas sem cargos de chefia. Faisal, contra a vontade do pai, começou a trabalhar cedo. Lavou carros, foi ajudante de pintor e eletricista, e participou na construção do Centro Cultural de Belém.
O pai, no entanto, repetia sempre a mesma mensagem: “A única coisa que tenho para vos dar é a vossa educação.” Os três filhos seguiram o conselho. Dois tornaram-se professores e uma seguiu carreira em design e telecomunicações.
Incluir quem antes era excluído
Hoje, como diretor, dedica-se a criar oportunidades para quem chega com as mesmas dificuldades que ele enfrentou. A escola que dirige acolhe 190 alunos estrangeiros de 21 nacionalidades, muitos deles filhos de imigrantes recém-chegados a Portugal.
Aboobakar abriu o ensino científico-humanístico, criou um curso noturno de Educação e Formação de Adultos e implementou um gabinete de acolhimento para famílias migrantes, em parceria com o Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes e a Câmara de Palmela.
Além disso, instituiu o ensino de Português como Língua Não Materna para os alunos e o Português como Língua de Acolhimento para os pais. “Damos resposta aos filhos e aos pais. Esta escola está no meio rural, mas tem de ser uma referência para toda a região.”
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