Há um novo sistema a bordo de alguns autocarros de Lisboa que está a despertar a atenção dos condutores. Equipados com câmaras e tecnologia capaz de detetar automaticamente determinadas situações na estrada, estes veículos estão a ser usados para identificar comportamentos que podem prejudicar a circulação do transporte público, sobretudo nos corredores BUS e junto às paragens.
A Companhia Carris de Ferro de Lisboa (CARRIS) confirma oficialmente que está a testar um sistema automático de deteção de infrações ao Código da Estrada através de câmaras instaladas em autocarros e tecnologia de inteligência artificial. O equipamento faz parte de um projeto-piloto destinado a identificar situações que prejudicam a circulação do transporte público, nomeadamente veículos a circular ou estacionados indevidamente nos corredores BUS.
O projeto não está apenas previsto no papel. Segundo o plano de demonstração do projeto europeu UPPER, a iniciativa contempla a instalação de câmaras em dois autocarros da CARRIS, a integração do equipamento com uma plataforma informática e a realização de testes em percursos selecionados. O mesmo documento prevê a validação dos algoritmos através da comparação entre as infrações identificadas pelo sistema e as ocorrências reportadas durante a operação.
Câmaras nos autocarros estão em funcionamento desde 2025
No Plano de Atividades e Orçamento para 2026, a CARRIS revela que este sistema está em funcionamento desde agosto de 2025 e que os primeiros resultados são considerados “bastante promissores”. Nesta fase, porém, a tecnologia tem sido utilizada sobretudo para recolher informação destinada ao planeamento operacional da empresa.
A própria CARRIS esclarece no documento que pretende, durante 2026, analisar em detalhe o desempenho do sistema e partilhar os resultados com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), de modo a serem desenvolvidas as diligências necessárias para que, no futuro, possam vir a ser emitidos autos de contraordenação a partir desta tecnologia.
Assim, apesar de as câmaras já estarem instaladas e de o sistema conseguir detetar potenciais infrações, a documentação oficial consultada não indica que estas câmaras estejam atualmente a gerar multas de forma automática. Pelo contrário, a CARRIS apresenta a emissão de autos através deste sistema como um passo para o qual ainda são necessárias diligências junto da ANSR.
Quais são os objetivos das câmaras nos autocarros da CARRIS?
O projeto tem quatro grandes objetivos: identificar locais críticos onde as infrações prejudicam a circulação dos transportes públicos, desincentivar comportamentos que condicionem o serviço, melhorar a segurança rodoviária e facilitar a acessibilidade aos autocarros, em particular para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, evitando que veículos mal estacionados impeçam uma correta aproximação às paragens.
A iniciativa está integrada no UPPER, projeto financiado pelo programa Horizonte Europa. Na documentação do projeto relativa a Lisboa é referido que as câmaras instaladas nos veículos da CARRIS deverão permitir detetar automaticamente veículos que utilizam indevidamente as faixas destinadas ao transporte público e apoiar, numa fase posterior, mecanismos de fiscalização.
Fiscalização dos corredores BUS já dá multas em Lisboa
Apesar de estas câmaras ainda não estarem oficialmente confirmadas como um sistema de emissão automática de multas, a utilização indevida dos corredores BUS já é fiscalizada em Lisboa. A CARRIS anunciou em maio de 2025 que, em pouco mais de seis meses, tinham sido registadas mais de três mil infrações por ocupação indevida de paragens e corredores destinados ao transporte público.
Esta fiscalização arrancou em setembro de 2024 numa parceria com a Polícia Municipal de Lisboa e tem como objetivo libertar as vias prioritárias para autocarros e elétricos, aumentando a velocidade comercial e reduzindo os constrangimentos provocados por veículos mal estacionados ou a circular onde não devem.
Nos primeiros seis meses da operação foram contabilizadas 1.591 advertências, 1.441 multas e 28 ativações de reboques. A CARRIS esclarece ainda que, nessa fase, as sanções aos infratores eram aplicadas pelas forças de segurança, estando previsto o reforço da fiscalização através da colaboração com a EMEL e da capacitação de profissionais da própria empresa.
Saiba o que diz a lei sobre a utilização das faixas BUS
O Código da Estrada permite que uma ou mais vias sejam reservadas à circulação de determinados tipos de veículos ou transportes e proíbe, em regra, a sua utilização pelos restantes condutores. A lei prevê, contudo, algumas exceções, nomeadamente para o acesso a garagens, propriedades ou estacionamento na extensão estritamente necessária e, desde a alteração legislativa de 2025, permite também a circulação de motociclos e triciclos motorizados nestas vias.
Quem utilizar uma via reservada em violação destas regras pode ser sancionado com uma coima entre 120 e 600 euros, de acordo com o artigo 77.º do Código da Estrada. A existência do projeto tecnológico da CARRIS não altera, por si só, o valor da coima prevista na legislação.















