O sonho de comprar uma casa de luxo transformou-se num impasse judicial para 114 famílias que investiram milhões num empreendimento imobiliário que nunca saiu do papel, deixando para trás um buraco financeiro avaliado em 27 milhões de euros e um processo de insolvência marcado por suspeitas de burla.
Segundo o Jornal de Negócios, o caso remonta à promoção de um conjunto de imóveis residenciais de gama alta, apresentados como um investimento seguro e em fase avançada de desenvolvimento. Os compradores avançaram com pagamentos avultados, muitos deles correspondentes a poupanças de uma vida, confiando que o projeto seria concluído nos prazos anunciados.
O que encontraram, meses depois, foi um terreno por construir e uma empresa incapaz de cumprir os compromissos assumidos.
Um empreendimento prometido, mas nunca construído
De acordo com a publicação, o projeto foi promovido por uma empresa entretanto declarada insolvente, cujo gerente, Romeu Silva, é agora acusado de ter conduzido uma atuação dolosa. Os contratos de promessa de compra e venda foram celebrados com vários clientes, apesar de a empresa já se encontrar numa situação financeira fragilizada.
Segundo o gestor judicial citado pelo Jornal de Negócios, os compradores foram levados a acreditar que o empreendimento estava assegurado, quando na realidade não existiam condições económicas para avançar com a construção. A empresa continuou a captar dinheiro mesmo depois de se tornar evidente a incapacidade de cumprir o plano.
O buraco financeiro de 27 milhões
A insolvência revelou um passivo de cerca de 27 milhões de euros, valor que resulta sobretudo dos montantes entregues pelos compradores. Em muitos casos, tratava-se da primeira habitação, adquirida com recurso a crédito bancário, o que agravou o impacto financeiro e emocional para as famílias envolvidas.
Segundo a mesma fonte, os imóveis nunca chegaram a ser erguidos e os terrenos onde deveriam nascer permanecem vazios. O dinheiro entregue pelos compradores não foi devidamente salvaguardado, nem existe património suficiente para ressarcir os lesados.
Suspeitas de burla e atuação dolosa
O gestor de insolvência sustenta que existiu uma atuação consciente e deliberada por parte da gerência, ao continuar a vender imóveis sabendo que a empresa não tinha capacidade para cumprir. Esta conduta poderá configurar crime de burla, matéria que está agora a ser analisada pelas autoridades judiciais.
De acordo com o Jornal de Negócios, o processo foi remetido para o Ministério Público, que avalia a eventual responsabilidade criminal dos administradores da empresa. Em causa está a possibilidade de os compradores terem sido induzidos em erro de forma sistemática.
Famílias sem casa e sem reembolso
Para os 114 compradores, o cenário é de enorme incerteza. Muitos continuam a pagar prestações bancárias por casas que nunca existiram, enquanto aguardam por desenvolvimentos judiciais que tardam em chegar.
Segundo a publicação, alguns dos lesados tentaram encontrar soluções alternativas, como a revenda dos direitos contratuais ou ações cíveis autónomas, mas o contexto de insolvência limita drasticamente as hipóteses de recuperação do dinheiro investido.
Um alerta para o mercado imobiliário
Este caso volta a expor fragilidades no mercado imobiliário, sobretudo em projetos vendidos em planta. Especialistas citados pelo Jornal de Negócios sublinham a importância de mecanismos de proteção mais eficazes para os compradores, nomeadamente a exigência de garantias bancárias ou contas escrow que salvaguardem os valores entregues.
Enquanto o processo segue o seu curso nos tribunais, as famílias afetadas continuam à espera de respostas. Para muitas, o investimento que deveria garantir estabilidade tornou-se num dos episódios mais traumáticos das suas vidas financeiras.
















