A situação dos pensionistas portugueses chegou à imprensa espanhola, que traça um cenário particularmente crítico sobre o valor das reformas e o aumento do custo de vida. Entre habitação, alimentação e despesas do dia a dia, uma publicação espanhola questiona as prioridades do país e termina com uma crítica contundente ao sistema de pensões.
As pensões em Portugal voltaram a estar no centro do debate, desta vez além-fronteiras. O portal espanhol 65YMÁS publicou um artigo de opinião dedicado à situação financeira dos reformados portugueses.
Sob o título “A dívida sobe, as pensões não: Portugal prende os idosos entre a ortodoxia fiscal e o abandono”, a publicação coloca frente a frente a evolução das contas públicas e as dificuldades económicas enfrentadas por uma parte da população mais velha.
O ponto de partida é a dívida pública portuguesa, que terminou o segundo trimestre de 2026 nos 92,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados do Banco de Portugal citados pela publicação.
Jornal espanhol aponta para pensões abaixo dos 500 euros
O artigo destaca depois a realidade dos pensionistas com rendimentos mais baixos, sustentando que perto de metade recebe menos de 500 euros mensais.
É precisamente neste ponto que surge uma das principais críticas. O autor argumenta que valores desta dimensão deixam pouca margem depois de despesas com alimentação, eletricidade, água, gás, medicamentos e habitação.
A publicação espanhola contrapõe esta situação ao esforço português para reduzir a dívida pública e cumprir as regras orçamentais europeias.
Apesar da subida registada no segundo trimestre, o Governo mantém a previsão de terminar 2026 com uma dívida pública equivalente a 87,5% do PIB.
Aumento de 50 euros volta ao debate
O artigo recorda igualmente a proposta da CDU para um aumento intercalar das pensões de pelo menos 50 euros por pensionista, com efeitos a partir de 1 de julho.
A coligação PCP-PEV já tinha apresentado reivindicações semelhantes anteriormente e tem defendido que o aumento do custo de vida justifica um reforço dos rendimentos dos reformados.
Entre 2017 e 2021 foram aplicados aumentos extraordinários a determinadas pensões, uma medida que abrangeu mais de um milhão de reformados.
A inflação registada nos anos seguintes e a subida dos preços de vários bens e serviços são agora utilizadas como argumento para defender um novo reforço.
Habitação também preocupa
A publicação espanhola chama ainda a atenção para os preços da habitação em Portugal e para o impacto que podem ter na população mais velha.
Com base no Barómetro do Imovirtual, refere que o preço médio anunciado para compra de casa atingiu os 430.500 euros em Portugal em maio de 2026.
A situação torna-se particularmente delicada para pensionistas que não são proprietários e dependem do mercado de arrendamento.
Em Lisboa, onde os preços são significativamente superiores aos de muitas outras regiões portuguesas, uma renda pode representar uma parcela elevada ou mesmo ultrapassar os rendimentos mensais de quem recebe uma pensão baixa.
Jornal compara Portugal com Espanha
O artigo estabelece ainda uma comparação entre os pensionistas dos dois países ibéricos.
Segundo o 65YMÁS, existem problemas semelhantes em Espanha, nomeadamente nas pensões mais baixas e no peso crescente da habitação no orçamento das famílias.
Contudo, o autor destaca o mecanismo espanhol de atualização das pensões de acordo com a inflação como uma diferença importante.
Portugal também possui regras legais de atualização anual das pensões que consideram indicadores como a inflação e o crescimento económico, pelo que os aumentos não dependem exclusivamente de uma decisão discricionária do Governo. Ainda assim, podem existir aumentos extraordinários determinados politicamente.
Salário mínimo chega aos 920 euros
Outro dos argumentos utilizados pela publicação espanhola é a diferença entre algumas pensões e o salário mínimo nacional.
Em 2026, a Retribuição Mínima Mensal Garantida em Portugal continental está fixada nos 920 euros brutos.
Existem pensionistas que recebem consideravelmente menos por mês, embora a comparação direta entre salário mínimo e pensões tenha limitações, uma vez que os valores das reformas dependem, entre outros fatores, da carreira contributiva e dos salários registados ao longo da vida profissional.
Ainda assim, para o jornal espanhol, esta diferença ajuda a evidenciar as dificuldades enfrentadas por quem chega à reforma com uma pensão reduzida.
“Deveria envergonhar-nos a todos”
É no final do artigo que surge a crítica mais contundente.
O autor defende que Portugal deve demonstrar que a responsabilidade nas contas públicas pode coexistir com medidas destinadas a melhorar os rendimentos dos pensionistas.
“Reduzir a dívida e dignificar as pensões não são objetivos mutuamente exclusivos”, sustenta a publicação.
O texto termina referindo que, enquanto as contas públicas continuarem a equilibrar-se e existirem pensionistas com dificuldades para encher a despensa, a situação “deveria envergonhar-nos a todos”.
Uma visão particularmente crítica vinda de Espanha que volta a colocar no centro da discussão o equilíbrio entre a redução da dívida pública e a proteção do poder de compra dos reformados portugueses.
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