Um fóssil encontrado há quase dez anos em Sesimbra acaba de ganhar lugar na história da paleontologia. Os especialistas consideram-no o crânio de dinossauro mais completo alguma vez identificado em Portugal e a investigação trouxe ainda outra revelação: a atribuição de um nome oficial à nova espécie, com fortes ligações à cultura nacional: Cariocecus Bocagei.
O fóssil foi localizado em 2016, na região de Sesimbra, mas só agora os resultados do estudo foram publicados numa revista científica internacional. A análise prolongada deveu-se à complexidade da preservação do crânio e à necessidade de comparações com outras espécies já conhecidas.
A importância do crânio
De acordo com investigadores do Centro de Paleobiologia e Paleoecologia da Sociedade de História Natural de Torres Vedras, citados pela Rádio Renascença, trata-se do crânio mais completo de dinossauro alguma vez encontrado em Portugal. O facto de o exemplar corresponder a um indivíduo jovem ou subadulto permitiu estudar em detalhe a fusão dos ossos cranianos durante o crescimento.
As estimativas apontam para que este dinossauro tenha vivido há cerca de 125 milhões de anos, no Cretácico Inferior. A preservação é considerada excecional, com uma fileira de dentes ainda visível na rocha, facto que aumenta a relevância do achado no panorama científico europeu.
Contributo internacional
Além dos especialistas portugueses, participaram na investigação investigadores do Museu Real de Ciências Naturais de Bruxelas. Filippo Bertozzo, um dos responsáveis, sublinha que a descoberta “marca a identificação do primeiro dinossauro iguanodonte do Cretácico Inferior em Portugal”, reforçando o papel do país como elo entre diferentes fases evolutivas.
Portugal como ponte evolutiva
Os especialistas defendem que este achado comprova a posição estratégica de Portugal na história dos dinossauros. O território funcionou como ponte entre os exemplares do Jurássico Superior e as espécies mais avançadas de iguanodontes que surgiram no Cretácico.
Nome com simbolismo português
A escolha do nome oficial para a nova espécie combina duas referências. A designação Cariocecus remete para uma antiga divindade guerreira venerada na região antes da chegada dos romanos. Já o epíteto bocagei presta homenagem ao naturalista português José Vicente Barbosa du Bocage, figura de destaque na zoologia do século XIX e primo do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage.
Uma homenagem à ciência nacional
A inclusão de Bocage no nome científico é vista como uma forma de reconhecer o contributo da ciência portuguesa para o estudo da natureza. O naturalista foi um dos responsáveis pela modernização do Museu de Lisboa e desempenhou um papel crucial na investigação zoológica em Portugal.
Um achado raro na Europa
O nível de preservação encontrado em Sesimbra é considerado raro, mesmo em contexto europeu. Os fósseis com crânios tão completos são escassos e permitem compreender melhor não só a anatomia da espécie, mas também o seu papel no ecossistema do Cretácico.
Este estudo reforça a importância da investigação feita em Portugal na área da paleontologia. Segundo os investigadores, cada nova descoberta ajuda a completar as peças de um puzzle global sobre a evolução da vida na Terra.
Ligação à comunidade local
Para além do impacto científico, a descoberta tem também uma dimensão cultural e identitária. A referência a uma divindade da região e a homenagem a um naturalista português estabelecem uma ligação direta entre o passado remoto e a história mais recente do país.
De acordo com a Rádio Renascença, as entidades envolvidas acreditam que este achado poderá ter também um forte impacto educativo. A divulgação do fóssil em museus e publicações especializadas ajudará a despertar o interesse de jovens estudantes pela ciência e pela preservação do património natural.
Sesimbra ganha protagonismo
A região de Sesimbra, conhecida pelas paisagens naturais e pela ligação ao mar, passa assim a figurar também no mapa internacional da paleontologia. O local do achado ganha relevância científica, atraindo a atenção de especialistas de vários países.
Os investigadores esperam que a descoberta impulsione novos projetos de investigação em Portugal, promovendo colaborações internacionais e valorizando o património paleontológico nacional.
Mais do que um nome científico, o Cariocecus bocagei representa um símbolo da ligação entre ciência, cultura e identidade nacional. Para Portugal, significa também reforçar o estatuto de território-chave na compreensão da história dos dinossauros.
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