Comprar um automóvel no estrangeiro deixou de ser uma solução residual em Portugal. Entre 2021 e 2025, o mercado de carros importados cresceu 62,7%, numa altura em que entram no país cerca de 120 mil automóveis por ano, segundo dados divulgados pela ImportHub. A possibilidade de encontrar preços mais baixos, versões mais equipadas e uma oferta consideravelmente maior ajuda a explicar a procura.
A expansão traz, porém, alguns riscos que podem transformar uma aparente poupança numa despesa inesperada. Quilometragem adulterada, acidentes anteriores difíceis de identificar, problemas na documentação e custos de legalização mal calculados estão entre os aspetos que merecem atenção antes da compra, sobretudo quando o histórico do automóvel passou por vários países.
Importação cresceu mais de 60% em quatro anos
Os dados divulgados pela ImportHub mostram uma subida de 62,7% entre 2021 e 2025, refletindo aquilo que a empresa classifica como uma «mudança estrutural na forma como os consumidores encaram a aquisição de automóveis».
José Maria Branquinho, cofundador da empresa, considera que os portugueses estão hoje mais disponíveis para pesquisar fora do mercado nacional. “Os consumidores portugueses estão hoje muito mais informados e confortáveis em procurar soluções além-fronteiras. O mercado europeu passou a fazer parte do processo de decisão de compra e acreditamos que esta tendência continuará a consolidar-se nos próximos anos.”
Entre os veículos importados através da ImportHub, 78,2% são eletrificados, incluindo automóveis totalmente elétricos e híbridos. O número acompanha a crescente procura por estas motorizações e a disponibilidade de uma oferta mais alargada noutros países europeus.
Mais de metade dos carros matriculados já tinham passado pelo estrangeiro
Outros números ajudam a perceber a dimensão do fenómeno. No início deste ano, a Associação Automóvel de Portugal (ACAP) revelou que, em 2025, quase 54% dos automóveis ligeiros de passageiros que receberam uma matrícula portuguesa tinham já um registo anterior no estrangeiro. Na altura, o vice-presidente da ACAP, Pedro Lazarino, defendeu um maior controlo sobre os automóveis que entram no país e utilizou uma expressão particularmente crítica, afirmando que Portugal estaria a “importar o lixo do resto da Europa”.
A preocupação da associação estava relacionada com a necessidade de garantir um controlo adequado sobre o estado dos veículos usados importados. Naturalmente, ter sido comprado no estrangeiro não significa que um carro tenha problemas, mas conhecer todo o seu passado pode tornar-se mais difícil quando existem registos distribuídos por diferentes países.
Quilómetros adulterados são um dos riscos
Um dos problemas mais associados ao mercado de usados é a manipulação do conta-quilómetros. Segundo dados divulgados pela CarVertical, 3,6% dos automóveis importados para Portugal analisados entre setembro de 2024 e agosto de 2025 apresentavam quilometragem adulterada. Matas Buzelis, especialista da empresa, alertou que o risco aumenta quando estão em causa veículos trazidos de outros mercados, referindo que alguns chegam depois de terem sofrido acidentes ou com alterações na quilometragem.
Uma diferença significativa entre os quilómetros anunciados e aqueles que o automóvel realmente percorreu pode ter consequências financeiras importantes. Um veículo aparentemente pouco utilizado pode, na realidade, apresentar maior desgaste de motor, transmissão, suspensão e outros componentes, levando o comprador a enfrentar reparações mais cedo do que esperava.
Acidentes anteriores também podem ficar escondidos
Outro ponto a verificar é o historial de sinistros. Um automóvel pode ter sofrido um acidente noutro país, ter sido reparado e posteriormente colocado novamente à venda sem que essa informação seja imediatamente evidente para um comprador em Portugal. É por isso aconselhável procurar informação através do VIN, o número de identificação único do veículo, recorrendo a registos disponíveis e confirmando, sempre que possível, quilometragem, acidentes anteriores e outras ocorrências associadas ao automóvel. Uma inspeção mecânica antes da compra pode igualmente ajudar a identificar reparações estruturais, diferenças de pintura, peças substituídas ou outros indícios de intervenções anteriores.
Preço anunciado no estrangeiro não é o preço final
A diferença de preço entre Portugal e mercados como o alemão pode tornar a importação particularmente apelativa, mas o valor apresentado no anúncio não corresponde necessariamente ao custo final do automóvel já legalizado em território nacional. É necessário acrescentar despesas relacionadas com transporte, impostos, inspeção e legalização, entre outros encargos associados ao processo. Dependendo do automóvel escolhido, estes valores podem reduzir substancialmente a poupança inicialmente prevista. Antes de comprar, importa por isso fazer as contas ao custo total e não apenas comparar o preço de venda do carro no estrangeiro com o valor pedido por um modelo semelhante em Portugal.
Documentação pode transformar-se noutro problema
Também a documentação exige atenção. O automóvel deve ser acompanhado pelos documentos necessários à identificação da viatura e à comprovação da transação, incluindo os elementos de registo e a respetiva declaração ou contrato de compra e venda. Problemas documentais podem atrasar o processo de legalização ou obrigar o comprador a obter posteriormente documentos junto do vendedor estrangeiro. A escolha de um concessionário ou intermediário com referências e reputação verificável ajuda a reduzir esse risco.
Importar pode compensar, mas exige cuidados
Comprar fora de Portugal continua a apresentar vantagens. Mercados europeus maiores podem oferecer mais modelos, equipamentos diferentes e preços potencialmente inferiores, permitindo encontrar automóveis que seriam mais difíceis ou caros de adquirir no mercado nacional.
O crescimento de 62,7% registado entre 2021 e 2025 mostra que um número cada vez maior de portugueses está disposto a procurar essas oportunidades além-fronteiras. A vantagem financeira, contudo, depende de uma compra informada: confirmar o VIN, verificar quilometragem e eventuais acidentes, analisar a documentação e calcular todos os custos da importação são passos que podem evitar que um negócio aparentemente barato acabe por sair caro.
















