Dois norte-americanos decidiram processar um hospital do Dakota do Norte depois de testes de ADN terem revelado que foram trocados à nascença, há 38 anos. Na ação judicial, Kyle Bylin e Jeremy Morrison acusam a unidade de saúde de lhes ter “roubado as vidas que deveriam ter tido”.
A descoberta começou quando Kyle Bylin realizou um teste caseiro de ADN que recebeu durante uma troca de presentes de Natal. O resultado conduziu-o a uma tia biológica através de uma plataforma de genealogia.
Jeremy Morrison, sobrinho da mulher identificada pelo teste, submeteu-se depois ao mesmo tipo de análise. Os resultados confirmaram a ligação biológica entre os dois homens e as respetivas famílias.
“Foi quando a minha mente ficou completamente em choque”, contou Bylin. “Nunca poderíamos imaginar que tinha ocorrido uma troca de bebés à nascença”, acrescentou.
Morrison disse ter ficado convencido do que tinha acontecido assim que viu uma fotografia do irmão de Bylin e percebeu as semelhanças entre ambos.
Únicos bebés nascidos naquele dia
Segundo o processo judicial, apresentado na semana anterior a 18 de julho, Bylin e Morrison foram os únicos bebés nascidos em 26 de janeiro de 1988 no Unity Medical Center, em Grafton, no Dakota do Norte. Apesar disso, cada um acabou por ser entregue aos pais do outro.
Kyle Bylin, que biologicamente seria Jeremy Morrison, ainda conserva a pulseira colocada no hospital, na qual foi identificado de forma errada como Kyle Bylin.
Os registos hospitalares dessa altura já não existem, o que dificulta o esclarecimento das circunstâncias em que ocorreu a troca.
O Unity Medical Center não contesta que os bebés foram trocados em algum momento, mas sustenta não existirem provas de que a administração ou os profissionais da unidade tenham sido responsáveis pelo erro.
“Reconhecemos o impacto profundo que esta descoberta teve neles e nas suas famílias”, afirmou o hospital, em comunicado.
“Infelizmente, devido à passagem de quase quatro décadas, os registos médicos e de pessoal que poderiam trazer mais clareza já não existem”, acrescentou a unidade de saúde.
Famílias tentam adaptar-se à descoberta
Passaram dois anos desde que os testes de ADN abalaram tudo o que os dois homens e os seus familiares julgavam saber sobre as respetivas origens.
Evelyn Newton, mãe que criou Kyle Bylin, garantiu que a descoberta não altera a relação construída ao longo de décadas.
“O Kyle continua a ser meu filho, isso nunca vai mudar”, afirmou à Associated Press.
Ainda assim, reconheceu sentir a perda do tempo que não viveu com o filho biológico. “Sinto-me roubada da vida que deveria ter tido com o meu filho biológico. Não se podem recuperar 35 anos. Primeiros passos, aprender a conduzir, casar. Como se compensa isso?”, questionou.
Jeremy Morrison também continua a considerar Elizabeth O’Toole e Terry Morrison como os seus pais.
“Fui amado. Joguei desporto. Fui bom aluno. Um teste de ADN não vai apagar 38 anos de memórias”, declarou.
Morrison vive atualmente em Colorado City, no estado do Colorado, e trabalha como inspetor de soldadura numa empresa de energia eólica. Acredita que, caso não tivesse sido trocado, poderia estar a trabalhar com o irmão biológico e o pai na quinta de cereais da família Bylin, no Dakota do Norte.
“Somos pessoas totalmente diferentes”
Para Kyle Bylin, a descoberta tornou pessoais as questões relacionadas com a influência da genética e da educação na identidade de cada pessoa.
“Estava sempre a pensar: como é que esta pode ser a minha família? Como sou tão diferente deles? Afinal, somos apenas pessoas totalmente diferentes”, afirmou.
Os casos de bebés trocados à nascença são raros, mas os testes caseiros de ADN têm facilitado a descoberta de situações ocorridas há várias décadas. Em paralelo, a tecnologia atualmente utilizada nos hospitais ajuda a evitar este tipo de erro.
Jonathan Marron, médico da Harvard Medical School, considerou que, atualmente, é praticamente impossível ocorrerem trocas semelhantes.
O advogado Tim O’Keefe afirmou ter tentado, durante um ano, alcançar um acordo financeiro com o hospital antes de avançar com a ação judicial por negligência e danos emocionais.
Enquanto o processo segue os seus trâmites, as famílias continuam a adaptar-se à nova realidade e a construir relações até agora inexistentes.
“Agora sei a verdade, mas ainda estamos a trabalhar para construir relações”, disse Morrison. “Não posso voltar atrás no tempo e reconstruir o que já se perdeu. É um trabalho em progresso, tal como eu.”
A.Pinto / HDF
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