Estou perplexo. Tento perceber este tempo estranho em que o mundo parece estar mergulhado. Tento perceber esse mundo aos estilhaços, totalmente fragmentado. Tento perceber cada drone assassino a atravessar os céus da Ucrânia, cada tanque a trautear terreno em Gaza, cada bomba a tentar acertar em bunkers nucleares persas, cada míssil a iluminar os céus de Jerusalém, Tel Aviv e Haifa. E os rostos de espanto. Tento perceber.
A guerra estalou. A que entra diariamente nos noticiários, intermitente, com comentários em despique nos canais televisivos. A geopolítica passou a ser interpretada a toda a hora. Sabemos o nome de todos os protagonistas no campo de batalha. Sabemos o arsenal de que dispõem os contendores. Os avanços no terreno. As conquistas virtuais. O rodopio das negociações falhadas. Apelos piedosos. Alterações estratégicas. Traições palacianas. Tréguas temporárias. Vitórias anunciadas, efémeras.
Sabemos o número aproximado de vítimas. Não se distinguem civis de militares. Os projéteis não escolhem. Acertam. De vez em quando aparecem rostos ensanguentados entre escombros. Noutras, imagens chocantes de gente esfaimada a lutar por um saco de farinha. Sacos brancos fechados em fila e mães que choram. Cortejos fúnebres, de um lado e do outro, com restos mortais envolvidos em bandeiras nacionais. Cemitérios cheios de cruzes com laços amarelos e azuis e mães que já deixaram de chorar. Geografias diferentes. Carregadas de morte.
Está normalizado o cenário de guerra. Acabou o tempo longo de paz. A paz faz-se, agora, pela força. É tempo de rearmamento. Do reforço da agenda da Defesa. Discute-se o que gasta cada bloco. O número de caças, porta-aviões, submarinos, tanques, efetivos militares… Lança-se a nova cruzada. Um número mágico: 5%. Pergunta-se: porquê? Até onde se pretende ir nesse apregoado reequilíbrio? Apenas uma meta imposta. Discute-se de onde vem o dinheiro. Onde se vai tirar? Como se pode suportar um aumento da dívida? Inventariam-se hipóteses. Advinham-se pistas. Inventa-se uma especial vocação industrial. Admite-se, é preciso gastar mais em Defesa. De resto, logo se vê.
“One Big Beautifull Bill Act” talvez nos dê um cheirinho do que por aí virá. Essa nova agenda trumpista, extremista, nacionalista, belicista e contracultural. Cortes nos impostos, que fazem os ricos mais ricos e atraem a ambição de corporações sem escrúpulos. Cortes no Medicaid e no programa alimentar SNAP, encerramento da agência humanitária USAID. Uma ideia-forte: abater a agenda social. Cortes nos apoios a energias limpas, incentivos aos combustíveis fósseis, retirada dos EUA do Acordo de Paris. Uma outra ideia-chave: fazer retroceder a agenda ambiental. Um teto elevado para a dívida, para defesa e segurança interna. A dívida, essa, um dia alguém a pagará. Financeira, mas principalmente, moral.
Nada será como dantes. Fica tudo contaminado. Os retrocessos estão à vista. A bajulação do vencedor, as contradições da Europa. A Guerra é o novo estado do mundo. Os cortes, nas políticas sociais e ambientais, o instrumento para se reequipar o arsenal. Pagarão os mesmos de sempre. Os ganhadores, esses, estarão na primeira fila à espera dos dividendos. O espetáculo vai continuar. Com líderes fracos de egos fortes. Neste tempo em que, certamente, não teremos orgulho de ter vivido.
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