O futuro do Algarve esteve em destaque no jantar-debate “Segurança • Desporto • Saúde – Três temas essenciais para o futuro do Algarve”, realizado a 17 de setembro, no Restaurante Harune, no Hotel Eva Senses, em Faro, numa organização da CEAL – Confederação dos Empresários do Algarve, que tem promovido encontros temáticos para pensar a competitividade e a qualidade de vida na região.
A sessão reuniu três personalidades que partilharam visões sobre áreas estratégicas: o coronel Amadeu Rodrigues, Duarte Vaz, gestor da Lusíadas Saúde, e Reinaldo Teixeira, presidente da Liga Portugal. A iniciativa, em formato de mesa‑redonda e com espaço para perguntas do público, foi moderada pelo jornalista Henrique Dias Freire, diretor do Postal do Algarve.
“Marca Segurança” como ativo económico — e alerta para sinais de alarme
Com mais de 40 anos de carreira na GNR e na Inspeção‑Geral da Administração Interna, o coronel Amadeu Rodrigues abriu o debate sublinhando que Portugal “continua a ser um dos países mais seguros e pacíficos da Europa”, um atributo que ajuda a atrair visitantes, investimento e talento. “Qual é, afinal, o valor da Marca Segurança para Portugal?”, questionou, lembrando o peso do turismo no PIB e a relação direta entre confiança e atratividade do destino.
Sem negar os bons indicadores, o coronel advertiu para “sinais de alarme” que não podem ser ignorados, da perceção de insegurança ao impacto das incivilidades em espaços urbanos degradados. Defendeu respostas coordenadas entre forças de segurança, justiça e autarquias, para que a lei seja “tempestiva e percetível” e a coesão social não seja posta em causa.
A partir de dados que apresentou, Amadeu Rodrigues assinalou que, apesar de o RASI 2024 apontar um decréscimo de 4,6% face a 2023, a perceção de insegurança “aumentou”. Entre os fenómenos em alta, destacou a subida de crimes informáticos, o crescimento de grupos juvenis em atos qualificados na lei tutelar de menores e o agravamento de crimes sexuais, com a média de violações dos últimos três anos a superar em cerca de 40% a média de 2000‑2020. “Não podemos permitir que a banalização do crime se instale”, frisou.
Algarve sob escrutínio: mais pressão, mais responsabilidade
O orador trouxe também números regionais para o centro da discussão: o Algarve surge com 51 crimes por mil habitantes, acima da média nacional (33). Em 2024, o distrito de Faro terá ficado 21% acima da média 2015‑2019, e Albufeira lidera no ranking concelhio com 78 crimes por mil, valores que contrastam com as médias de Lisboa (54) e Porto (61). “Algo está errado na Região Algarvia e muita coisa terá de ser feita para inverter a situação”, concluiu, apontando o combate às incivilidades, a intervenção no espaço público e a proximidade policial como prioridades.
Carreiras policiais: “A profissão perdeu encanto e isso deve preocupar‑nos”
Uma parte significativa da intervenção foi dedicada aos recursos humanos nas forças de segurança. “A carreira policial está em crise. Ponto.” O coronel enumerou constrangimentos: baixas remunerações face ao risco e horários por turnos, progressões bloqueadas, instalações e frota “frequentemente degradadas”, escalas alteradas à última hora e falta de apoio psicológico. Lembrou ainda vagas por preencher nos últimos concursos e saídas de efetivos para outras áreas. “Investir nas polícias — formação, condições de trabalho, ética e proximidade — é investir na própria democracia e na qualidade de vida de todos nós”, rematou.
No capítulo da saúde mental, partilhou indicadores preocupantes: uma taxa de suicídio entre polícias superior à média da população e a utilização da arma de serviço na maioria dos casos, sinalizando a urgência de reforçar prevenção e acompanhamento.
- Amadeu Rodrigues pediu respostas firmes às incivilidades, atenção à perceção de insegurança e valorização das forças de segurança.
- Duarte Vaz defendeu inovação e sustentabilidade com foco no acesso e na gestão adaptada à realidade algarvia.
- Reinaldo Teixeira sublinhou o desporto como alavanca económica e social, com efeitos duradouros no território.
Saúde: visão estratégica, inovação e acesso
No painel da saúde, Duarte Vaz, gestor da Lusíadas Saúde e especialista em transformação organizacional, defendeu uma visão estratégica multidisciplinar para o Algarve, com foco na inovação, sustentabilidade e melhoria do acesso aos cuidados. Hoje Transformation and Client Manager na região, sublinhou a importância de soluções que aproximem os serviços dos cidadãos e de uma gestão capaz de responder às especificidades demográficas e sazonais do Algarve.
Desporto: impacto económico, social e territorial
A fechar, Reinaldo Teixeira — presidente da Liga Portugal desde 11 de abril de 2025 e antigo presidente da Associação de Futebol do Algarve — partilhou a sua experiência de cinco décadas ligadas ao futebol para ilustrar o papel do desporto como motor de desenvolvimento regional. Realçou a capacidade do ecossistema desportivo para atrair investimento, gerar emprego, fixar população e promover a coesão através da prática e do espetáculo, do alto rendimento ao desporto de base.
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