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Aspeto geral da estrutura de uma casa produzida em fábrica | Foto DR
Algarve, Economia, Edição Papel

Construir casas como quem monta automóveis

Burocracia, custos e falta de mão-de-obra tornam a construção no Algarve um desafio cada vez mais difícil de superar

11:08 28 Junho, 2025 11:34 28 Junho, 2025
Cristina MendonçaCristina MendonçaJornalista
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Imagine um estaleiro de obras num recanto solarengo do Algarve, onde as gruas se movem mais devagar do que o esperado. O mestre de obras conta os sacos de cimento com apreensão: cada um custa bem mais do que no ano anterior.

As equipas estão incompletas – falta mão-de-obra qualificada, especialmente em pleno verão, quando muitos trabalhadores seguem para outras oportunidades sazonais. Esta cena hipotética reflete uma realidade atual: construir habitação no Algarve tornou-se uma tarefa hercúlea. Custos em alta (materiais, mão-de-obra, energia), burocracia pesada, terrenos escassos e caros – uma tempestade perfeita que ameaça travar novos projetos habitacionais antes mesmo de saírem do papel.

Custos em alta e projetos em risco

Nos últimos anos, os custos de construção dispararam. A inflação, perturbações nas cadeias de abastecimento e a escassez de trabalhadores especializados encareceram materiais básicos e salários, tornando os novos empreendimentos consideravelmente mais dispendiosos e menos viáveis economicamente. Só no início de 2025, por exemplo, registou-se um aumento médio de 3,1% nos custos de construir habitação nova em Portugal, impulsionado sobretudo por uma subida de 6,9% no custo da mão-de-obra. No Algarve, este problema é ainda mais acentuado: a procura sazonal por trabalhadores da construção civil faz inflacionar os salários e agrava os custos fixos das obras. Em paralelo, o preço de muitos materiais de construção mantém-se elevado, apesar de algumas oscilações – certos itens como betão pronto encareceram enquanto outros, como madeiras, tiveram ligeiras descidas, exigindo uma gestão apertada dos orçamentos.

A par dos custos diretos, os atrasos burocráticos e regulamentares pesam no calendário (e no bolso) de quem quer construir. Conseguir uma licença de obra pode ser um processo lento e complexo em Portugal, e no Algarve essa demora é quase proverbial. Planos de ordenamento rigorosos e restrições ambientais – concebidos para proteger a beleza natural da região – implicam que aprovar um novo projeto imobiliário possa arrastar-se no tempo. Cada mês adicional à espera de pareceres e autorizações traduz-se em aumento de custos financeiros (juros, equipamentos parados) e incerteza para os promotores. Além disso, terreno disponível para habitação é um recurso escasso nas zonas mais procuradas: concelhos costeiros como Lagos, Albufeira ou Vilamoura quase não têm lotes livres em zonas urbanizáveis, e as restrições nas zonas protegidas limitam a expansão urbana. Onde há terrenos, os preços são proibitivos, encarecendo logo à partida qualquer empreendimento habitacional.

O resultado desta conjugação de fatores é preocupante. Muitos projetos simplesmente deixam de ser rentáveis. Os promotores fazem contas: será que compensa iniciar uma obra, sabendo que o orçamento pode derrapar e os compradores locais não terão como pagar o preço final? Em várias regiões do país – e o Algarve não é exceção – multiplicam-se concursos públicos desertos, em que nenhuma construtora se apresenta para executar obras de habitação por considerarem os valores base insuficientes face aos custos reais. No Algarve, mais de 25% dos concursos para empreitadas já ficam sem concorrentes, percentagem muito superior à de anos anteriores. Este fenómeno deixa autarquias em alarme, pois projetos essenciais estão por executar por falta de empreiteiros interessados, desde bairros de habitação acessível a infraestruturas básicas. A crise da construção começa assim a travar a resposta à também premente crise habitacional.

Foto Freepik

Rentabilidade em xeque: o dilema dos promotores

Para os promotores imobiliários, a conta é simples e implacável: com custos de construção tão elevados, garantir margens de lucro torna-se difícil se o objetivo for vender ou arrendar a preços acessíveis à classe média local. Muitos optam então por focar esforços noutra fatia do mercado – aquela onde as margens ainda existem. Propriedades de luxo, destinadas a clientes de elevado poder de compra, dominam grande parte dos novos desenvolvimentos no Algarve. É fácil perceber porquê: um apartamento de luxo ou uma moradia para investidores estrangeiros pode suportar preços finais muito acima do custo de construção, ao contrário de uma habitação de segmento médio ou social. Contudo, esta abordagem gera um défice na oferta para quem vive e trabalha na região. As famílias algarvias de rendimento médio/baixo veem pouca ou nenhuma oferta nova que se adeque às suas possibilidades financeiras. Em última análise, constrói-se para quem pode pagar, mas negligencia-se a habitação acessível, acentuando desigualdades e a exclusão residencial dos residentes locais.

O caso de Albufeira ilustra bem esta encruzilhada. Num recente concurso público para uma obra avaliada em cerca de 9 milhões de euros, não surgiram concorrentes dispostos a executá-la dentro do orçamento previsto. Bastou uma única proposta válida desistir para a empreitada ficar em risco de paralisia total. Este exemplo realça a dificuldade em concretizar projetos mesmo quando há financiamento público disponível – simplesmente não há empresas capazes de pegar na obra pelo preço definido, pois os custos de mão-de-obra e materiais tornaram-se imprevisíveis. Situações assim repetem-se em vários municípios. As câmaras, pressionadas para dar respostas no âmbito de programas como o 1.º Direito ou o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), deparam-se com vagas de concursos vazios e reorçamentações sucessivas. O Governo admitiu recentemente que, a nível nacional, milhares de casas previstas não foram iniciadas a tempo por causa destes contratempos na construção. Em suma, a viabilidade financeira dos projetos habitacionais está em xeque: ou se aumentam substancialmente os preços de venda (inviabilizando o acesso à habitação por parte da população local) ou arriscam-se empreitadas condenadas à estaca zero.

Um projeto pioneiro em Faro

No meio deste cenário adverso, alguns exemplos pontuais trazem um sopro de esperança – e ilustram também os desafios enfrentados. Faro, capital algarvia, foi palco em 2024 de um projeto habitacional inédito: o condomínio BeLiving. Trata-se do primeiro empreendimento de habitação a custos controlados promovido por um privado em Portugal, uma iniciativa da promotora GFH com financiamento bancário do Santander. São 90 apartamentos modernos, energeticamente eficientes e com certificação ambiental LiderA, mas o mais notável são os preços: as casas foram vendidas entre 140 mil e 230 mil euros, valores significativamente abaixo do praticado no mercado livre para tipologias T1 a T3 na região. Destinado a jovens e famílias de classe média/baixa que de outra forma dificilmente conseguiriam comprar casa, o projeto teve procura massiva – cerca de 1000 candidaturas para 90 fogos. Hoje, com as chaves entregues, 60% dos moradores têm menos de 35 anos e finalmente conseguiram estabelecer-se com habitação própria na sua terra.

O caso BeLiving ilustra dois pontos. Primeiro, evidencia a enorme demanda reprimida por habitação a preços comportáveis no Algarve – a rapidez com que estes apartamentos foram atribuídos e a avalanche de interessados confirmam que há milhares de pessoas “presas” num mercado onde não conseguem entrar. Segundo, mostra que é possível realizar projetos diferentes, mas não sem dificuldade. Para viabilizar este condomínio a preços controlados, foi necessária uma conjunção rara: um promotor com responsabilidade social, disponibilidade de financiamento favorável e aposta em soluções construtivas eficientes. O condomínio seguiu um modelo sustentável e padronizado, com design simplificado e otimização de materiais, para conter custos sem comprometer a qualidade. Ainda assim, sendo um projeto pioneiro, não foi fácil – e é elucidativo que haja já planos para replicar o conceito noutros 9 empreendimentos, incluindo no Algarve, num total de mais de 1000 apartamentos. Ou seja, escala e repetição entram aqui como parte da solução: quanto mais for possível reproduzir iniciativas como esta, aproveitando economias de escala e modelos testados, mais perto estaremos de atenuar a crise de oferta habitacional.

Também no setor público começam a surgir movimentações importantes. A Câmara de Lagos, por exemplo, lançou em 2025 o concurso para construir 104 fogos de habitação a custos controlados, num investimento municipal de 19 milhões de euros. Trata-se da maior empreitada dentro da Estratégia Local de Habitação deste município, incluindo mesmo um piloto de habitação colaborativa (cohousing). Se levada a bom porto, esta obra poderá alojar dezenas de famílias locais a preços acessíveis. Porém, o seu sucesso dependerá, tal como nos casos anteriores, da capacidade de contornar os obstáculos de sempre – conseguir construtores que aceitem os valores propostos, assegurar que não há derrapagens orçamentais e que a burocracia não atrasa o calendário. É um teste determinante: a forma como projetos como o de Lagos avançarem (ou não) nos próximos anos será um termómetro da nossa habilidade coletiva em superar os entraves estruturais na habitação.

Estandardização e construção off-site: um caminho para o futuro

Diante de custos galopantes e falta de mãos para a obra, a indústria da construção começa a reconhecer que é preciso construir de forma diferente. Nos bastidores, ganha força a ideia de “industrializar” a construção, trazendo para este setor a eficiência que associamos à produção em fábrica. Estandardização de processos e componentes, pré-fabricação em ambiente controlado e montagem rápida em obra – estes são alguns dos pilares da chamada construção off-site. Em vez de erguer cada edifício lentamente, peça a peça, no local definitivo (sujeito a intempéries, imprevistos e ineficiências), propõe-se montar grandes partes numa fábrica e enviá-las já prontas para o estaleiro. Construir casas como quem monta automóveis: num chão de fábrica, com equipas especializadas, ferramentas de precisão e cronogramas fiáveis. Esta abordagem promete reduzir prazos de execução, controlar custos e elevar a qualidade final, enquanto alivia a dependência de muita mão-de-obra presencial no terreno.

Uma nova casa pré-fabricada modular de madeira dentro de uma instalação de fabricação | Foto Freepik

Empresários e especialistas do ramo destacam que a construção industrializada pode ser uma das ferramentas mais eficazes para responder à falta de habitação a preços acessíveis. Porquê? Em parte, porque permite colocar no mercado casas novas de forma mais rápida e previsível, evitando os atrasos crónicos das obras tradicionais. Além disso, ao padronizar módulos e repetir soluções técnicas, consegue-se escala – produzindo mais unidades em menos tempo – e um controlo de qualidade rigoroso em fábrica. Do ponto de vista dos custos, a construção off-site minimiza desperdícios de materiais (cada peça é cortada à medida exata, evitando sobras) e consegue comprar insumos em volume, a melhor preço. Tudo isto contribui para tornar os projetos viáveis, com margens mais sustentáveis tanto para o promotor como para o comprador, ao reduzir desvios orçamentais e otimizar recursos. Nas palavras de uma responsável da First Properties (Grupo Casais), que abraçou este modelo, “a construção industrializada… permite colocar produtos residenciais ajustados à procura com maior controlo de custo e prazo”, surgindo como um modelo de resposta real à urgência habitacional.

Importa notar que esta onda de inovação já está a chegar ao Algarve. Ainda que, por enquanto, mais visível em empreendimentos turísticos e de alta gama, a adoção de métodos construtivos modernos ganha terreno. Um exemplo marcante é o projeto Arcaya, em Vilamoura – um empreendimento residencial de luxo que, apesar do segmento elevado, foi concebido com estruturas em madeira e construção modular off-site, numa ótica de sustentabilidade ambiental e rapidez de execução. Ou seja, mesmo no topo do mercado, reconhece-se o valor de construir de forma diferente: as primeiras 48 moradias pré-fabricadas deste projeto estarão concluídas em apenas 12 meses, um prazo notavelmente curto para o volume em causa. Se tecnologias semelhantes forem aplicadas a projetos de habitação acessível, poderemos reduzir significativamente os tempos de obra (atenuando o impacto de custos financeiros) e garantir orçamentos mais estáveis. Há, claro, desafios a superar – desde a formação de mão-de-obra especializada para fabrico e montagem, até à necessidade de ajustar regulamentos que ainda presumem a construção tradicional em muitas normas. Mas a direção parece traçada: standardizar para escalar. O que está em jogo não é só construir mais depressa, é construir melhor e mais barato, sem repetir as ineficiências de um setor que permaneceu artesanal durante demasiado tempo.

Um apelo à inovação e eficiência

Os desafios da habitação no Algarve – e em Portugal – não serão resolvidos com soluções triviais. A subida dos custos e a pressão sobre a rentabilidade vieram para ficar no horizonte próximo, exigindo respostas concertadas e criativas. É urgente que público e privado colaborem: políticas públicas inteligentes podem incentivar a modernização dos processos construtivos (por exemplo, agilizando licenciamentos para quem adota métodos mais eficientes, ou apoiando financeiramente a instalação de fábricas modulares). Ao mesmo tempo, o setor privado precisa de continuar a investir em inovação, abandonando velhos hábitos e acolhendo a tecnologia e a sustentabilidade como aliadas. A introdução de novas técnicas construtivas, a aposta na formação de trabalhadores (para operarem máquinas e software de construção avançada), e a otimização de projetos (com arquitetura adaptada à pré-fabricação, por exemplo) são caminhos incontornáveis para fazer mais com menos.

Garantir habitação acessível no Algarve nos próximos anos passará, necessariamente, por elevar a produtividade e a eficiência da construção civil. Não se trata apenas de gastar mais dinheiro público ou construir mais casas de qualquer maneira – trata-se de construir de forma diferente. Se conseguirmos casas erguidas em metade do tempo, com metade do desperdício e energia consumida, estaremos não só a conter custos como a melhorar a sustentabilidade geral das nossas cidades. Importa lembrar que cada euro poupado em ineficiências pode ser canalizado para mais habitações ou preços finais mais baixos para as famílias. Iniciativas como a de Faro (BeLiving) mostraram que é possível equilibrar preço e qualidade quando há vontade e parceria; projetos públicos como o de Lagos revelam que há reconhecimento do problema e disposição de investir na solução. Falta agora multiplicar estes exemplos, aprendendo com eles e aprimorando modelos.

O Algarve de hoje enfrenta uma encruzilhada: de um lado, o risco de se tornar uma região onde apenas os endinheirados conseguem habitar condignamente; do outro, a oportunidade de liderar uma transformação na construção habitacional, tornando-a mais ágil, económica e sustentável. A segunda via requer coragem para mudar – mas os ganhos serão profundos. A habitação acessível é um pilar de coesão social e de desenvolvimento económico (afinal, sem casas para os trabalhadores, até o turismo e os serviços da região sofrem). Por isso, este é um apelo à inovação e à eficiência: que governo, autarquias, construtores e comunidade unam esforços para construir melhor e diferente. Assim, quem sabe, dentro de alguns anos poderemos voltar ao imaginário estaleiro algarvio do início deste texto e encontrar um cenário bem distinto – gruas em movimento acelerado, módulos habitacionais a encaixar-se como Legos gigantes, prazos a serem cumpridos e famílias a entrarem nas suas novas casas sem que isso seja um luxo. Esse será o dia em que o Algarve terá vencido o desafio da habitação, provando que das crises nascem oportunidades para fazer história na construção.

Leia também: “A experiência foi horrível”: britânica ‘frustrada’ com preços e má educação dos locais nesta ilha paradisíaca perto de Portugal

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