Natural de Tavira e investigador em Roma, Tomás Pinto Bravo acaba de publicar, pela Arandis, Dom Jerónimo Osório e a Teoria da Nobreza, livro resultante da sua dissertação de mestrado e de uma comunicação distinguida com o Prémio Marquês de Fronteira e Alorna.
Em entrevista ao POSTAL, o historiador explica como o humanista e bispo de Silves ligou a nobreza à virtude, ao mérito e ao bem comum e defende a recuperação de uma das maiores figuras intelectuais associadas ao Algarve.
Da curiosidade tavirense à Bolonha de Osório
P – Dom Jerónimo Osório e a Teoria da Nobreza nasceu da sua dissertação de mestrado em Roma e recebeu o Prémio Marquês de Fronteira e Alorna. O que o levou a estudar a primeira obra de Osório?
R – Comecei a interessar-me pela figura de D. Jerónimo Osório durante a licenciatura em Lisboa, quando soube que morreu em Tavira. À medida que fui lendo sobre Osório e o que Osório escreveu, apercebi-me da importância histórica e da qualidade do pensamento, e foi a partir daí que o meu interesse passou muito além de uma paixão localista. Quando tive de preparar uma dissertação em Itália, já sabia que queria estudar Jerónimo Osório, e então decidi estudar a única das suas obras que foi integralmente escrita em Itália. Todo o debate sobre a nobreza teve origem em Itália, a partir do Convivio de Dante Alighieri, e desenrolou-se até ao Humanismo com grande fervor. O jovem Osório, que rondava os 25 anos, tem contacto com esse debate em 1540, quando vai estudar para Bolonha. É aí que decide, através de um contributo sobre a temática, fazer o seu exórdio.
Virtude, mérito e responsabilidade
P – Hoje, a palavra “nobreza” remete sobretudo para títulos, sangue e privilégio. Que significado lhe dava D. Jerónimo Osório e por que razão colocou a virtude no centro?
R – A virtude como fonte da nobreza é um tópico que vem já da Antiguidade romana. Jerónimo Osório repesca-o e associa-lhe caráter público, ou seja, defende que a virtude que faz a nobreza é a virtude que é empregue no bem comum. Para Jerónimo Osório, o significado da nobreza está intimamente ligado ao desejo positivo da excelência e da coragem, intelectual e moral, e à obrigatoriedade da transmissão desse desejo.

P – O tratado contrapõe a nobreza herdada à do “homem novo”, conquistada pelo mérito. Que atualidade tem esta reflexão perante os debates sobre mobilidade social e responsabilidade das elites?
R – Jerónimo Osório preocupou-se em afirmar que nobreza tem de presumir sempre mérito: quem herda tem a responsabilidade de aumentar ou, pelo menos, de continuar o que recebeu; quem conquista determinado estatuto sozinho tem igualmente mérito e deve ter ainda a responsabilidade de transmitir aos descendentes ou aos mais próximos o que conquistou.
Precisamente porque nobreza presume mérito é que Osório defende, inclusive, que a nobreza se perde por demérito. No século XVI, a proposta de Osório possuía grande atualidade: por um lado, não prescinde do “velho” ideal que liga nobreza e família, porque considera que a família é sempre um lugar privilegiado para a transmissão; por outro, apresenta a “novidade” da nobreza como um bem que tanto se pode perder como pode ser fundado.
Não é por acaso que esta obra de Jerónimo Osório foi escrita com um estilo literário semelhante ao de Cícero e com reminiscências das suas obras. Cícero foi não só o príncipe da eloquência latina como também o protótipo do homo novus: não vinha da classe mais alta, mas, graças às suas capacidades e esforços, alcançou lugar cimeiro na República romana.
Através da figura de Cícero, Osório identifica a nobreza com o desejo positivo de excelência, associa-a à noção de causa pública e à dignidade da atividade judicial e da cultura das letras. Ouso até dizer que, através deste modelo, numa época de transição como foi o Renascimento, face à imagem da nobreza como elite guerreira típica da Idade Média, Osório conseguiu legitimar o ideal da nobreza como elite dirigente: elite ilustrada, capaz de ajudar na governação, de estudar Direito, de servir na diplomacia. À nobreza de espada acrescentou-se o ideal da nobreza de toga. Toda esta reflexão encontraria hoje na Sociologia ou na Ética pelouro equivalente sob as palavras-chave “mérito”, “reconhecimento” e “educação”.
Maquiavel, Erasmo e a fama europeia
P – Osório refuta Maquiavel e critica o pacifismo de Erasmo, admitindo a possibilidade da “guerra justa”. Como devem estas posições ser lidas no contexto do século XVI?
R – O jovem autor estudante em Bolonha refuta a afirmação de Maquiavel segundo a qual o Cristianismo reduziu a coragem, outrora vicejante no tempo dos Romanos, por não a considerar verdadeira. Erasmo critica a defesa incondicional da Paz na medida em que tal poderia afetar o projeto expansionista português sobretudo no Oriente. Além destes aspetos explícitos, há ainda outro, implícito, que é o de, através das críticas, guindar-se à fama que só os assuntos polémicos dão aos autores – e acho que esta estratégia ainda hoje não é estranha ao jornalismo…

P – A obra de Osório teve 27 edições latinas em sete países e foi traduzida ainda durante a vida do autor. Como explica que um humanista com esta projeção europeia seja hoje pouco conhecido?
R – Explica-se simplesmente pelo facto de Osório ter escrito sempre em latim. Se Osório tivesse escrito em português, a sua projeção lá fora teria sido muito mais lenta e de certeza menor, mas entre nós seria um clássico da língua portuguesa, como é o Padre António Vieira. Além da questão linguística, contribuiu também a questão temática. A partir da segunda metade do século XVII, os temas sobre os quais Osório escreveu foram perdendo a centralidade, devido aos novos interesses levantados pelo Iluminismo e, depois, graças ao Romantismo, que rejeitou a perfeição clássica e esqueceu a autoridade dos clássicos e o universo dos humanistas. A reabilitação do legado dos humanistas portugueses é um trabalho que tem vindo a ser conseguido sobretudo a partir da segunda metade do século passado.
A filologia ao serviço do legado algarvio
A sua formação em Roma cruza História da Igreja e Filologia Grega e Latina. Como transformou uma investigação assente em fontes clássicas num livro capaz de chegar para além da academia?
Penso que a História e a Filologia coincidem no método, que é o da pesquisa e crítica das fontes. Há perguntas históricas que só podem ser cabalmente respondidas com soluções filológicas, ou seja, com uma análise detalhada dos textos. Interessei-me pela Filologia Clássica não só porque queria aceder ao latim em que Osório formulou as suas ideias, mas também porque queria ler o que Jerónimo Osório leu. Este livro parte de uma pergunta histórica: quais as razões da obra sobre a nobreza de Jerónimo Osório e qual a sua originalidade? Penso que consigo elucidar o público curioso com a explicação do cenário histórico, com um estilo narrativo e através da aposta na componente iconográfica, devidamente legendada.

P – D. Jerónimo Osório foi bispo de Silves e do Algarve e morreu em Tavira. Enquanto investigador tavirense, que significado tem recuperar este legado para o Algarve e que impacto espera que o livro tenha?
R – Infelizmente, são difíceis de identificar marcas da ação governativa de D. Jerónimo Osório na Igreja do Algarve, porque a maioria da documentação se perdeu. Há alguns registos da sua política social, mas poucos. Por outro lado, as suas obras são um fiel testemunho do seu perfil intelectual, e penso ser do maior interesse reconstruí-lo e contextualizá-lo.
Ao Algarve sempre estiveram ligadas, durante todos os séculos, figuras de grande relevo intelectual. D. Jerónimo Osório é uma das maiores, se não a maior. Espero que o meu livro seja um contributo para o conhecimento deste humanista e que sirva também para alertar para temas que, à primeira vista, podem parecer arcaicos e hoje obsoletos, mas que, na verdade, tiveram origem num contexto histórico do qual podemos, com proveito, tirar grandes ilações.
Um percurso premiado entre Tavira e Roma
Tomás Pinto Bravo nasceu em 1999 e é natural de Tavira. Concluiu a licenciatura em História na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em 2020, e o mestrado em História da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, em 2023. Atualmente, frequenta o segundo ano do doutoramento em Filologia e História do Mundo Antigo, na vertente de Filologia Grega e Latina, na Universidade “La Sapienza” de Roma; é bolseiro da Fundação para a Ciência e a Tecnologia e membro do Centro de Estudos Clássicos de Lisboa.
Coordenou a obra Vultos Tavirenses Dignos de Memória, publicada em 2021 pelas Edições Colibri, que reúne 18 biografias de tavirenses que se destacaram na História, desde a Idade Média ao século XX, num trabalho coletivo com 16 autores. Editou também a antologia de correspondência Relações e Confidências das Expedições de Serpa Pinto, publicada em 2022 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
O livro que a Arandis acaba de editar nasceu como tese de mestrado em História da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Antes da entrega formal da tese, o conteúdo relevante foi apresentado, a 11 de novembro de 2022, como comunicação no VI Congresso Internacional Casa Nobre: Um Património para o Futuro, organizado pelo Centro de Investigação Transdisciplinar “Cultura, Espaço e Memória” da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, em Arcos de Valdevez. O trabalho foi distinguido pela comissão executiva com a 2.ª edição do Prémio Marquês de Fronteira e Alorna, atribuído pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna e pela Câmara Municipal de Arcos de Valdevez à melhor comunicação apresentada no congresso.
O texto foi publicado nas atas do congresso, apresentadas publicamente a 24 de outubro de 2024, no Palácio Fronteira, em Lisboa, apenas em edição digital. A Arandis tomou a iniciativa de não deixar que um texto com relevante valor científico e importância para o Algarve permanecesse apenas online, editando-o em livro para materializar e divulgar o trabalho.
Tomás Pinto Bravo venceu ainda o primeiro lugar do Prémio “Estudar Camões”, cujo resultado foi divulgado a 28 de julho. Instituído pela Estrutura de Missão das Comemorações para o V Centenário de Luís de Camões e destinado a jovens investigadores até aos 35 anos, o prémio distinguiu um trabalho de investigação sobre as fontes do soneto “Transforma-se o amador na cousa amada”.
















