Professor universitário jubilado e doutorado em Sociologia da Cultura, José Manuel Figueiredo Santos assina O Triunfo do Conformismo, obra publicada em 2026 que reúne reflexões satíricas sobre Portugal, o Algarve, a democracia, a imigração e as redes sociais.
Em entrevista ao POSTAL, o autor defende uma cidadania “incómoda” e alerta para os riscos de normalizar a passividade e os discursos autoritários.
Uma sociedade livre que escolhe sempre o mesmo
P – Depois de uma carreira dedicada à Sociologia da Cultura, o que o levou a reunir estes textos e a escolher o título O Triunfo do Conformismo?
R – O livro reúne textos sobre matérias diversas, mas há entre eles um fio condutor: um olhar crítico sobre a sociedade do nosso tempo, os seus comportamentos, as suas contradições e, sobretudo, as formas de conformismo que se tornaram cada vez mais visíveis.
O título, O Triunfo do Conformismo, não é, naturalmente, inocente. Vivemos numa sociedade que se apresenta como extremamente livre, plural e individualista, mas onde, paradoxalmente, assistimos a uma extraordinária uniformização de comportamentos, gostos e, em certos casos, até de opiniões. Somos constantemente convidados a ser diferentes, mas acabamos, com uma eficiência admirável, por ser diferentes todos da mesma maneira.

Depois de uma carreira dedicada ao ensino da Sociologia da Cultura e do Turismo, quis continuar a observar essas transformações, mas sem necessariamente reproduzir o discurso académico. A sátira e a ironia permitem tornar acessíveis algumas questões que considero importantes. O humor consegue, por vezes, chegar mais longe do que a crítica frontal: desarma o leitor, provoca-lhe um sorriso e, nesse instante de distração, introduz-lhe uma dúvida.
E a dúvida é essencial. Uma sociedade que deixa de questionar aquilo que lhe é apresentado como normal corre o risco de transformar o conformismo em virtude — e, pior ainda, de lhe atribuir boa educação.
Hoje, no mais das vezes, não é necessário proibir para controlar. Basta criar consensos, estabelecer tendências e produzir aquilo que é considerado aceitável. A liberdade continua lá, pelo menos formalmente; apenas acontece que todos parecem escolher, com admirável independência, a mesma coisa.
É esse o “triunfo” de que fala o título. Não é a vitória de uma ideologia específica, mas de uma disposição social para aceitar, repetir e seguir aquilo que os outros já aceitaram, repetiram e seguiram.
O livro procura, no fundo, agitar um pouco o pensamento. Se conseguir fazer o leitor sorrir e, depois do sorriso, levá-lo a pensar “afinal, isto é mesmo assim?”, então terá cumprido o seu objetivo.
Mais do que apresentar respostas, quis levantar questões. Porque talvez uma das formas mais perigosas de conformismo seja precisamente a de deixarmos de fazer perguntas e começarmos a achar que perguntar dá demasiado trabalho.
O Algarve para lá dos números do turismo
P – A sua carreira passou pela hotelaria, pelo ensino universitário e pela investigação em turismo. Como influenciaram essas experiências o seu olhar sobre Portugal e o Algarve?
R – Essas três dimensões da minha vida profissional deram-me diferentes registos na forma de olhar para o país. A hotelaria permitiu-me conhecer Portugal através da relação direta com as pessoas e, sobretudo, com quem nos visita. O ensino universitário obrigou-me a transformar a experiência em conhecimento e a confrontá-la com diferentes perspetivas. Sempre procurei viver a docência como um palco de enriquecimento do debate e da colisão de ideias, que é isso que a Universidade deveria ser. E a investigação ensinou-me a olhar para os fenómenos com maior distância crítica, procurando perceber não apenas o que acontece, mas também por que acontece e quais são as relações associativas entre os fenómenos da vida social e as suas consequências.

O Algarve teve, naturalmente, um papel muito particular nesse percurso. Conheço-o não apenas como território turístico, mas como espaço social e cultural em profunda transformação. É a minha terra natal. E, com o tempo, aprendi uma coisa que considero difícil, mas necessária, quando se fala da nossa terra: gostar dela sem deixar de a criticar — ou, talvez melhor, criticá-la precisamente porque se gosta dela.
O turismo trouxe desenvolvimento, emprego, infraestruturas e uma enorme projeção internacional. Mas também produziu dependências, alterou modos de vida, pressionou o território e, em alguns casos, contribuiu para metamorfoses identitárias das comunidades locais.
Talvez a experiência acumulada me tenha levado a desconfiar das leituras demasiado economicistas — e de outras tantas demasiado simplistas. Nem o turismo é uma solução milagrosa para todos os problemas do Algarve, nem é responsável por todos os seus males. Seria cómodo ter um único culpado; infelizmente, a realidade raramente nos oferece essa gentileza.
A questão está na forma como este modelo de desenvolvimento turístico tem vindo a ser pensado e, sobretudo, quem beneficia dele, quem suporta os seus custos e que modelo de sociedade queremos construir.
Há uma pergunta que considero fundamental: para quem estamos a construir o Algarve? Para os turistas, para os investidores, para os residentes ou para todos?
Quando olhamos para a habitação, a pressão sobre o território, a sazonalidade do emprego ou a transformação das localidades em produtos de objetificação turística, percebemos que a resposta não é assim tão simples.
A minha experiência profissional permitiu-me conhecer o Algarve por dentro, mas também ganhar distância para o observar de modo crítico. E isso ensinou-me uma coisa fundamental: por detrás dos números do turismo estão pessoas, comunidades, expectativas e conflitos de interesses. Os números são informação, e por muito respeitáveis que sejam, não costumam apanhar o autocarro, pagar a renda ou esperar pelo inverno.
Interessa-me um Algarve constituído como espaço turístico de excelência, mas que seja também, e antes de mais, um excelente lugar para viver. Essas coisas podem coexistir, mas não são necessariamente a mesma coisa.
O humor como instrumento de liberdade
P – Porque escolheu a sátira e a ironia para tratar problemas políticos e sociais? O humor pode combater o conformismo sem banalizar os temas?
R – A sátira e a ironia sempre foram, para mim, formas eficazes de exercer o pensamento crítico. Talvez também por influência de uma pessoa marcante na minha vida académica, o professor Bragança de Miranda.
Quando queremos questionar comportamentos, poderes ou consensos instalados, nem sempre a crítica frontal é a mais eficaz. Por vezes, o humor consegue abrir uma brecha onde o discurso sério encontra apenas resistência — ou simplesmente encontra alguém a olhar para o telemóvel.

A sátira tem uma longa tradição de crítica social e política. Não serve para a ridicularização de pessoas ou para a banalização de problemas, mas para colocar determinadas situações sob uma luz diferente e tornar visível aquilo que, pela força do hábito, já deixámos de questionar.
O humor pode ser incómodo porque nos obriga a reconhecer o absurdo de certas situações. Aquilo que ontem nos pareceria inaceitável pode hoje ser apresentado como normal, inevitável ou até desejável. A sátira permite inverter essa perspetiva e perguntar: “Mas isto não será, afinal, um pouco ridículo?”
Não vejo, portanto, oposição entre humor e seriedade. O que banaliza um tema não é o humor; é a ausência de reflexão. Aliás, algumas coisas só se tornam verdadeiramente sérias quando conseguimos rir um pouco delas.
Numa época marcada por excesso de informação, opiniões instantâneas e alguma fadiga em relação aos discursos políticos e institucionais, a ironia tem uma vantagem: interrompe o automatismo.
O leitor pode começar por rir de uma situação e, segundos depois, perceber que aquilo de que se está a rir diz respeito à própria sociedade em que vive — e talvez até a si próprio.
É aí que o humor pode combater o conformismo: não dando respostas, mas introduzindo pequenas perturbações no pensamento habitual.
No fundo, gosto da ideia de que o humor pode ser uma forma de liberdade. Rir daquilo que se apresenta como intocável é, muitas vezes, uma maneira de recuperar a capacidade de pensar sobre isso. E, convenhamos, há coisas que se levam demasiado a sério precisamente porque ninguém se atreve a rir delas.
A normalização dos discursos autoritários
P – Qual é hoje o sinal mais perigoso da crise democrática portuguesa: a apatia, a desconfiança nas instituições ou a normalização de discursos autoritários?
R – As três manifestações estão relacionadas, mas, se tivesse de escolher a mais perigosa, diria que é a normalização dos discursos autoritários.
A apatia e a desconfiança nas instituições são problemas sérios, mas tornam-se particularmente preocupantes quando criam o terreno social propício para que soluções autoritárias passem a ser vistas como aceitáveis.
Uma democracia não pode viver apenas de eleições. Deve respirar confiança nas instituições, pluralismo, liberdade de expressão, tolerância perante a diferença e capacidade dos cidadãos para participar e questionar o poder. Votar de quatro em quatro anos é importante; não pode ser, contudo, uma assinatura de fidelidade.
Quando essa confiança se deteriora e as pessoas deixam de acreditar que as instituições conseguem responder aos seus problemas, abre-se então espaço para discursos que prometem soluções simples para problemas complexos. E as soluções simples têm uma vantagem extraordinária: dispensam-nos do incómodo de pensar muito.
O perigo não está apenas no aparecimento de discursos autoritários — esses sempre existiram —, mas no momento em que deixam de nos causar estranheza e investem em nós a voragem das paixões.
Quando a agressividade é confundida com autenticidade, quando o respeito pelas regras democráticas é apresentado como fraqueza ou quando os direitos de uns começam a ser sacrificados em nome da segurança, da ordem ou de uma suposta vontade da maioria, estamos perante sinais preocupantes.
O autoritarismo raramente se apresenta como tal na sua fase embrionária. Surge muitas vezes disfarçado de eficiência salvífica, de combate à corrupção, de defesa do “povo” ou de necessidade de “pôr ordem na casa”. É precisamente essa capacidade de se apresentar como solução que o torna perigoso.
Por isso, o verdadeiro problema pode estar na combinação de três elementos: cidadãos desiludidos, instituições gastas e desacreditadas e discursos autoritários progressivamente normalizados.
E aqui regressamos ao tema do livro. O conformismo também pode ser politicamente perigoso. Uma democracia não morre apenas quando alguém lhe desfere um golpe; pode enfraquecer lentamente quando os cidadãos deixam de se indignar, de participar e, sobretudo, de questionar.
Talvez o melhor antídoto seja uma cidadania incómoda: uma cidadania que não aceite respostas fáceis, que desconfie do poder — de qualquer poder — e que não abdique da liberdade de pensar pela sua própria cabeça.
Redes sociais e a ilusão de participar
P – As redes sociais criaram uma nova forma de conformismo ou apenas amplificaram uma passividade que já existia?
R – As redes sociais não criaram o conformismo; deram-lhe uma nova dimensão. A passividade, a necessidade de aprovação e a tendência para seguir comportamentos dominantes já existiam. O que as redes sociais fizeram foi amplificar esses mecanismos, tornando-os permanentes, instantâneos e muito mais visíveis.
Há aqui um paradoxo. As redes sociais nasceram associadas à ideia de democratização da comunicação: qualquer pessoa poderia produzir conteúdos, expressar uma opinião e participar no espaço público. E isso continua a ser verdade. Nunca foi tão fácil falar e ser ouvido.
O problema é que falar muito não significa necessariamente pensar mais — ou pensar melhor, de uma forma mais profunda, se assim quisermos. Podemos ter uma infinidade de opiniões à nossa disposição e, paradoxalmente, acabar por pensar cada vez mais de acordo com aquilo que o nosso grupo, o nosso partido, a nossa rede ou o algoritmo nos apresenta.
Procuramos pessoas que pensam como nós, recebemos confirmações constantes das nossas ideias através dos likes e, por vezes, confundimos concordância com verdade. O algoritmo, esse discreto funcionário invisível da nossa época, vai entregando aquilo de que supostamente gostamos até quase deixarmos de saber se gostamos porque escolhemos ou se escolhemos porque nos disseram que gostamos.

Há ainda outro fenómeno preocupante: a transformação da opinião em espetáculo. Muitas vezes, nas redes sociais, não ganha o argumento mais consistente; ganha a frase mais agressiva, mais simplista ou mais facilmente partilhável. A complexidade fica em desvantagem quando tudo tem de caber num título, numa imagem ou numa frase de poucos segundos.
A indignação tornou-se quase uma forma de consumo. Indignamo-nos, comentamos, partilhamos e, pouco depois, passamos ao assunto seguinte. Temos a sensação de participação, mas raramente existe verdadeiro envolvimento; há tão-só e apenas um simulacro de participação.
Podemos estar permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, profundamente passivos, bem refastelados num sofá, de roupão e de pantufas, como se diz na gíria.
Talvez esta seja uma das formas mais sofisticadas de conformismo contemporâneo: a ilusão de que estamos a participar quando, muitas vezes, estamos apenas a reagir.
Mas seria injusto atribuir às redes sociais toda a responsabilidade. Elas são também instrumentos extraordinários de mobilização, denúncia e participação cívica. O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como a utilizamos e nos mecanismos económicos e sociais que condicionam aquilo que vemos e pensamos.
Por isso, não diria que as redes sociais tornaram necessariamente as pessoas mais conformistas. Acima de tudo, tornaram o conformismo mais rápido, mais contagioso e mais difícil de perceber.
A questão não é saber se estamos ligados. É saber se, estando ligados a tantos outros, continuamos capazes de pensar pela nossa própria cabeça. Porque estar online durante todo o dia não significa necessariamente estar acordado.
A memória portuguesa da emigração
P – No livro, recorda que atravessou a fronteira “a salto” e viveu numa bidonville em França. De que modo essa experiência marcou a sua visão da imigração atual?
R – Essa passagem deve ser lida no seu contexto literário. Tem uma dimensão ficcional, embora dialogue com uma memória que me é próxima e que pertence, de forma muito mais ampla, à experiência de uma geração de portugueses: a emigração clandestina, a passagem “a salto”, a precariedade e a chegada a um país estrangeiro sem garantias, muitas vezes com pouco mais do que uma mala e alguma esperança.
É precisamente por isso que essa memória me parece importante quando pensamos na imigração de hoje. Durante décadas, muitos portugueses emigraram em condições difíceis. Procuravam trabalho, melhores condições de vida e, em muitos casos, simplesmente uma possibilidade de futuro que não encontravam em Portugal. Alguns conheceram a clandestinidade, a precariedade habitacional, a discriminação e a condição, nem sempre confortável, de serem estrangeiros.

E talvez essa condição devesse funcionar como uma espécie de memória incómoda: aquela que nos impede de esquecer demasiado depressa quem fomos e somos.
Isso não significa, naturalmente, que não devamos discutir a imigração, as políticas de integração, a capacidade dos serviços públicos, a habitação, o mercado de trabalho ou o controlo das fronteiras. Devemos discutir tudo isso, e com seriedade.
Mas sempre importa realçar que há uma experiência humana que atravessa essas diferenças: ninguém abandona o seu país, a sua língua, os seus afetos e a sua vida sem uma razão suficientemente forte para o fazer.
Talvez seja essa memória — mais do que qualquer teoria sobre as migrações — que me leva a olhar para a imigração atual com alguma prudência e, sobretudo, com alguma empatia. É fácil transformar o imigrante numa categoria estatística, num problema administrativo ou num tema de debate político. É bastante mais difícil imaginar o que significa chegar a um país onde quase tudo nos é estranho: a língua, os códigos sociais, os lugares e, por vezes, até o modo como somos olhados.
O que me parece perigoso é transformar uma questão social complexa numa questão moral, numa espécie de demonização do Outro, no estafado eurocentrismo, que via os valores europeus como superiores e como o modelo ideal para toda a humanidade, dividindo simplesmente as pessoas entre “os de cá” e “os de fora”. A História, aliás, costuma ter alguma dificuldade em respeitar fronteiras tão arrumadinhas.
A experiência evocada no livro ajuda-me, sobretudo, a olhar para a imigração a partir do outro lado. A perceber que aquilo que, para quem recebe, pode ser apenas um problema estatístico ou político é, para quem chega, uma mudança radical de vida.
A memória da nossa própria emigração deveria funcionar como um exercício de empatia. Não para impedir a crítica ou o debate político, mas para evitar que percamos a dimensão humana de um fenómeno feito, acima de tudo, de pessoas.
No fundo, talvez seja essa a principal lição: antes de serem “imigrantes”, “emigrantes”, “estrangeiros” ou “nacionais”, são pessoas. E, curiosamente, essa continua a ser a categoria mais fácil de esquecer quando começamos a falar de números, ocultando os indivíduos nas estatísticas.
Romper com a cultura do “deixa andar”
P – Depois de analisar a educação, o envelhecimento, a desigualdade e o poder local, que mudança concreta considera mais urgente para romper com o “deixa andar”?
R – Se tivesse de apontar uma mudança concreta, diria que precisamos, com toda a urgência, de substituir a cultura do “deixa andar” por uma verdadeira cultura de responsabilidade.
E isso começa por uma coisa aparentemente simples, mas que em Portugal continua a ser extremamente difícil: avaliar o que fazemos e responsabilizar quem decide.
Temos uma tendência histórica para conviver demasiado bem com a ineficiência. Criticamos, indignamo-nos durante algum tempo com o meritocrático “porteiro de serviço”, normalmente alguém da confiança do partido que está no poder, mas depois habituamo-nos e continuamos a tratar com salamaleques os detentores conjunturais do poder. Somos, nesse aspeto, um povo extraordinariamente resistente: conseguimos sobreviver a quase tudo, incluindo àquilo que não funciona.
Há problemas na educação que se arrastam durante décadas, desigualdades que se reproduzem, territórios que envelhecem e perdem população e decisões do poder local que nem sempre são suficientemente escrutinadas. E, frequentemente, a resposta é: “Sempre foi assim.”
Talvez seja precisamente essa ideia, instalada em nós como um ferrete, que tenhamos de combater.
Não acredito que a solução passe simplesmente por fazer mais leis ou criar mais organismos. Portugal tem legislação, instituições e planos em abundância. O que muitas vezes falta é visão, execução, avaliação e consequência.
Uma política pública deveria ter objetivos claros, ser avaliada pelos resultados e permitir perceber quem foi responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. Parece uma exigência elementar e talvez por isso pareça tão revolucionária.
Isto é particularmente importante na educação, como nas demais vertentes da nossa vida coletiva. Não podemos continuar a discutir apenas reformas curriculares ou modelos de ensino sem perguntar se estamos realmente a preparar os jovens para uma sociedade que mudou profundamente.
O mesmo se aplica ao envelhecimento. Não basta reconhecer que Portugal está a envelhecer. É necessário pensar o envelhecimento como uma questão social, económica e territorial, e não apenas como um problema de saúde ou de segurança social.
Não podemos continuar a aceitar a política como uma esfera simulacral, como um jogo ou representação de sombras, de algo que muitas vezes perdeu a ligação com a realidade da vida dos indivíduos.
E o poder local também é decisivo. A proximidade aos cidadãos constitui uma vantagem enorme, mas exige escrutínio. Quanto mais próximo está o poder, maior deveria ser a exigência de transparência e participação, evitando cair no amiguismo das elites locais. A proximidade, sem escrutínio, pode transformar-se rapidamente em intimidade — e a política não é propriamente o lugar onde convém que toda a gente seja “da casa”.
No fundo, aquilo que considero mais urgente é recuperar uma ideia muito simples: as decisões têm consequências e alguém deve responder por elas.

Romper com o “deixa andar” implica uma mudança cultural. Precisamos de deixar de considerar a exigência uma forma de conflito e passar a entendê-la como uma expressão legítima de cidadania. Exigir que as coisas funcionem não é ser incómodo; é levar a sério o país em que vivemos.
E talvez seja aqui que O Triunfo do Conformismo encontre o seu sentido mais profundo. O conformismo começa quando aceitamos como inevitável aquilo que apenas nos habituámos a suportar. Quando confundimos estabilidade com imobilismo, tolerância com indiferença e prudência com medo de mudar.
Uma sociedade não muda apenas porque mudam os governos, as leis ou as gerações. Muda quando os cidadãos deixam de considerar normal aquilo que sabem que está errado. Muda quando a indignação deixa de ser apenas conversa, comentário ou desabafo e se transforma em exigência, participação e responsabilidade.
No fundo, talvez a alternativa ao “deixa andar” não seja simplesmente andar mais depressa. Seja deixar de andar às voltas.
Porque o verdadeiro triunfo de uma sociedade livre não está em todos pensarem da mesma maneira, mas em ninguém abdicar do direito — e do dever — de pensar pela sua própria cabeça.
E talvez seja essa a única forma de impedir que o conformismo tenha, afinal, a última palavra.

Um percurso entre a hotelaria, o ensino e a sociologia
José Manuel Figueiredo Santos, professor universitário jubilado, é mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutor em Sociologia, com especialidade em Sociologia da Cultura, pela Universidade Nova de Lisboa. Depois de trabalhar como administrador hoteleiro, lecionou como professor coordenador na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve e como professor convidado da Faculdade de Economia da referida universidade. É investigador convidado pelo Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens.
Entre as suas obras destacam-se Modernidade e Gestão da Velhice (1998), Turismo Mosaico de Sonhos (2002), Turismo Agridoce – Formas de Visão e Divisão (2007), Turismo Residencial – Modos de Estar noutro Lugar (2011), Sociologia – Um olhar sociológico sobre o mundo (2016), Património e Turismo – O Poder da Narrativa (2017) e O Triunfo do Conformismo (2026).















