O Aeroporto de Faro entrou em 2026 com um sinal claro de desalinhamento entre oferta e procura nos meses de janeiro e fevereiro. Enquanto a capacidade aumentou, o número de passageiros diminuiu e essa combinação é, quase sempre, um indicador negativo para o desempenho das companhias aéreas. Do lado da oferta, houve um crescimento moderado mas relevante. O número de voos de ida e volta passou de 4.412 em 2025 para 4.514 em 2026, o que representa mais 102 operações, ou um aumento de 2,3%. Mais expressivo ainda foi o crescimento da capacidade em lugares pela utilização de aviões maiores: de 826.059 para 852.444, ou seja, mais 26.385 lugares disponíveis, correspondendo a um aumento de 3,2%.
No entanto, este aumento de capacidade não foi acompanhado pela procura. Pelo contrário, houve uma quebra no número de passageiros transportados no conjunto dos dois meses, o que significa que os voos partiram e chegaram, em média, com menos passageiros em 2026 do que em 2025, indicando uma taxa de ocupação menor. Essa descida tem um impacto direto e mensurável. Em 2026 não só os 26 mil lugares adicionais ficaram, em larga medida, por preencher, como também parte da capacidade que já existia em 2025 passou a ficar vazia. Ou seja, o número total de lugares não ocupados aumentou significativamente de um ano para o outro. É verdade que o contexto meteorológico adverso em janeiro e fevereiro de 2026 terá contribuído para esta quebra, afetando sobretudo a procura de última hora e as viagens de curta duração. Ainda assim, essa explicação é conjuntural e não resolve o problema estrutural que estes números evidenciam.
A questão de fundo é a dificuldade crónica em sustentar níveis de procura consistentes fora da época alta. O Algarve continua excessivamente dependente do turismo sazonal e dos fluxos de emigrantes portugueses dessa região, o que deixa o aeroporto vulnerável nos meses de inverno. Quando a oferta cresce – seja por otimismo das companhias ou por estratégia de longo prazo – a base de procura não acompanha e o resultado é este: mais lugares vazios, menor rentabilidade e maior pressão para ajustamentos futuros.
Se esta tendência se repetir, é expectável que as companhias aéreas reajam com cortes de capacidade, redução de frequências ou até abandono de rotas durante o inverno. Para evitar esse cenário, não basta esperar por melhores condições meteorológicas ou por uma recuperação espontânea da procura. É necessário criar uma base económica mais diversificada e menos dependente do turismo sazonal, capaz de gerar tráfego regular ao longo de todo o ano.
No fundo, o que estes dois meses mostram é simples: o problema não está apenas na procura que falhou em 2026, mas na ausência de um modelo que consiga garantir aviões cheios quando o verão acaba.
Leia também: Turismo e transporte aéreo Reino Unido – Portugal em 2025 com o Algarve a liderar | Por Pedro Castro















