Em alguns bairros históricos desta cidade portuguesa, há quem viva rodeado apenas por turismo, sem vizinhos. O fenómeno, descrito pela publicação britânica The Guardian, mostra o impacto extremo do chamado overtourism no quotidiano das cidades do sul da Europa, onde milhares de residentes têm vindo a abandonar os centros urbanos à medida que os apartamentos tradicionais dão lugar a alojamentos locais.
De acordo com o jornal, o caso de Maria, uma lisboeta de 71 anos, ilustra bem essa transformação. Quando o marido, doente oncológico, caiu em casa, percebeu que já não tinha a quem pedir ajuda.
Dos 11 apartamentos do seu prédio, apenas três são habitados por residentes permanentes; os restantes foram convertidos em alojamentos turísticos. “Devíamos ser uma espécie de rede social. Mas essa rede desapareceu”, contou Maria à publicação.
Vizinhos substituídos por turistas
Em Lisboa, há quem viva completamente sozinho num edifício transformado em hotel informal. “É muito estranho. Vivo no meio da cidade, mas sem vizinhos”, relatou Alex, um residente citado pela mesma fonte, que se tornou o único morador permanente do prédio. Todos os outros apartamentos são arrendados através de plataformas como o Airbnb.
Segundo o jornal britânico, Alex é quem acaba por reportar o lixo acumulado e os danos nas zonas comuns, assumindo responsabilidades que caberiam a uma comunidade inexistente. “Se preciso de açúcar ou de ajuda numa emergência, não tenho porta onde bater”, lamenta.
A mesma realidade repete-se em Barcelona, onde uma moradora reformada, Esther, vive há mais de uma década por baixo de dois alojamentos turísticos. “É horrível, ninguém devia viver assim”, desabafou à The Guardian. A residente afirma já ser conhecida da polícia por ter de chamar as autoridades para interromper festas que se prolongam pela madrugada.
Entre garrafas partidas, lixo atirado das varandas e até episódios de prostituição nos balcões dos apartamentos vizinhos, Esther diz viver em constante ansiedade. “Nunca se sabe quem vem a seguir”, confessa.
“Como viver num hotel”
Em Lisboa, João Póvoa partilha a mesma sensação. Vive entre dois apartamentos turísticos num edifício de cinco unidades junto à Praça do Comércio. “É como viver num hotel. As pessoas entram e saem, mas não conheço ninguém”, explicou.
O edifício, do século XVIII, tem soalhos de madeira e pouca insonorização, o que torna o convívio com os turistas imprevisível. “É uma lotaria: nunca se sabe se vão comportar-se bem ou não.”
Apesar disso, João recusa abandonar o centro. “Se desistirmos, não sobra ninguém a viver aqui. A comunidade está a desaparecer.”
De acordo com The Guardian, o mesmo cenário multiplica-se nos bairros históricos de Alfama, Mouraria e Bairro Alto, onde muitos residentes estão a mudar-se para zonas periféricas.
Lurdes Pinheiro, que vivia há três décadas em Alfama, conta que a decisão de sair foi dolorosa. “Quando dissemos que íamos embora, uma vizinha começou a chorar. Disse: ‘Estamos a perder todos os nossos vizinhos’.”
Protestos e resistência
Em Barcelona, o fenómeno também levou ao ativismo local. Maite Martín, residente no bairro do Eixample desde 2000, viu o prédio onde vivia ser parcialmente convertido em alojamentos turísticos.
Com apoio de um sindicato de inquilinos, conseguiu travar judicialmente a conversão total das 120 frações. Ainda assim, 33 apartamentos são hoje ocupados por visitantes temporários.
Entre episódios de ruído, lixo e festas com dezenas de pessoas, Maite descreve um ambiente “insustentável”. “Chega um ponto em que, quando vejo alguém com uma mala, só me apetece virar a cara”, contou à publicação.
Em Lisboa, mais de 6.600 residentes já assinaram um pedido de referendo vinculativo para limitar ou proibir alojamentos locais em prédios residenciais.
Em Espanha, milhares de manifestantes saíram às ruas no último verão para exigir restrições ao turismo massivo, que dizem estar a inflacionar o preço das casas e a expulsar moradores dos centros históricos.
Um problema comum no sul da Europa
O fenómeno de substituição residencial está a transformar o tecido social das cidades mediterrânicas. De acordo com a The Guardian, as consequências vão além do ruído ou da falta de privacidade: implicam a erosão de comunidades inteiras e o desaparecimento de espaços de vizinhança.
Entre a nostalgia e a resistência, moradores como Maite ou João insistem em permanecer. “Temos de lutar. Se desistirmos, ninguém mais vai viver aqui”, resumem.
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