A dificuldade no acesso à habitação deixou de ser um problema exclusivo dos mais jovens e começa a afetar de forma crescente os reformados, muitos deles obrigados a partilhar casa porque a pensão que recebem não lhes permite viver sozinhos numa habitação. A realidade do mercado imobiliário está a empurrar cada vez mais idosos para situações de fragilidade económica e social, muitos acabando a viver em casas partilhadas.
Um dos maiores desafios que quer Espanha, quer Portugal enfrentam atualmente é o da habitação. A escassez de oferta, em parte associada à proliferação do alojamento turístico e à especulação imobiliária, aliada a preços em constante subida, tem tornado o acesso a uma casa cada vez mais difícil.
Durante muito tempo, esta crise foi associada sobretudo aos jovens, com rendimentos mais baixos e em início de vida ativa. No entanto, a situação agravou-se de tal forma que passou a atingir também reformados e idosos, muitos deles com pensões insuficientes para suportar os valores atuais das rendas, de acordo com o jornal digital espanhol Noticias Trabajo.
Reformados obrigados a partilhar casa
Casos como o de María Teresa, reformada espanhola que aos 80 anos é obrigada a partilhar casa para conseguir pagar o aluguer, tornaram-se cada vez mais comuns. Situação semelhante vive Encarna, cuja pensão não lhe permite arrendar uma casa sozinha.
“A minha capacidade económica não consegue suportar um aluguer”, lamentou Encarna no programa Y Ahora Sonsoles, emitido em Espanha. A reformada, de 67 anos, explica que não teve alternativa senão partilhar casa, uma vez que não consegue suportar uma renda completa.
“Recebo cerca de 800 euros de pensão e o aluguer de um quarto já ultrapassa os 500 euros”, afirmou, descrevendo uma situação que se repete por todo o país.
Grande parte da pensão absorvida pela renda
Apesar das dificuldades, Encarna admite que a convivência acaba por ter também um lado positivo, ajudando a combater a solidão. “Sou de Barcelona e a minha família está espalhada por toda a Catalunha. Aqui, em Valência, estou sozinha. Tenho amigos, mas família não”, explicou, citada pela mesma fonte.
Em muitos casos, os idosos que não possuem casa própria são obrigados a canalizar uma parte muito significativa da pensão para o pagamento da renda, ficando com pouca margem para despesas essenciais como alimentação, saúde ou energia.
Esta realidade está a aumentar a vulnerabilidade económica e emocional da população mais velha, que se vê forçada a abdicar de autonomia numa fase da vida em que a estabilidade deveria estar garantida.
Falta de respostas públicas agrava o problema
A escassez de políticas públicas eficazes em matéria de habitação social ou arrendamento acessível contribui para o agravamento da situação. A ausência de soluções adaptadas à população sénior faz com que muitos reformados fiquem dependentes do mercado privado, onde os preços estão fora do seu alcance.
Neste contexto, a habitação deixa de ser apenas uma questão económica e passa a assumir um papel central na dignidade, no bem-estar e na qualidade de vida durante a velhice, de acordo com a fonte anteriormente citada.
Comprar ou arrendar casa tornou-se uma missão impossível
Este ano, o preço médio do aluguer em Espanha situa-se entre os 13,69 e os 14,5 euros por metro quadrado por mês, segundo dados de portais imobiliários como o Fotocasa (setembro deste ano) e o Idealista (outubro). Isto significa que um apartamento padrão com cerca de 80 metros quadrados pode custar aproximadamente 1.095 euros mensais, valor ainda mais elevado nas grandes cidades.
Como consequência, as rendas atingiram máximos históricos em muitas zonas do país, obrigando famílias e trabalhadores a destinarem uma fatia cada vez maior do rendimento à habitação. No entanto, este cenário não afeta apenas os mais jovens.
Os reformados, muitos deles com pensões reduzidas, sentem de forma direta o impacto da subida dos preços, vendo-se forçados a partilhar casa ou a viver em condições menos estáveis numa fase da vida em que isso parecia impensável, refere o Noticias Trabajo.
Situação em Portugal
Em Portugal, a pressão no arrendamento começa a empurrar também alguns reformados para soluções como partilhar casa, sobretudo quando não têm habitação própria. Segundo o índice do Idealista, o preço mediano anunciado para arrendar casa no país era de 16,6 euros/m² em novembro deste ano, com Lisboa nos 22,4 euros/m² e o Porto nos 17,8 euros/m².
Fazendo as contas por alto, um apartamento de 60 m² ao preço mediano nacional fica perto de 1.000 euros/mês, e em Lisboa pode ultrapassar 1.300 euros/mês.
O choque torna-se mais claro quando se cruza com as pensões. Um valor de referência usado em documentos do Orçamento do Estado para o próximo ano aponta que a pensão média de velhice rondava 610,91 euros em dezembro do ano passado, enquanto no regime não contributivo o quantitativo mensal estava fixado em 255,25 euros, de acordo com a Portaria n.º 372-B/2024/1, artigo 18.º.
Mesmo sem generalizar casos individuais, estes números ajudam a explicar porque é que, para alguns idosos, a renda pode absorver uma fatia muito elevada do rendimento e reduzir a margem para despesas essenciais.
Do ponto de vista legal, o enquadramento começa no direito à habitação e no dever do Estado de promover condições de acesso. A Lei de Bases da Habitação (Lei n.º 83/2019) consagra esse direito e prevê a criação de um sistema de acesso a habitação com renda compatível com o rendimento das famílias, servindo de base às políticas públicas nesta área.
















