Amália Ferreira vive há mais de quarenta anos na rua de Ramos, em Canelas, no concelho de Vila Nova de Gaia. No verão, recebeu uma carta e a visita de técnicos que lhe disseram que a futura linha de alta velocidade poderá passar entre a sua casa e os apartamentos vizinhos. “Já cá vieram ver a casa e tirar fotografias, mas a gente não sabe mais nada”, conta ao Correio da Manhã, sobre os planos de uma estação de TGV nesta cidade portuguesa.
O terreno onde vive, junto à zona industrial de São Caetano, poderá ser incluído na área de expropriação para construir a nova estação do TGV, prevista agora para Vilar do Paraíso. “Estou triste porque aqui criei os meus filhos e netos e agora posso ter de deixar a minha casinha”, lamenta à mesma fonte.
Centenas de famílias em incerteza
De acordo com o Correio da Manhã, a mudança da estação de Santo Ovídio para Vilar do Paraíso implicará mais de cem expropriações, afetando não só moradias como também empresas da zona industrial. O projeto surge em alternativa à solução inicialmente prevista na concessão da linha Porto–Lisboa, onde a paragem em Santo Ovídio estava prevista em túnel.
Segundo a mesma publicação, a proposta foi apresentada pelo consórcio responsável pela construção do troço, que considera o projeto subterrâneo “inoperável” e de execução demasiado complexa. A Infraestruturas de Portugal está a analisar o anteprojeto “sob o ponto de vista técnico e jurídico”, num processo que o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, descreveu como uma tentativa de “otimizar soluções”.
Ministro pede prudência
O Correio da Manhã adianta que Miguel Pinto Luz terá pedido “cautela e ponderação” antes de qualquer decisão definitiva, sublinhando que qualquer alteração ao local da estação tem de respeitar o contrato de concessão assinado. O governante reconhece, no entanto, que o atual consórcio propôs um modelo alternativo que poderia reduzir custos e simplificar a execução.
Ainda assim, a mesma fonte refere que a construção da paragem em Vilar do Paraíso exigirá expropriar terrenos privados e relocalizar parte da comunidade. As visitas técnicas realizadas nas últimas semanas têm confirmado o avanço das medições e registos fotográficos nas propriedades, o que alimenta o receio entre os residentes.
“A gente não sabe de nada”
“Dizem que a linha vai passar mesmo aqui entre a minha casa e os apartamentos”, repete Amália, descrevendo o sentimento de insegurança que domina o bairro. “Espero que mudem de ideias e passem por outro lado.”
O jornal acrescenta que muitos moradores e empresários queixam-se de falta de informação e de ausência de diálogo com as autoridades. Alguns receberam apenas comunicações técnicas, sem qualquer detalhe sobre compensações, prazos ou alternativas de realojamento.
Expropriações e obras em análise
De acordo com o Correio da Manhã, o consórcio responsável estima que cerca de 35 empresas e mais de uma centena de habitações possam ser afetadas. A Infraestruturas de Portugal garantiu que o estudo de impacto ambiental e a análise jurídica do anteprojeto estão em curso e que nenhuma decisão definitiva foi tomada.
O contrato da linha de alta velocidade entre Porto e Lisboa prevê uma duração de 25 anos e um investimento total de cerca de 1.600 milhões de euros. As obras da primeira fase deverão ligar o Porto a Soure, com uma extensão de 137 quilómetros.
Enquanto a burocracia avança, em Canelas e Vilar do Paraíso cresce o desconforto. Entre fotografias tiradas às fachadas e medições no terreno, há quem espere ansiosamente por respostas. “Só queríamos saber o que vai acontecer. Aqui é a nossa vida”, resume Amália, olhando para a casa que, em breve, pode deixar de lhe pertencer.
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