As sucessivas ondas de calor que têm atingido a Europa estão a deixar marcas profundas na agricultura e podem acabar por chegar diretamente à carteira dos consumidores. A quebra na produção de várias culturas e a subida do preço de matérias-primas agrícolas aumentam o risco de uma nova pressão sobre os preços nos supermercados.
O impacto já começa a ser sentido em culturas essenciais para a alimentação e para a indústria agroalimentar, numa altura em que as temperaturas extremas continuam a afetar diferentes países europeus.
De acordo com dados citados pelo Jornal de Negócios, várias produções agrícolas estão a perder rendimento, enquanto algumas matérias-primas começam a valorizar perante a perspetiva de uma oferta mais reduzida.
Trigo e milho entre os produtos sob maior pressão
Entre os produtos mais expostos encontram-se o trigo e o milho, dois cereais com um peso significativo na alimentação humana, na produção de rações e no fabrico de inúmeros bens vendidos diariamente nos supermercados.
Uma análise da Coceral aponta para uma redução acentuada na previsão da produção de cereais na União Europeia. Só em quatro semanas, o calor registado em junho terá retirado cerca de nove milhões de toneladas às estimativas iniciais.
Quando o Reino Unido é incluído nas contas, a quebra aproxima-se dos 10 milhões de toneladas, refletindo a dimensão dos prejuízos causados pelas temperaturas elevadas.
Esta redução da produtividade poderá ter custado aos agricultores europeus de cereais cerca de dois mil milhões de euros em receitas perdidas.
Menor produção pode chegar aos preços pagos pelos consumidores
Uma descida significativa da oferta tende a exercer pressão sobre os preços, sobretudo quando a procura se mantém estável. Isso significa que produtos como pão, massas, farinha, cereais de pequeno-almoço, carne e outros alimentos dependentes de rações podem ficar mais caros.
O efeito não deverá ser necessariamente imediato em todos os produtos, uma vez que muitas empresas trabalham com contratos de fornecimento e reservas compradas antecipadamente.
Ainda assim, caso o cenário de calor extremo se prolongue e as previsões de produção continuem a ser revistas em baixa, a fatura do supermercado poderá tornar-se mais pesada nas próximas semanas e meses.
França volta a enfrentar temperaturas próximas dos 40 graus
A situação poderá agravar-se com a nova vaga de calor prevista para França, onde as temperaturas deverão subir de forma significativa ao longo desta semana.
Segundo a Météo-France, o calor intenso deverá atingir grande parte do país, com máximas que podem chegar aos 40 graus no sudoeste. Em Paris e Tours, os termómetros poderão atingir os 38 graus, enquanto Lyon e Grenoble deverão aproximar-se dos 36 graus.
As temperaturas elevadas estão também a dificultar o combate aos incêndios florestais, sobretudo nas regiões de Gironde e Landes, onde centenas de milhares de pessoas terão sido retiradas das suas casas.
Este é já o quarto episódio de calor extremo registado em França durante este verão e a 54.ª onda de calor contabilizada no país desde 1947.
Conflito no Mar Negro agrava pressão sobre o trigo
À quebra na produção europeia junta-se ainda a instabilidade no Mar Negro, uma região fundamental para o comércio internacional de cereais.
A ONU alertou que a intensificação dos ataques marítimos entre a Rússia e a Ucrânia terá provocado uma subida de cerca de 20% no preço mundial do trigo desde o início de julho.
Os ataques contra portos, navios mercantes e infraestruturas agrícolas ucranianas voltaram a colocar em risco as cadeias internacionais de abastecimento.
Antes da invasão russa, em 2022, a Ucrânia representava cerca de 10% das exportações mundiais de trigo, 15% das exportações de milho e 13% das exportações de cevada.
A combinação entre calor extremo, quebras de produção e instabilidade geopolítica aumenta, assim, a possibilidade de novas subidas nos preços dos alimentos, com consequências que poderão chegar em breve às prateleiras dos supermercados.
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