Skip to content
Postal

Postal

Informação, Opinião e Conteúdos Especiais

Menu
  • Últimas
  • Papel
    • Cultura.Sul
    • Caderno Alcoutim
  • Secções
    • Algarve
    • Nacional
      • Tempo
    • Europa
    • Mundo
    • Europe Direct Algarve
    • Economia
    • Saúde
    • Vida & Lazer
      • Astrologia
      • Animais
      • Gastronomia
    • Utilitários
    • Auto
    • Tech
    • Cultura
      • Ensino
      • Ciência
    • Desporto
    • Política
    • Opinião
    • Video
    • Pub
      • Patrocinado
  • Projetos
    • Postal Studio
    • Branded Content
    • Postal AI
  • ANUNCIAR
  • Sobre nós
    • Contactos e ficha técnica do Postal
    • Política de Privacidade
Menu
Cultura.Sul

O Sul de José Afonso

Recordo tardes bem passadas com o José Louro em amena cavaqueira a falar sobre o Zeca, que ele tanto estima(va). (In)confidências, episódios, curiosidades que a minha memória foi retendo como pôde, aqui e ali, cuja afectividade, cumplicidade e respeito inerentes ao tom do discurso, às estórias em si, me tocaram sempre. Há pouco tempo, […]

15:52 11 Abril, 2017 | Cristina Mendonça
Share this…
  • Facebook
  • Messenger
  • Whatsapp
  • Twitter
  • Telegram
  • Email
  • Threads
  • Linkedin
  • Pinterest
A OPINIÃO de PAULO PIRES
Programador cultural
na C. M. de Loulé
http://escrytos.blogspot.pt

Recordo tardes bem passadas com o José Louro em amena cavaqueira a falar sobre o Zeca, que ele tanto estima(va). (In)confidências, episódios, curiosidades que a minha memória foi retendo como pôde, aqui e ali, cuja afectividade, cumplicidade e respeito inerentes ao tom do discurso, às estórias em si, me tocaram sempre. Há pouco tempo, a 23 de fevereiro, na passagem dos 30 anos sobre o falecimento de José Afonso, acabei revisitando esses momentos preciosos que me deixaram um sorriso no rosto, precisamente ao ler um depoimento do Zé Louro sobre o seu amigo, colega de docência e cantautor maior:

Fosse em Santo António do Alto, um miradouro isolado no topo de Faro, fosse no teu barco com o António Barahona e o Pité, fosse em nossa casa, quantas cantigas tuas se eclipsaram no mesmo éter, no mesmo vazio. Tu pegavas na tua viola (eras o único, entre nós, que dedilhava as cordas e, mesmo assim, lastimando e protestando que os teus dedos não iam além das duas posições básicas de, como dizias, acompanhar o teu “tem grelinhos, tem grelinhos no quintal” ou o “caga cão, caga gato, caga o feijão carrapato”) e, versejando um provisório lá-lá-rá-lá-lá, pedias insistentemente que decorássemos tal improviso para, no dia seguinte, arranjarmos qualquer modo de o gravar. Só que o nosso ouvido e a nossa memória novamente dissipavam o que poderia ter sido uma coisa bonita saída do teu talento. Merda! – dizias tu, nunca mais consigo arranjar um desses gravadores portáteis!

É que o dinheiro era pouco e, quando no dia 30 ias à livraria pagar os livros fiados durante o mês, lá ficava uma boa parte do teu ordenado de professor, e o que restava lá se convertia em muitos pequenos-almoços, almoços, jantares e ceias reduzidos a uns tantos copos de leite! E lá vinha agora uma nova revoada de protesto contra o leite, através da frase: “Ó pá, estou cheio de gases!” A vida era dura.

Lembro-me de o José Louro falar do grande zelo e amor do Zeca pelos estrados e palcos das sociedades recreativas algarvias, onde tantas vezes actuou, com maior frequência a partir de 1959, à socapa ou à revelia da polícia política, espraiando a limpidez da sua voz, “deixando lastro”, para usar as suas palavras.

José Afonso: lucidez e inquietação

E, curiosamente, é sabido que José Afonso tendia a menorizar-se como músico, dizendo frequentemente que todos tocavam viola melhor do que ele e que o superavam na forma de comunicar com o público, que se esquecia das letras, que não sabia ler pautas musicais… Mesmo que tecnicamente isso pudesse ter um fundo de verdade, quem privou de perto com ele, como o José Louro, fala de uma verdade que o seu canto e modo de interpretar encerravam, os quais tinham o condão de criar, logo nas primeiras notas entoadas, um clima de partilha e cumplicidade com a audiência, fosse em que contexto fosse. No fundo, ele queria sentir-se igual aos outros, sem qualquer sentimento de altivez ou superioridade. Vasco Lourenço, capitão de Abril, guarda dele a imagem da anti-vedeta por excelência, ao conhecê-lo no Algarve, num período de férias, e ao sentir o incómodo do introvertido e reservado Zeca quando, numa mesa de convívio, conversas e copos, lhe pediam amiúde que cantasse. Assim como não apreciava, mesmo que fosse consensual entre todos, ser o último a actuar num encontro de músicos, temendo que esse facto o entronizasse e fizesse dele um “bonzo”. 

Zeca chegou a ter uma “polémica” com Júlio Pereira, também seu amigo e companheiro de andanças musicais, quando um dia, à porta de um hotel em Vigo, lhe pediu um gravador e de um fôlego apenas lhe saiu completa a música “Achéga-te a mim, Maruxa”, ao que Pereira reagiu dizendo “Não percebes, Zeca? És um génio!”. Resposta afonsina: “Ó Júlio, isso não existe. As coisas vêm do trabalho…”      

Alexandre O’Neill, num dos seus mais brilhantes textos cronísticos, escreveu que um poeta é um distraído terrivelmente atento. E, não obstante José Afonso nunca se ter assumido como poeta mas sim como autor de canções, para muitos que o conheceram mais profundamente ele era, porventura, o distraído mais atento e lúcido com quem conviveram. Se, por um lado, tudo parecia escapar-lhe, passar-lhe ao lado sem deixar rasto, havia nele, paralelamente, uma dimensão interrogativa, de auto-questionamento, de recusa de qualquer tutela ou filiação (era um espírito livre, inquieto e insubmisso, e irrenunciavelmente libertário), de atenção obsessiva a tudo o que o cercava, ao que se relacionasse com a política e economia.

Volto ao José Louro, que, a propósito do inspirador amigo, recorda:

Saio dessas sessões [atuais de homenagem ao Zeca] e penso no cheiro a lodo com que tu chegavas à praia de Faro, para dormir numa tenda em pleno areal, após teres atravessado o Parchal, em competição com aqueles de nós que seguiam enxutos pela estrada; penso nas tuas peúgas, uma de cada cor, ou até na ausência delas por já não haver mais na gaveta; penso na tua gravata com um nó perene que, à entrada na escola, enfiavas ao pescoço, quer houvesse um colarinho, quer um cós de t-shirt; penso na tua voz, com dias de limpidez total e com dias em que afirmavas que “qualquer galinha choca me faz concorrência”.

Luiza Neto Jorge, que com ele privou em Faro nessa fase de fruição panteísta de Zeca, descreve o amigo como “um tipo completamente despistado, um tipo distraído ao máximo a quem estavam sempre a acontecer coisas inimagináveis”. Exemplo disso é o episódio ocorrido na Beira, em Moçambique, para onde José Afonso partiu em 1964 com Maria Zélia, com quem casou, ao encontro dos pais e dos dois filhos do primeiro casamento, aí leccionando durante três anos. O casal habitava num prédio com seis apartamentos, geminados, três de cada lado, aos quais se acedia pela traseira através de uma escada de serviço comum. Ao final de uma tarde, ao regressar das aulas Zeca entrou, esfomeado, pela cozinha de um dos apartamentos e sentou-se a comer um pudim que foi buscar ao frigorífico, altura em que estranhou e se lembrou que Zélia não costumava fazer pudim. Percebeu então que se tinha enganado na porta e entrara na casa do vizinho. No dia seguinte houve muitos pedidos de desculpa aos vizinhos, que só então caíram em si de espanto.

Um céu deste mundo

Numa entrevista a José António Salvador, a propósito da sua estadia no Algarve, José Afonso fala de uma fase de euforia extremamente gratificante e das coisas mais felizes da sua vida, em que discutia com amigos pontos de vista vários, e em que havia, como que ritualmente, o hábito da caminhada, de andar a pé até Olhão, Quarteira e até ainda mais longe. Numa carta enviada de Faro ao seu irmão em Janeiro de 1961, Zeca assegurava ter “exterminado certos resíduos de patetismo bucólico que outrora o traziam em perpétuo estado de deliquescência”. Acreditava na revolução interior pelo contacto com os outros, mais do que na exterior, pois para ele as mudanças deveriam assentar “numa reivindicação integral da vida a partir de cada personalidade”. No Algarve sentiu aquela sensação de apaziguamento e abertura de horizontes que Torga também fala num dos seus escritos sobre a região, quando alude à brancura dos corpos e das almas, à limpeza das casas e das ruas, à harmonia dos seres e da paisagem que o lavavam da fuligem que se lhe agarrara aos ossos e lhe clarificavam as courelas encardidas que trazia no coração.

Zeca apaixonou-se por essa bem-aventurança terrena, “onde um poeta tem a sensação de que se pode viver do ar”, um Algarve “como a miragem dum céu deste mundo, sem nenhum dos atavios que aviltam a condição dum céu” (para usar impressões de Torga novamente). Tornou-se um “artista litoral”, pois sem mar, sem sol, sem esse diálogo físico com o espaço sem limites, não se reconheceria, e foi isso que lhe permitiu atingir o pouco equilíbrio que o mantinha, como confessa numa outra missiva também endereçada ao irmão João.

Fez uma vida muita pagã, de ligação à natureza, andando pelos bailaricos das colectividades e conhecendo uma população muito interessante, sem pensar demasiado em cantigas, embora fosse fazendo uma ou outra aqui e ali. Já Manuel Alegre recorda que, ainda em Coimbra, José Afonso resolveu um dia partir para Marrocos. Como se a tentação do sul já estivesse dentro dele. “Ou talvez daquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão, Alentejo, Algarve, a planície, as areias e o mar” (Alegre).

José Afonso com amigos no Café Santa Maria, na praia de Faro (Verão de 1963)

É neste período que José Afonso convive com figuras marcantes, que ajudam a apurar a sua consciência poética, como Luiza Neto Jorge, António Barahona da Fonseca ou António Ramos Rosa. Isto não para falar da influência que nele tiveram os surrealistas, tanto os franceses como os portugueses (vejam-se letras como “Rio Largo de Profundis”, “A acupunctura em Odemira” e outras), e também alguns poetas espanhóis, a começar pelos místicos e barrocos.

O barco referido na letra “Tenho barcos, tenho remos” pertencia a uma pequena sociedade constituída por Eduardo dos Santos Pité, António Barahona, António Bronze e José Afonso, que o salvaram da decomposição e do esquecimento. A embarcação era alcunhada pelos pescadores de “Barco do Diabo”, referência às viagens e noitadas passadas na Ria, e era, segundo a poetisa Luiza Neto Jorge, o “catalisador dessa subversão do quotidiano” que unia aquele grupo de amigos. Situações vividas pelos quatro, em comunidade perfeita com o mar algarvio, agrupam-se numa espécie de ciclo fraterno representativo de uma das fases mais felizes da vida de Zeca. Foi nesse ambiente dos sapais da ria de Faro e dos areais do sotavento que nasceram canções como o “Menino do Bairro Negro” ou o “Senhor Poeta”, tantas vezes entoadas por José Afonso no quase mítico barco. Vitorino, curiosamente, também recorda o facto de Zeca já então ser muito conhecido em Tavira por, entre outras aventuras, ter descido o rio Gilão à proa duma barca a cantar por altura dos festejos de Carnaval.

Amor maior, tons maiores

Foi também no Algarve, mais particularmente na Fuzeta, que José Afonso conheceu aquela que viria a ser a sua segunda mulher, Maria Zélia, com a qual viveu “uma vida muito viva, vivida com paixão e algum desequilíbrio”. Confessa o cantautor: “O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores.” O cantautor grava em 1964 um EP que integrava as canções “Coro dos Caídos”, “Ó Vila de Olhão”, “Canção do Mar” e “Maria”, esta última dedicada a Zélia, que lhe dá estabilidade emocional, afectiva e familiar, e se converte no grande pilar de sustentação de uma vida andarilha, rebelde e marcada por privações e marginalizações impostas pela ditadura em relação ao ensino: “Maria / Nascida no monte / À beira da estrada / Maria / Bebida na fonte / Nas ervas criada // Talvez / Que Maria se espante / De ser tão louvada / Mas não / Quem por ela se prende / De a ver tão prendada”. Em carta enviada ao irmão João em 1963, sobre a sua relação com Zélia, Zeca revelava de forma optimista estar convencido que desta vez acertara.

O amparo afectivo e emocional (a mulher, os amigos, os alunos) e o convívio com a natureza algarvia e sua luz e água mediterrânicas foram esses portos seguros, essa nutrição de que o hipocondríaco (frequentemente com queixas do foro respiratório, más digestões, azia e “pedra no diafragma”) e imprevisível José Afonso precisava para prosseguir em frente. Ele era, segundo José Louro conta, um homem tenso e impaciente, e de uma pureza rebelde quase infantil. Tinha sempre pressa sem a ter. E trazia em si uma ansiedade permanente, como se o dia seguinte fosse um insustentável novelo de incertezas. Como se não conseguisse libertar-se do labirinto de fantasmas e medos que, desde a infância, lhe moveu cerco. Segundo José Jorge Letria, que tanto privou com ele, “a sua instabilidade nervosa tinha expressão psicossomática”:

Era essa a forma de somatizar as tensões que a sua vida o forçava a acumular. O seu aparente desprendimento e a sua proverbial distracção ocultavam uma enorme ansiedade que uma vida inteira em ditadura acabara por transformar numa verdadeira doença existencial [não por acaso a sua tese final de licenciatura foi sobre Sartre]. O menino de Aveiro, que só esporadicamente pôde desfrutar do carinho e do amparo dos pais, vivendo numa errância quase permanente, nunca deixou de olhar o mundo, mesmo na idade madura, através das lentes de uma velha miopia e de uma insegurança que lhe foram desgastando o espírito e o corpo.

A própria relação com Zélia não deixou de ter contornos caricatos, como Zeca relembrava:

A Zélia não teve oportunidade de estudar por razões económicas, suponho. Então vivi uma verdadeira situação siciliana, um bocado ridícula, mas que efectivamente existiu. Toda a Fuzeta me sacudiu e de uma maneira geral se prestou ao papel de policiar as minhas relações com a Zélia. Durante dois anos consegui viver uma situação praticamente impossível, em que me senti obrigada a meter-me em quase todos os buracos do mundo. Conseguiram privar-me do contacto com a Zélia.

Luiza Neto Jorge relata que, para esta situação, contou o facto de José Afonso ser divorciado e manifestar ódio “pelas mãezinhas das meninas que fiscalizavam os seus comportamentos, ao mesmo tempo que se dispunham a deixá-lo sozinho com as filhas, pretextando uma ida às compras para que as filhas preparassem a armadilha ao doutor”. Na Fuzeta Zeca era encarado como um tipo que vinha do exterior, fora do sistema deles e que lhes escapava. Hostilizado e olhado como uma figura um bocado aberrante (tal como os seus amigos Luiza, Barahona ou António Bronze o eram), José Afonso apenas conseguia encontrar-se com Zélia nos meses de Junho e Julho na ilha de Faro.

Olhão inspiradora

Mas considerava Olhão a sua terra adoptiva, onde todas as semanas se deslocava e através de um roteiro pessoal deambulava pelo cais e pelas cabanas. Mais tarde reconheceria ter tido sempre uma grande paixão por aquela terra, que imaginava como a do “trabalho ou a dos indivíduos temperados pela experiência”, enquanto Faro “era a cidade dos administrativos, dos engravatados, dos pequenos comerciantes”.

Ao falar do contexto que deu origem à canção “Ó Vila de Olhão” (publicada em 1964 e dedicada aos pescadores olhanenses, cujo humor popular ele tanto apreciava), Zeca recorda as suas muitas viagens de comboio àquela localidade: “A meio do caminho da Fuzeta, entre Olhão e Marim, a vila vai-se adelgaçando, a viagem torna-se mais rápida e ruidosa, devido ao vento que entra pelas janelas. Pode-se berrar sem que ninguém nos ouça.” Servida pela cadência mecânica do “pouca-terra”, aquela crónica rimada sobre as vicissitudes por que passa o mexilhão quando o mar bate na rocha alude metaforicamente a Henrique Ferreiro, dirigente da Junta Central das Casas de Pescadores onde era delegado do Governo junto dos organismos das pescas e apoiante do Estado Novo: “Ó Vila de Olhão / da Restauração / Madrinha do povo / Madrasta é que não / Quem te pôs assim / Mar feito num cão / Foi o tubarão”

A fase algarvia correspondeu ainda a um período de vital mudança e renovação no repertório do cantautor e na música que até então se fazia em Portugal, nomeadamente com o EP “Balada de Outono” (em 1960) e a não inclusão, pela primeira vez, do som da guitarra em 1962 no álbum Coimbra Orfeon de Portugal. No mesmo ano edita o EP que inclui canções como “Menino d’Oiro”, “No lago do breu”, “Tenho barcos, tenho remos” e “Senhor Poeta”, sendo acompanhado apenas à viola por Rui Pato, figura-chave como instrumentista neste processo de renovação estética e de criação de uma nova linguagem musical e poética, nascendo a “balada” como género musical contemporâneo e autónomo, que já não era fado de Coimbra nem canção tradicional portuguesa. Em 1963, a edição dos temas “Os vampiros” e “Menino do Bairro Negro” marca definitivamente, pela sua temática e abordagem musical, a assunção da balada como instrumento de intervenção política e cívica. Rui Pato, seu fiel companheiro e amigo, recorda esses anos de oiro, precários mas extremamente inventivos, vivenciados a sul:

Os ensaios eram poucos, feitos quase sempre nas férias. Foi a minha primeira oportunidade de conhecer o Algarve: em 1963, fiquei uma semana em sua casa no n.º68 da Rua Duarte Pacheco em Faro. Partíamos de manhã com destino à ilha do Farol ou da Armona, de barco, com a viola e uma ração de duas sanduíches e duas meloas. Quando eu não podia ir ter com ele, vinha ele a Coimbra à boleia ou então apanhava o comboio até à estação para o qual o pouco dinheiro de que dispunha dava (dizia: “Venda-me um bilhete de 60 escudos em 2ª. classe em direcção ao Norte.”), fazendo o resto à boleia ou a pé, e cá chegava cheio de fome, sem um tostão no bolso, e com um bornal com uma muda de roupa, alguns medicamentos e muitos livros.

José Afonso por Vhils

Como professor (uma das suas paixões) teve uma carreira curta, que começaria no Colégio de S. José em Mangualde e passaria depois por Aljustrel, Lagos, Faro, Alcobaça e Setúbal. Sobre esse ofício insistia amiúde na crença de que a sua acção era sobretudo de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutindo-lhes um espírito crítico, fazendo com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais. Ao irmão João, que o visitou em Faro em 1962, encontrando-o à mesa de um café a perguntar aos alunos as notas que mereciam, José Afonso afirmou acreditar na libertação das pessoas através de uma formação pedagógica que não se cingisse apenas a programas e livros. A experiência de professor, altamente estimulante para o seu trabalho musical, que tivera em Mangualde, onde colheu junto dos alunos “uma certa visão poética e ao mesmo tempo pedagógica”, foi depois complementada através de “um tipo de relações de uma pureza impossível” com gente mais madura, trabalhadores e operários que conheceu nas aulas nocturnas de Olhão e Faro. Nos alunos deixou a imagem de alguém que não seguia o programa e falava de outras coisas. Usava os sapatos desatados e faltava para ir fazer gravações a França e concertos por outros lugares.

Mas este sul de José Afonso não se circunscrevia ao Algarve. Numa carta enviada aos pais em 23 de Maio de 1964 confessava sentidamente:

Eu e a Zélia estivemos em Grândola numa sociedade operária. Aí actuámos, eu e o Paredes (o filho é ainda maior que o pai) no meio de uma assistência atenta e compenetrada, toda ela de operários e mulheres de xaile e lenço. Ofereci-lhes uma canção feita na véspera (16/5/1964) [Cantar alentejano], uma espécie de evocação da terra alentejana e do seu símbolo ainda vivo na lembrança do homem do povo: a Catarina Eufémia, uma ceifeira de Baleizão morta pela Guarda Republicana em circunstâncias que forneceriam matéria para uma canção de gesta. Se alguma vez tiver de deixar esta terra é a lembrança dos homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar. 

(Artigo publicado na última edição do Caderno de Artes Cultura.Sul)

Google News
Siga o POSTAL no Google Notícias
Nacional

Militar da GNR apanhado pela PSP com cocaína e MDMA continuou ao serviço após ser detido

16:40 24 Julho, 2026 14:57 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

GNR foi intercetado num parque de estacionamento público, em Almada, e acabou libertado depois de ser presente a tribunal

Supermercado da Mercadona.
Algarve Economia Nacional

Mercadona acelera expansão em Portugal: saiba onde vão abrir os próximos 8 supermercados este ano (Algarve incluído)

13:00 24 Julho, 2026 12:36 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Depois de inaugurar quatro lojas em 2026, a Mercadona prepara mais oito aberturas em Portugal

Bliss Vilamoura.
Algarve Vida & Lazer

Discoteca muito conhecida em Vilamoura acaba de reabrir pela última vez no espaço habitual: para o ano muda a localização

14:20 24 Julho, 2026 13:36 24 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Bliss Vilamoura reabriu para a época de verão e prepara-se para a última temporada no espaço atual antes da mudança prevista para 2027

Ricardo Claro. Crédito: Facebook
Algarve

Suspeito de assassinar Ricardo Claro em Loulé é encontrado morto na prisão

13:10 24 Julho, 2026 13:05 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Ricardo Claro, gestor financeiro de um restaurante de luxo em Loulé, foi assassinado em março. O único detido pelo crime foi agora encontrado morto na prisão de Faro

Notas de Euro. Crédito. Freepik
Economia Europe Direct Algarve

Novas notas de euro já têm propostas finalistas: europeus podem votar até setembro

20:30 24 Julho, 2026 12:55 24 Julho, 2026 | João Luís

Banco Central Europeu apresentou dez propostas para a próxima série de notas e abriu um inquérito público para recolher opiniões

Ambulância do INEM. Crédito: Lusa
Nacional

“Mataram a minha neta”: menina de 18 meses morre após ficar cerca de sete horas esquecida dentro de carro de creche

13:30 24 Julho, 2026 13:04 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Criança de 18 meses terá permanecido durante várias horas no interior de uma viatura estacionada junto ao Cristo Rei. A Polícia Judiciária está a investigar o caso

Idosa com calor. Crédito: Foto AI
Tempo

Tempo mais fresco está de saída: calor volta e temperaturas podem chegar aos 40 ºC já no início da semana

15:10 24 Julho, 2026 14:40 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

O calor deverá regressar em força a várias regiões do país, depois de alguns dias mais frescos

Europe Direct Algarve Opinião

Cáceres 2031 apresenta a candidatura ECOC na Escola de Verão Europaeum em Cracóvia | Por João Palmeiro

19:30 24 Julho, 2026 17:20 23 Julho, 2026 | Cristina Mendonça

Depois de Malta, Cáceres 2031 voltou a reforçar a cooperação internacional com uma participação académica de referência em Cracóvia

Praia de La Pelosa, Sardenha.
Europa Vida & Lazer

Praia em Itália onde se paga 3,50€ para entrar tem lotação esgotada até 15 de setembro

18:30 24 Julho, 2026 16:43 14 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Uma das praias mais procuradas de Itália já está esgotada até setembro e para entrar é preciso pagar e reservar com antecedência

W Algarve.
Algarve Vida & Lazer

Hotel algarvio tem uma piscina onde qualquer um pode entrar por 40€ e com espreguiçadeira e toalha incluída

17:50 23 Julho, 2026 15:01 15 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Em Albufeira, um hotel de luxo lançou passes diários que permitem utilizar a piscina, o spa ou ambos, mesmo sem reservar alojamento

Nacional

Governo prepara nova estratégia para comunidades ciganas sob tutela da Igualdade

22:10 23 Julho, 2026 21:46 23 Julho, 2026 | Henrique Dias Freire

Documento redefine a estratégia com foco na inclusão e participação, mantendo seis milhões de euros em avisos e programas já em curso

Teste do balão.
Auto

Água, café ou pastilhas ajudam a escapar ao teste do balão? Espanhóis revelam o único truque que resulta

18:00 22 Julho, 2026 11:54 22 Julho, 2026 | João Luís

Com as festas e os meses de verão, voltam também vários mitos sobre os testes de alcoolemia. Mas há uma regra que continua sem mudar

Economia Opinião

Portugal: a República das Dívidas | Por Luís Ganhão

16:59 23 Julho, 2026 17:03 23 Julho, 2026 | Cristina Mendonça

"Se a dívida pública nos coloca entre os primeiros da Europa e a dívida incobrável ultrapassa já os dez mil milhões de euros, é evidente que Portugal continua a destacar-se em alguma coisa"

Tempo

Calor aperta no Algarve esta quarta-feira: estas zonas podem aproximar-se dos 40 ºC

22:00 21 Julho, 2026 20:46 21 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Uma massa de ar quente e seco vai elevar as temperaturas no Algarve, com o Sotavento e as zonas interiores a concentrarem os valores mais altos da região

Saúde

Especialistas avisam: este sinal nas unhas pode estar associado ao cancro do pulmão e não deve ser ignorado

13:20 21 Julho, 2026 11:24 21 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Mudanças graduais no formato das unhas e das pontas dos dedos podem estar associadas a doenças pulmonares, cardíacas ou inflamatórias

Avião da Iberia.
Europa

Alarme impediu possível colisão entre dois aviões com 472 passageiros em Espanha

11:10 23 Julho, 2026 10:56 23 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Sistema automático de prevenção de colisões evitou que duas aeronaves em rotas opostas chocassem sobre o espaço aéreo das Canárias

Nacional

Militar da GNR apanhado pela PSP com cocaína e MDMA continuou ao serviço após ser detido

16:40 24 Julho, 2026 14:57 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

GNR foi intercetado num parque de estacionamento público, em Almada, e acabou libertado depois de ser presente a tribunal

Supermercado da Mercadona.
Algarve, Economia, Nacional

Mercadona acelera expansão em Portugal: saiba onde vão abrir os próximos 8 supermercados este ano (Algarve incluído)

13:00 24 Julho, 2026 12:36 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Depois de inaugurar quatro lojas em 2026, a Mercadona prepara mais oito aberturas em Portugal

Bliss Vilamoura.
Algarve, Vida & Lazer

Discoteca muito conhecida em Vilamoura acaba de reabrir pela última vez no espaço habitual: para o ano muda a localização

14:20 24 Julho, 2026 13:36 24 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Bliss Vilamoura reabriu para a época de verão e prepara-se para a última temporada no espaço atual antes da mudança prevista para 2027

Ricardo Claro. Crédito: Facebook
Algarve

Suspeito de assassinar Ricardo Claro em Loulé é encontrado morto na prisão

13:10 24 Julho, 2026 13:05 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Ricardo Claro, gestor financeiro de um restaurante de luxo em Loulé, foi assassinado em março. O único detido pelo crime foi agora encontrado morto na prisão de Faro

Notas de Euro. Crédito. Freepik
Economia, Europe Direct Algarve

Novas notas de euro já têm propostas finalistas: europeus podem votar até setembro

20:30 24 Julho, 2026 12:55 24 Julho, 2026 | João Luís

Banco Central Europeu apresentou dez propostas para a próxima série de notas e abriu um inquérito público para recolher opiniões

Ambulância do INEM. Crédito: Lusa
Nacional

“Mataram a minha neta”: menina de 18 meses morre após ficar cerca de sete horas esquecida dentro de carro de creche

13:30 24 Julho, 2026 13:04 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Criança de 18 meses terá permanecido durante várias horas no interior de uma viatura estacionada junto ao Cristo Rei. A Polícia Judiciária está a investigar o caso

Idosa com calor. Crédito: Foto AI
Tempo

Tempo mais fresco está de saída: calor volta e temperaturas podem chegar aos 40 ºC já no início da semana

15:10 24 Julho, 2026 14:40 24 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

O calor deverá regressar em força a várias regiões do país, depois de alguns dias mais frescos

Europe Direct Algarve, Opinião

Cáceres 2031 apresenta a candidatura ECOC na Escola de Verão Europaeum em Cracóvia | Por João Palmeiro

19:30 24 Julho, 2026 17:20 23 Julho, 2026 | Cristina Mendonça

Depois de Malta, Cáceres 2031 voltou a reforçar a cooperação internacional com uma participação académica de referência em Cracóvia

Praia de La Pelosa, Sardenha.
Europa, Vida & Lazer

Praia em Itália onde se paga 3,50€ para entrar tem lotação esgotada até 15 de setembro

18:30 24 Julho, 2026 16:43 14 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Uma das praias mais procuradas de Itália já está esgotada até setembro e para entrar é preciso pagar e reservar com antecedência

W Algarve.
Algarve, Vida & Lazer

Hotel algarvio tem uma piscina onde qualquer um pode entrar por 40€ e com espreguiçadeira e toalha incluída

17:50 23 Julho, 2026 15:01 15 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Em Albufeira, um hotel de luxo lançou passes diários que permitem utilizar a piscina, o spa ou ambos, mesmo sem reservar alojamento

Nacional

Governo prepara nova estratégia para comunidades ciganas sob tutela da Igualdade

22:10 23 Julho, 2026 21:46 23 Julho, 2026 | Henrique Dias Freire

Documento redefine a estratégia com foco na inclusão e participação, mantendo seis milhões de euros em avisos e programas já em curso

Teste do balão.
Auto

Água, café ou pastilhas ajudam a escapar ao teste do balão? Espanhóis revelam o único truque que resulta

18:00 22 Julho, 2026 11:54 22 Julho, 2026 | João Luís

Com as festas e os meses de verão, voltam também vários mitos sobre os testes de alcoolemia. Mas há uma regra que continua sem mudar

Economia, Opinião

Portugal: a República das Dívidas | Por Luís Ganhão

16:59 23 Julho, 2026 17:03 23 Julho, 2026 | Cristina Mendonça

"Se a dívida pública nos coloca entre os primeiros da Europa e a dívida incobrável ultrapassa já os dez mil milhões de euros, é evidente que Portugal continua a destacar-se em alguma coisa"

Tempo

Calor aperta no Algarve esta quarta-feira: estas zonas podem aproximar-se dos 40 ºC

22:00 21 Julho, 2026 20:46 21 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Uma massa de ar quente e seco vai elevar as temperaturas no Algarve, com o Sotavento e as zonas interiores a concentrarem os valores mais altos da região

Saúde

Especialistas avisam: este sinal nas unhas pode estar associado ao cancro do pulmão e não deve ser ignorado

13:20 21 Julho, 2026 11:24 21 Julho, 2026 | Rubén Gonçalves

Mudanças graduais no formato das unhas e das pontas dos dedos podem estar associadas a doenças pulmonares, cardíacas ou inflamatórias

Avião da Iberia.
Europa

Alarme impediu possível colisão entre dois aviões com 472 passageiros em Espanha

11:10 23 Julho, 2026 10:56 23 Julho, 2026 | Miguel Frazão

Sistema automático de prevenção de colisões evitou que duas aeronaves em rotas opostas chocassem sobre o espaço aéreo das Canárias

Últimas Notícias

  • Novas notas de euro já têm propostas finalistas: europeus podem votar até setembro
    Novas notas de euro já têm propostas finalistas: europeus podem votar até setembro
  • Turismo em Portugal procura profissionais: as competências que podem abrir portas no mercado de trabalho
    Turismo em Portugal procura profissionais: as competências que podem abrir portas no mercado de trabalho
  • Praia em Itália onde se paga 3,50€ para entrar tem lotação esgotada até 15 de setembro
    Praia em Itália onde se paga 3,50€ para entrar tem lotação esgotada até 15 de setembro
  • À procura do melhor polvo à lagareiro: conheça 3 restaurantes no Algarve onde pode prová-lo
    À procura do melhor polvo à lagareiro: conheça 3 restaurantes no Algarve onde pode prová-lo
  • Militar da GNR apanhado pela PSP com cocaína e MDMA continuou ao serviço após ser detido
    Militar da GNR apanhado pela PSP com cocaína e MDMA continuou ao serviço após ser detido

Opinião

  • Cáceres 2031 apresenta a candidatura ECOC na Escola de Verão Europaeum em Cracóvia | Por João Palmeiro
    Cáceres 2031 apresenta a candidatura ECOC na Escola de Verão Europaeum em Cracóvia | Por João Palmeiro
  • A promoção mais rápida da História | Por José Figueiredo Santos
    A promoção mais rápida da História | Por José Figueiredo Santos
  • Portugal: a República das Dívidas | Por Luís Ganhão
    Portugal: a República das Dívidas | Por Luís Ganhão

Europe Direct Algarve

  • Novas notas de euro já têm propostas finalistas: europeus podem votar até setembro
    Novas notas de euro já têm propostas finalistas: europeus podem votar até setembro
  • Cáceres 2031 apresenta a candidatura ECOC na Escola de Verão Europaeum em Cracóvia | Por João Palmeiro
    Cáceres 2031 apresenta a candidatura ECOC na Escola de Verão Europaeum em Cracóvia | Por João Palmeiro
Há um novo Postal nas bancas com o Expresso
Seguir
Configurações de privacidade
©2026 Postal

Subscreva a newsletter
do POSTAL

Pode sempre cancelar a qualquer momento