Um estudo científico alerta que o aquecimento do mar e a acidificação dos oceanos podem comprometer seriamente a produção de mexilhões no Mediterrâneo já por volta de 2050, com mortalidade estival “quase total” em cenários futuros, o que poderá traduzir-se em menor oferta e preços mais altos, e as ostras, embora mais resistentes, também não escapam a perdas e a crescimento mais lento.
A investigação foi conduzida por uma equipa associada ao CNRS, ao Ifremer e à Sorbonne Université, e procurou perceber “quem” e “o quê”: o impacto das alterações climáticas na sobrevivência e produtividade de duas espécies chave na aquicultura mediterrânica, o mexilhão-do-Mediterrâneo (Mytilus galloprovincialis) e a ostra do Pacífico (Magallana gigas).
O “quando” e o “onde” estão no centro do alerta: a experiência decorreu durante 14 meses, entre 2022 e 2023, com água não filtrada proveniente da Lagoa de Thau, no sul de França, e os resultados foram divulgados num artigo na revista de ciência Earth’s Future em dezembro deste ano.
O “porquê” é direto: as ostras e mexilhões são relevantes para a economia costeira e para a oferta alimentar, e o estudo sugere que o Mediterrâneo poderá tornar-se um ambiente demasiado hostil, sobretudo no verão, para manter níveis de produção semelhantes aos atuais, em especial no caso do mexilhão.
O que é que o estudo simulou
Para chegar às conclusões, os investigadores simularam condições climáticas de 2050, 2075 e 2100, aquecendo a água entre +1 °C e +3 °C e enriquecendo-a com CO₂ para reproduzir a acidificação, mantendo ao mesmo tempo um ambiente “ecologicamente realista” (com flutuações naturais e presença de fitoplâncton, microrganismos e outros fatores típicos da lagoa).
A lógica do “como” foi evitar testes curtos e demasiado controlados: ao usar água não filtrada e condições mais próximas do terreno, o estudo tentou aproximar-se do que a aquicultura enfrenta no dia a dia, incluindo stress térmico, variações de oxigénio e pressão biológica.
O dado que mais preocupa surge no mexilhão: mesmo em condições atuais, o estudo refere mortalidade de verão elevada e, quando aplica o cenário de 2050, descreve que a mortalidade estival se torna “quase total”, apontando para risco de colapso produtivo se não houver adaptação.
E as ostras? Mais resistentes, mas não imunes
No caso das ostras, o cenário é menos dramático do que no mexilhão, mas ainda assim penalizador: a sobrevivência mantém-se relativamente alta nos cenários mais próximos, mas cai em simulações mais extremas e, sobretudo, o crescimento abranda de forma marcada em condições futuras.
O estudo descreve, por exemplo, uma redução de sobrevivência e um abrandamento do crescimento em cenários de fim de século, além de efeitos na maturidade reprodutiva e no desenvolvimento inicial da descendência, o que pode afetar a produtividade e aumentar a imprevisibilidade para os produtores.
Na prática, isto pode significar ciclos de produção mais longos para atingir o tamanho comercial, maior exposição a riscos (como blooms de algas nocivas, poluição e patógenos) e custos acrescidos — fatores que acabam por chegar ao consumidor sob a forma de menor disponibilidade e preços mais elevados.
O que pode mudar no prato dos consumidores
Quando se diz que “não poderemos comer” mexilhões e ostras do Mediterrâneo, o cenário mais plausível não é um desaparecimento absoluto, mas sim rupturas na produção local: quebras frequentes no verão, maior dependência de outras origens, alterações de época de consumo e maior volatilidade de preços.
Há ainda sinais de fragilidade já observados em episódios passados: a Lagoa de Thau, por exemplo, tem histórico de eventos extremos que afetaram a produção, e o Mediterrâneo oriental regista episódios de mortalidade em massa em explorações, o que dá contexto ao alerta do estudo.
Quanto às soluções, os próprios autores e notícias que citam o trabalho apontam caminhos de adaptação: seleção de variedades mais resistentes, co-cultivo com algas (abordagens “multitróficas”) e transferência gradual de algumas atividades para mar aberto, onde a água tende a ser menos extrema em temperatura e acidez.
No fim, o estudo é lido como um aviso para agir cedo: “Estamos muito perto de um ponto de rotura,” afirmou Fabrice Pernet, citado em declarações à AFP, defendendo que a adaptação terá de acelerar para evitar perdas estruturais na aquicultura mediterrânica.
















