Ao aproximar-se da curva da estrada, nada parece indicar que se está prestes a entrar numa das povoações mais singulares do litoral algarvio. Pequena à escala do turismo de massas, mas ampla naquilo que oferece a quem a visita, esta aldeia guarda memórias de civilizações antigas, sabores que atravessam séculos e paisagens que inspiraram escritores.
Falamos de Cacela Velha, uma aldeia situada no concelho de Vila Real de Santo António, mesmo à beira da Ria Formosa. A povoação, referida em tempos como Qast’alla, foi conquistada pelos árabes no século VIII e só passou para domínio cristão em 1240, permanecendo durante mais de cinco séculos sob jurisdição da antiga Ossónoba, hoje conhecida como Faro. De acordo com o blog Oliraf, terá sido um dos primeiros núcleos urbanos no extremo sudeste do atual território algarvio.
As ruas com nome de poetas
O traçado urbano é reduzido, mas marcado por um detalhe invulgar: as ruas têm nomes de poetas que escreveram sobre Cacela ou nela se inspiraram. Segundo a mesma fonte, nomes, como Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade e o poeta andalusino Abû al-‘Abdarî, habitam as placas toponímicas da aldeia.
O casario branco, de traço tradicional algarvio, mantém-se inalterado há décadas. A aldeia pode ser percorrida em 15 minutos, mas os visitantes são incentivados a ficar mais tempo.
Conforme refere o Algarve Portugal Tourism, vale a pena demorar-se junto à Igreja Matriz, construída em 1583 e reconstruída após o terramoto de 1755. O seu portal renascentista resiste como um dos poucos elementos originais, obra do mesmo arquiteto da Igreja da Misericórdia de Tavira.
Fortaleza com passado militar
Nas traseiras da igreja ergue-se a Fortaleza de Cacela, edificada em 1770 sobre vestígios de um antigo castelo mouro. Escreve a mesma fonte que a estrutura alberga hoje um posto da Guarda Nacional Republicana e não está acessível ao público.
Ria Formosa à mesa
Apesar da dimensão reduzida, Cacela Velha tornou-se também um destino gastronómico. A Casa da Igreja, situada junto ao adro, é disso exemplo. De acordo com a TimeOut, a abertura do espaço esteve em dúvida no verão de 2023, mas as obras foram concluídas e o serviço retomado. Desde então, as ostras continuam a ser o prato mais procurado. O dono, Patrício Correia, garante que chegam a ser vendidos 120 quilos por dia.
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O restaurante não aceita reservas e como é ‘tradição’ comer ostras em Cacela Velha depois de um dia de praia, deve contar com algum tempo de espera na fila para degustar este molusco.
Segundo a mesma fonte, os petiscos não se esgotam nas ostras (16,80€/12 unidades). As amêijoas (21€/300g) e as gambas cozidas (17,50€/250g) figuram também entre os favoritos, num ambiente de esplanada onde não há lugares marcados e a partilha de mesa se torna frequente.
Poesia, paisagem e silêncio
De salientar que o poeta Ibn Darraj al-Qastalli, nascido nesta terra em 958, celebrizou-se como uma das figuras centrais do califado Omíada. Acrescenta o blog Oliraf que o som do oceano ainda hoje embala a aldeia, como um fundo musical constante à poesia gravada nas paredes.
Cacela Velha oferece um contraste com outras zonas do Algarve. Conforme explica o Algarve Portugal Tourism, aqui não há hotéis nem grandes empreendimentos. Existem algumas moradias, vestígios de uma antiga fábrica, e uma comunidade reduzida de residentes.
A cultura na margem da ria
O enquadramento natural da aldeia, entre o azul da ria e o branco do casario, torna-se palco de encontros culturais informais. Embora não existam centros culturais propriamente ditos, os elementos da paisagem e do património funcionam como cenário vivo para uma história que ainda se escreve.
Uma aldeia de margens e encontros
Situada entre o mar e a serra, entre o islâmico e o cristão, entre a tradição e a sobrevivência, Cacela Velha é um exemplo de como um lugar pode conter múltiplas camadas de tempo e de identidade.
















