A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto (APDMGP) disse esta quarta-feira ser frequente casos de grávidas que viram o atendimento nos hospitais recusado pela falta de contacto com a Linha SNS24.
“São dezenas, isto já acontece há algum tempo. Há casos semelhantes e piores. As pessoas de facto relatam que chegam [ao hospital], não têm o SMS [da linha] e são obrigadas a ligar muitas vezes em frente ao guichê [balcão] da triagem”, afirmou à agência Lusa a presidente da associação, Sara do Vale.
As declarações surgem na sequência do caso ocorrido na passada sexta-feira no Hospital de Faro, onde uma grávida não foi atendida nas urgências por não ter efetuado contacto prévio com a Linha SNS24.
Entretanto, a administração da Unidade Local de Saúde (ULS) do Algarve anunciou a abertura de um inquérito para apurar os factos e eventuais responsabilidades relacionadas com a situação.
Também a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) revelou ter instaurado um “processo de avaliação com vista ao cabal esclarecimento dos factos e à verificação do cumprimento do enquadramento normativo e regulatório aplicável”.
Associação denuncia dificuldades no acesso aos cuidados
De acordo com a lei, as pessoas devem contactar a Linha SNS24 antes de se dirigirem aos hospitais, mas mesmo sem contacto prévio deve ser assegurada à utente a sua inscrição na urgência e posterior triagem.
A presidente da APDMGP deu o exemplo de uma situação, que lhe foi relatada, com uma grávida que foi a um hospital com o companheiro ter um parto prematuro sem ligar para a Linha SNS24.
A grávida não foi triada e teve de ligar para a linha, mas como o casal não falava português foi-lhes dito que após uma hora seriam atendidos por alguém que sabia falar inglês.
Após esperarem duas horas, o casal desistiu e foi ter o bebé num hospital privado.
“A senhora chegou a estar duas horas à espera com um parto prematuro e com contrações na sala de espera e não foi atendida. Acabou por desistir e ir para o privado”, disse a presidente da APDMGP.
Casais obrigados a ligar à frente dos profissionais
Sara do Vale contou ainda outra situação com um casal que teve de ligar para a Linha SNS Grávida em frente aos profissionais do hospital para serem atendidos porque não tinham ligado antes de se dirigirem ao local.
“Ele [o pai] disse que pôs o telefone em alta voz, mostrou o cronómetro a passar e disse à senhora enfermeira, eu juro que estou a tentar ligar, não me estão a atender, por favor vejam a minha mulher”, contou, indicando que o casal só foi atendido 20 minutos depois de estar em frente aos profissionais e mostrar que a chamada não estava a ser atendida.
Sara do Vale disse ainda que “há hospitais que nem sequer vão triar a senhora” se a utente não tiver ligado antes para a linha.
“Isto está de facto a violar o mais básico dos direitos que é o acesso à saúde”, acrescentou a presidente da APDMGP, uma associação que tem como fim a defesa dos direitos das mulheres durante a gravidez e parto.
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