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Três generais portugueses têm sido acusados de posições pró-russas ao fazerem a análise da guerra nas televisões

Há generais portugueses ‘putinistas’ pró-Rússia? Eles respondem que fazem comentários “neutrais” com base na doutrina militar e geoestratégica. E que não querem “diabolizar” nenhuma das partes.

13:10 7 Março, 2022 13:12 7 Março, 2022 | Cristina Mendonça
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O que têm em comum? São generais portugueses, passaram pela ex-Jugoslávia e todos compreendem as razões pelas quais Putin invadiu a Ucrânia. Ou fazem em análises “neutras” sobre a Rússia do ponto de vista geopolítico? Três oficiais-generais que têm feito análises televisivas à guerra, tornaram-se esta semana tema de comentário na comunidade militar e entre especialistas de política internacional. Há mesmo quem os acuse de “putinismo”: o major-general Raul Cunha chegou a dizer, na SIC, que “o Presidente russo foi encurralado” pela NATO e justificou a anexação da Crimeia; o major-general Carlos Branco disse ao “Observador” que a Rússia não ia “permitir a chacina da população ucraniana russa” em Lugansk e Donetsk, classificando a parte ucraniana como “a ameaça”; um terceiro analista, o major-general Agostinho Costa tem usado (nos três canais de televisão) argumentos como “a preocupação [dos russos] em não causar baixas civis”, ou a desvalorização da coluna paralisada perto de Kiev. No dia seguinte à invasão, quando garantiu: “Os russos já estão em Kiev.” E disse que Volodymyr Zelensky tinha fugido para Lviv, na zona ocidental.

“Não são posições pró-russas, a meu ver são neutrais”, defende-se o major-general Carlos Branco ao Expresso. “Ninguém defende o Putin. É geoestratégia, é power politics”, explica. “Temos de nos meter nos sapatos deles e perceber como eles nos olham, e procurar uma solução inteligente”, para o fim do conflito, “onde ninguém perca a face”, acrescenta o major-general Agostinho Costa. “Não sou um comentador, sou um analista. Não tenho uma bola de cristal, mas passei a minha carreira em sítios onde estes assuntos eram tratados, e tenho por obrigação perceber estas operações e o patamar político”. Já o major-general Raul Cunha garante: “Não sou pró-russo nem ‘putinista’, se nos chamam isso é por não terem argumentos. Estou absolutamente contra a opção de Putin invadir e sou contra toda e qualquer invasão de um Estado soberano”, justifica. “Agora, entendo que quase o empurraram para essa opção”.

Embora estas análises estejam a causar “algum desagrado entre militares”, como diz ao Expresso uma fonte castrense, a parte mais visível desta polémica tem-se desenrolado nas redes sociais: o ex-espião Jorge Silva Carvalho, que dirigiu o Serviço de Informações Estratégicas e de Defesa (SIED) e é um especialista em Rússia, escreveu um longo post no Facebook, a considerar “insidiosas” posições como considerar que a NATO tem “vindo a cercar a Rússia”, dirigindo o seu texto a “anti-americanos e militares que faltaram às aulas de geopolítica ou, pior, àqueles que sob a capa de pensadores não são mais do que vozes recrutadas por esta Rússia, autocrática”. Rodrigues Carmo, um antigo coronel dos comandos, também se referiu, no Facebook, a um “kamarada general putinófilo” que “vai à televisão, na pose de grande especialista”, mas sem dizer nomes. 

No Twitter, Bruno Cardoso Reis, professor no ISCTE e doutorado em War Studies, interpelou o próprio general Carlos Branco (também investigador no IPRI) nestes termos: “O meu amigo Carlos Branco”, e citava a entrevista do general ao DN, “tem estado tão consistentemente errado face à invasão russa da Ucrânia (que negou que alguma vez acontecesse) que acaba por ser um bom indicador do que vai provavelmente acontecer – o contrário do que ele diz”. O exemplo? “As sanções prometidas à Rússia não amedrontam os seus dirigentes”, que era o título da entrevista ao diário. E ainda voltava a citar o general: “Os russos pretendem apoderar-se da Ucrânia intacta. Com o menor dano possível”. Para acrescentar, com ironia: “Horas depois, russos bombardeiam maior central nuclear da Europa.”

Outras fontes explicam a posição destes generais por alegadamente pertencerem à ala esquerda militar. Alguns argumentos não são muito diferentes dos do PCP, sobretudo os que têm a ver com a expansão da NATO e dos”nazis” nas repúblicas separatistas.

Entretanto, sugiram publicações em redes sociais a ligarem o major-general Carlos Branco ao Valdai Club, um think-thak de discussão russo para o qual o general contribuiu com um artigo, em maio de 2020, sobre  “como as forças armadas ajudaram a combater a covid-19”. O general respondeu com outro post no FB, com uma foto de António Guterres a participar num evento do mesmo grupo, e com o programa de uma conferência em que participavam personalidades como o português Bruno Maçães (insuspeito de ser pró-russo), Anatol Lieven, John Mearsheimer ou Nathalie Tocci. “Têm de ser mais competentes da próxima vez que quiserem denegrir a minha imagem”, escreveu. Mas fontes do Expresso da área da estratégia e da intelligence explicam que este é um grupo de discussão fundado por Evgeni Primakov – ex-chefe dos serviços secretos russos que fez a transição do KGB para o SVR e antigo ministro dos Estrangeiros -, que funciona como “clube intelectual da discussão que Putin ouve”, com a participação de intelectuais estrangeiros “poucos ouvidos nos seus países”, segundo uma fonte que também já participou em eventos do clube.

A somar a este rol de críticas, a ex-eurodeputada socialista e diplomata Ana Gomes, também escrevia no Twitter: “Asco dos comentadores (alguns militares ainda mais vergonhosamente), que fazem ronda nas TVs a defender que a solução será a Ucrânia render-se. São certamente da cepa dos que acharam que timorenses e portugueses, noutras eras, se deviam também ter rendido a agressores. Cambada de cobardes!” Quem chegou a sugerir a rendição dos ucranianos foi o coronel Matos Gomes, para indignação do jornalista José Milhazes com quem estava a debater em estúdio, na SIC-N. Contactada pelo Expresso, Ana Gomes não quis dar nomes aos militares a quem se estava a referir.

Três generais com experiência na ex-Jugoslávia

Todos estes generais tiveram experiência na guerra dos Balcãs ou depois na crise do Kosovo, em que a NATO bombardeou a Sérvia. Carlos Branco foi observador militar da ONU na ex-Jugoslávia (tal como Agostinho Costa) e analista de intelligence da Eurofor na Albânia, Bósnia e Kosovo (também foi porta-voz da NATO no Afeganistão). Agostinho Costa foi oficial de Operações do Estado-Maior da Allied Rapid Reaction Corps, em Itália e chefe da Repartição de Operações da Brigada Multinacional Oeste, imediatamente após o conflito do Kosovo. Raul Cunha também fez parte da missão europeia de monitorização na ex-Jugoslávia  e foi Chefe das Operações do Centro Regional de Zagreb, capital da Croácia.

“Têm uma certa admiração pela doutrina e pelo profissionalismo dos russos”, diz um ex-militar. Nunca deixaram de ver as coisas através de um “determinismo geopolítico” rígido, coincidem dois analistas de relações internacionais. Nenhuma das fontes do Expresso quis assumir os comentários sobre as posições dos generais. “Consideram o Putin um grande estratega” e têm “um fascínio pelo general Valery Gerasimov”, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas russas, e uma “admiração pela arte operacional russa”, diz um observador de política externa. “E parecem estar mal informados sobre a realidade russa. No modelo deles, o Putin não faria isto”. Segundo as mesmas fontes, estes militares não conseguem sair da perspetiva do pensamento geoestratégico puro: “Não conseguem extrapolar esta visão extremamente pessoal de Putin”, que acha que a Ucrânia não deve existir. Por exemplo, o general Cunha entende que Putin não faria uma guerra só em nome da sua visão histórica.

Dois dias antes da invasão da Ucrânia começar, Carlos Branco dizia ao “Observador” que “a ocorrer, uma ação militar na Ucrânia será sempre limitada ao Donbas, onde a população ucraniano-russa é maioritária”, e acrescentava: “A Rússia não tem capacidade militar para uma ação prolongada na Ucrânia”, porque 170 mil tropas era “manifestamente insuficiente” para uma invasão até Kiev. A 14 de fevereiro, dissera à Renascença que “o aparelho militar e de segurança” da Ucrânia era “dominado por forças de extrema-direita que são nacionalistas radicais que querem fazer um ajuste de contas com a população russa ucraniana”. E ao Diário de Notícias, esta semana, acrescentava: “A teimosia em não se considerarem as preocupações de segurança da Rússia conduziria à guerra. Não se sabia quando. Começamos agora a pagar o preço dessa arrogância” da NATO, que “pisou a linha vermelha com a possibilidade de adesão da Ucrânia.

O major-general Raul Cunha, numa intervenção na SIC Notícias, em que acabou por ter um debate quente com o jornalista Ricardo Costa – enquanto o general Pinto Ramalho se limitava a assistir ‘de bancada’ – admitia os argumentos russos:  “É preciso ver os dois lados da questão. É preciso nunca encurralar o inimigo. E quem foi encurralado foi o Presidente russo, que ficou sem saída. Fechar um urso numa jaula e não lhe dar uma saída é sempre mau”, argumentou. Enquanto o diretor da SIC classificava o discurso de Putin como “um delírio” do ponto de vista histórico”, Raul Cunha justificava que “é preciso ouvi-lo na totalidade”, porque, “do ponto de vista dos russos não é” um delírio “e isso é que é preciso perceber”. Quanto à anexação da Crimeia como violação do direito internacional, respondeu: “Depende. A própria anexação da Crimeia à Ucrânia até violou a constituição soviética”.

No caso do major-general Agostinho Costa, considera que a lenta progressão dos russos se deve ao facto de quererem minimizar as baixas civis e porque a estratégia é cercar várias cidades para forçar a queda de Kiev sem ser preciso conquistar a cidade com combates convencionais. Ao contrário de outros analistas que apontam falhas logísticas, de organização e abastecimento, e a dificuldade em enfrentar a resistência ucraniana, Agostinho Costa não valoriza excessivamente a paralização da longa coluna militar de 60 km que se dirigia para a capital. No mesmo dia (2 de março) em que uma série de analistas internacionais diziam ao “Financial Times” que nenhuma das partes tinha supremacia aérea, o general dava por certo que a Ucrânia tinha ficado com a Força Aérea inutilizada no primeiro dia. Hoje, de facto, Kiev debate-se com essa necessidade.

Um especialista em política externa e assuntos militares, que considera a operação russa mal planeada e desorganizada – mas que não quer ser identificado a criticar o general -, diz: “Se um cabo me dissesse isto, punha-o a fazer flexões de braços na parada. Vindo de um major-general é desconhecimento ao nível operacional, o que é grave, ou é desinformação, o que é pior”. O general explica que percebe esta estratégia de cerco dos russos, com base na movimentação das tropas no mapa das operações. E rechaça as críticas, mantendo que “só um imbecil lançava um exército para uma cidade com 1,5 milhões de habitantes.”

Major-general Carlos Branco

Carlos Branco: “Recuso a demonização dos russos e a santificação dos americanos”

“É uma questão de honestidade intelectual”, justifica Carlos Branco ao Expresso. “Vemos isto de forma neutral. E ser neutral não é ser pró-russo”, alega, recordando que “quem tem feitos mais invasões têm sido os EUA”, como no Iraque, na Jugoslávia ou na Líbia, mas “nenhum destes países representava uma ameaça aos EUA, como a Ucrânia representa para a Rússia”.

O general justifica as suas posições – e “de alguns camaradas com posições muito parecidas” – porque usam “o mesmo instrumento de análise que é a geopolítica”. Neste caso, a “geopolítica clássica”, através de “todo um quadro teórico que é feito por americanos. A escola americana é que dá o instrumento análise”, diz, um argumento com que Agostinho Costa concorda. Carlos Branco diz basear-se na “teoria de resolução de conflitos”, em que “um mediador tem de ter em conta as posições de ambas as partes: e que os maus não estão todos de um lado”. E acrescenta: “Recuso a demonização dos russos e a santificação dos americanos. As coisas são muito mais complexas”.

“Quando digo que os EUA têm um projeto de hegemonia global liberal, são os americanos que o dizem”, alega o também investigador do IPRI. “As pessoas acham que isto é ser pró-russo? Limito-me a regurgitar as teorias americanas”.

Sobre a Ucrânia, em concreto, afirma que “os EUA andam a interferir na Ucrânia de forma assertiva desde 2004 e mais agressiva desde 2014″ e que “fizeram uma revolução em 2014”. E que houve uma proposta para entrar na NATO em 2008 (que Durão Barroso numa entrevista ao Expresso esta semana também tinha considerado imprudente). “Depois, há um golpe de estado promovido pelos americanos, que instalam um grupo de revanchistas, nazis, que iniciaram uma política xenófoba dos diferentes grupos étnicos”. Esta opinião sobre a revolta Euromaidan ou a Revolução Laranja não é (de todo) consensual e outros analistas têm uma posição oposta. O general não tem apontado críticas à invasão da Crimeia, nem aos nacionalistas russos do Donbas nem ao facto de os ucranianos terem preferido a esfera europeia em vez da influência russa em 2014.

A propósito do Valdai Club, o major-general Branco recorda que foi diretor da cooperação regional da NATO, o que o levou a “visitar 32 países”, em que conheceu a elite euroasiática, incluindo duas reuniões com o general Gerasmiov, antes de este se tornar chefe das Forças Armadas russas. Foi convidado para escrever o artigo por um russo que conheceu numa das suas conferências. Conhece bem os militares da Geórgia, da Moldávia, da Arménia, da Ucrânia, e chegou a fazer conferências na Academia Militar Frunze, na Rússia (que forma oficiais), assim como no Azerbeijão. “Se não fui o último, fui dos últimos da NATO que foram a Sebastopol, na Crimeia, em junho de 2013, como chefe de delegação e conheci aquilo. A entrada no porto Sebastopol não tinha bandeiras ucranianas, mas russas”, recorda. E está a preparar uma tese doutoramento sobre o Cáucaso do sul.

Major-general Agostinho Costa

Agostinho Costa: “Neste processo não há inocentes”

“Entre os russos e os ucranianos, os invasores são os russos”, assume o major-general Agostinho Costa. “Não branqueamos a história, estamos a falar de direito internacional: temos um país que invade outro país. Não haja dúvida”. Mas também diz que, “neste processo não há inocentes”. O que há é “uma insanidade de quem quer reconstituir o império russo.” Este general paraquedista diz ter chegado a ouvir de amigos: “Tu devias primeiro condena a guerra”. E responde: “Condeno a guerra com toda a veemência, mas como analista procuro ser neutro”. E garante não ter fontes nem canais privilegiados com nenhuma das partes. Usa “informação aberta.”

“Não despertei para este caso ontem”, avança o major-general – vice-presidente da Eurodefense Portugal – que está há um ano a escrever um livro a que preconiza uma Europa da Defesa mais robusta e autónoma no âmbito da União Europeia. “Como analista, não posso ir dizer estes são os bons e estes os maus, mas perceber os interesses em jogo. Os objetivos políticos dos russos estão na doutrina Primakov. Mas a minha grande fonte de informação é o centro de análise russa do comando europeu dos EUA”.

Invocando na experiência que teve na ex-Jugoslávia – estava em Sarajevo durante os bombardeamentos -,  diz que “o cinismo não está nas palavras, está nos factos: quando despertarmos desta embriaguez coletiva, acordamos”. E garante que procura, “através de uma linguagem percetível uma operação muito complexa como esta”, explicar o que se está a passar aos vários níveis”, estratégico, operacional e tático. “O Gerazimov está a definir como mexe as peças”, diz. E insiste que os russos estão a tentar “fazer cair o país, sem ser necessário entrar em Kiev”.  

Conclui assim, a prever o futuro: “Os russos estão a conduzir uma guerra de manobra. E os ucranianos querem guerra de desgaste. Isto vai ser o Iraque dos russos”.

Major-general Raul Cunha

Raul Cunha: “Não sou putinista, não gosto do homem nem um bocadinho”

O major-general Raul Cunha destaca o facto de estes três generais terem todos tido experiência internacional nos Balcãs, o que lhes “abriu os olhos” para analisar a situação. Embora recuse simpatias com Putin – “não sou putinista, não gosto do homem nem um bocadinho”, diz ao Expresso – critica o Ocidente: “A guerra parecia um desejo de todos, porque não fizeram um esforço para ele não chegar a este ponto, para não chegar às linhas vermelhas”. E a alega que desde que Putin fez um discurso muito forte em Munique, em 2007 que “toda a gente percebeu que havia coisas que tinham de mudar”. Também acusa os ucranianos de “não terem cumprido os acordos de Minsk”. Não coloca nenhum ónus sobre as forças separatistas ou por a Rússia ter armado as milícias no Donbas.

No fundo, Raul Cunha acha que “se tivesse havido um pouco mais de esforço quanto à neutralidade da Ucrânia, tinha sido diferente”, e mantém que “é uma perceção errada que Putin queira reescrever a História”. Mantém a sua análise num campo puramente racional, apesar do discurso do Presidente russo: “Sei que ele diz que não reconhece a Ucrânia como tal, mas isso é o conceito histórico do Putin. Ele não entra numa guerra por causa do conceito histórico”.

“Nós dizíamos na Jugoslávia, que não são só os sérvios que são maus. Agora dizem que somos ‘putinistas’ só porque discordarmos do discurso oficial, de que era preciso diaboliza o Putin”, diz Raul Cunha. “Quem empurrou o Zelensky para estas posições, para depois o deixar, também tem culpas”. O debate não vai parar. A par da guerra, há uma guerra sobre a guerra. Na verdade, não é isso que acontece em todas as guerras?

  • Texto: Expresso, jornal parceiro do POSTAL

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