O bronzeado continua a ser visto por muitas pessoas como sinal de férias, descanso e boa aparência. Mas a ideia de que existe um bronzeado verdadeiramente saudável é contrariada por várias entidades de saúde: quando a pele escurece após exposição solar, está a reagir à radiação ultravioleta.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, “não há nada de saudável num bronzeado”, uma vez que este resulta da tentativa da pele de se proteger de danos adicionais provocados pela radiação UV. A mesma entidade sublinha que grande parte dos danos associados à exposição ultravioleta pode ser evitada com medidas simples de proteção.
O bronzeado é uma defesa da pele
A pele bronzeia porque produz mais melanina em resposta à exposição à radiação ultravioleta. Este processo dá cor, mas também indica que a pele foi exposta a uma agressão. A radiação UV está associada ao envelhecimento precoce da pele, ao aparecimento de manchas, à perda de elasticidade e ao aumento do risco de cancro da pele.
A OMS recorda que os cancros da pele são causados sobretudo pela exposição à radiação ultravioleta, seja através do sol, seja através de fontes artificiais, como solários. Em 2020, foram diagnosticados mais de 1,5 milhões de casos de cancro da pele no mundo.
Bronzear sem queimar não significa estar protegido
Uma das ideias mais comuns é a de que o problema está apenas no escaldão. É verdade que a queimadura solar aumenta o risco de cancro da pele, mas bronzear sem ficar vermelho não significa ausência de dano.
A OMS explica que um bronzeado induzido por UVA e UVB pode dar apenas uma proteção muito baixa contra queimadura, equivalente a um fator de proteção solar entre 2 e 4. Mas esse bronzeado não protege contra danos de longo prazo, como o cancro da pele. A entidade refere ainda que o dano no ADN relevante para cancro da pele pode ocorrer antes de haver vermelhidão visível.
O NHS, serviço nacional de saúde britânico, também é claro ao afirmar que não existe uma forma segura ou saudável de ficar bronzeado. A entidade sublinha ainda que o bronzeado não protege a pele dos efeitos nocivos do sol. Isto não significa que se deva evitar o ar livre. Significa, antes, que o objetivo não deve ser “apanhar sol até ganhar cor”, mas aproveitar o exterior com proteção adequada.
O sol também tem benefícios, mas exige equilíbrio
A exposição solar ajuda o organismo a produzir vitamina D, importante para a saúde óssea e para várias funções do organismo. A própria OMS reconhece que alguma exposição aos raios UV pode ter benefícios para a saúde, em particular na produção de vitamina D.
O problema está no excesso e na exposição sem proteção, sobretudo nas horas de maior intensidade. A recomendação mais prudente é procurar equilíbrio: passar tempo ao ar livre, mas evitar queimaduras, proteger a pele quando o índice UV é elevado e não usar o bronzeado como objetivo de saúde.
Como estar ao sol com menos riscos
Não existe bronzeado solar sem risco, mas há formas de reduzir o perigo para quem vai estar ao sol. A primeira regra é evitar as horas de maior radiação. A OMS recomenda limitar a exposição quando os raios UV são mais fortes, sobretudo nas duas horas antes e depois do meio-dia solar. O NHS aconselha procurar sombra quando o sol está mais forte e consultar o índice UV, usando proteção quando este é igual ou superior a 3.
Em Portugal, durante o verão, isso significa ter especial cuidado entre o fim da manhã e o meio da tarde, quando a radiação ultravioleta costuma ser mais intensa. O IPMA recomenda medidas de proteção à medida que o índice UV sobe, incluindo óculos de sol, chapéu, t-shirt, guarda-sol e protetor solar nos níveis mais elevados.
Protetor solar não serve para prolongar a exposição
O protetor solar é essencial, mas não deve ser usado como licença para ficar mais tempo ao sol. A OMS defende o uso de protetor de largo espectro nas zonas de pele que não conseguem ser cobertas por roupa, mas sublinha que a melhor proteção resulta da sombra e do vestuário. A entidade avisa também que os protetores solares não devem ser usados para prolongar o tempo passado ao sol.
O ideal é usar um protetor solar de largo espectro, com proteção contra UVA e UVB, pelo menos SPF 30, aplicá-lo em quantidade suficiente e reaplicar com frequência, especialmente depois de nadar, transpirar ou usar toalha.
Roupa, chapéu e sombra contam tanto como creme
A proteção solar não depende apenas do creme. Chapéus de abas largas, óculos de sol com proteção UV, roupa leve mas fechada e sombra são medidas simples que reduzem a dose de radiação recebida. A OMS recomenda óculos que ofereçam proteção contra radiação UVA e UVB e o uso de roupa como forma eficaz de proteção.
Para crianças, os cuidados devem ser ainda maiores. O NHS recomenda atenção especial aos mais novos e manter bebés com menos de seis meses afastados da luz solar direta. O IPMA também aconselha evitar a exposição das crianças ao sol quando o índice UV é muito elevado ou extremo.
Solários não são alternativa segura
Os solários continuam a ser apresentados por vezes como forma controlada de ganhar cor, mas as entidades de saúde rejeitam essa ideia. A OMS alerta que os dispositivos artificiais de bronzeamento emitem radiação UV intensa, estão associados ao cancro da pele e devem ser evitados. Também sublinha que os eventuais benefícios, como produção de vitamina D, são ultrapassados pelos riscos.
Em Portugal, os centros de bronzeamento artificial estão regulados. Segundo a ASAE, a prestação destes serviços é proibida a menores de 18 anos, grávidas, pessoas com sinais de insolação e outros grupos de risco. Ou seja, trocar sol por solário não reduz o problema de fundo. A pele continua a ser exposta a radiação ultravioleta com potencial de dano.
Autobronzeadores são opção com menos risco
Para quem quer apenas o efeito estético, os autobronzeadores e sprays bronzeadores são uma alternativa com menos risco do que a exposição deliberada ao sol ou ao solário. A Cancer Research UK refere que, para quem quer parecer bronzeado, usar autobronzeador ou spray bronzeador é mais seguro do que apanhar sol ou recorrer a solários. Estes produtos escurecem temporariamente a camada mais superficial da pele sem depender da radiação ultravioleta.
Ainda assim, há um ponto importante: autobronzeador não substitui protetor solar. Quem usa este tipo de produto deve continuar a proteger-se do sol, porque a aparência bronzeada não significa proteção real contra radiação UV. Também é importante distinguir autobronzeadores cosméticos de produtos como Melanotan, em spray nasal ou injeção, que a Cancer Research UK considera inseguros.
A pele tem memória
Os danos solares acumulam-se ao longo da vida. Escaldões na infância e adolescência, exposição repetida sem proteção e uso de solários contribuem para aumentar o risco futuro de problemas de pele. A OMS lembra que a exposição excessiva ao sol em crianças e adolescentes contribui para o cancro da pele mais tarde na vida. Por isso, o cuidado não deve começar apenas quando surgem manchas, rugas ou sinais suspeitos. A prevenção é mais eficaz quando é constante.
Quando deve ter atenção redobrada
Pessoas de pele clara, com muitos sinais, histórico familiar de cancro da pele, antecedentes de queimaduras solares intensas ou que trabalham ao ar livre devem ter cuidados acrescidos. Também é importante vigiar alterações em sinais, manchas que crescem, feridas que não cicatrizam ou lesões que mudam de cor, forma ou tamanho. O SNS 24 recorda a regra ABCDE como alerta para assimetria, bordos irregulares, cor, diâmetro e evolução dos sinais.
Nestes casos, a avaliação por dermatologista é essencial. A proteção solar reduz risco, mas não substitui vigilância médica.
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