Tudo começa no arquivo da Autoridade para a Informação sobre a Documentação do Antigo Serviço de Segurança do Estado, em Tirana, a capital da Albânia; a autora obteve autorização para consultar o processo da sua avó, Leman Ypi, nascida em Salónica, perseguida pelo regime de Enver Hoxha, que enclausurou o marido, Asllan Ypi, e o restituiu à liberdade quase um destroço humano. Vamos mergulhar nos últimos tempos do Império Otomano, numa Salónica que será anexada à Grécia; acompanharemos os acontecimentos da independência da Albânia, a vida tumultuosa deste país que terá um Ministro da Administração Interna republicano que se autoproclamará rei, Zog I; estamos na fervilhante década de 1930 que culminará com a invasão italiana da Albânia, a ocupação de Salónica pelos alemães, no início da década seguinte é criado o Partido Comunista Albanês, o país é libertado dos nazis em 1944, dois anos depois, proclamada a Republica Popular da Albânia; começará a purga no país de adversários políticos, o casal Ypi será submetido a processos infames. Estamos a falar de Indignidade, por Lea Ypi, Casa das Letras, 2026.
A autora dera com uma fotografia dos avós numa instância de ski, em Cortina d’Ampezzo, 1941, surgira nas redes sociais, houvera os comentários mais díspares, a autora escreve: “Um casal jovem e glamoroso olha para a câmara, os dois estendidos em espreguiçadeiras à frente de um hotel de luxo. A mulher está embrulhada num longo casaco de peles branco. Tem um grande sorriso e uma expressão vagamente distraída, que contrasta com a expressão mais séria, quase inquisitiva, do homem que está deitado na espreguiçadeira ao lado”. São os avós, a fotografia foi tirada em pleno tempo de convulsões com a invasão germânica da União Soviética, o ataque japonês a Pearl Harbor, o combate armado na Jugoslávia. Fotografia tirada durante a sua lua de mel.

Começa a operação de rememoração dos acontecimentos, vamos conhecer os ascendentes de Leman Ypi, avós e tios, a sua vinda para Tirana, o encontro de Leman com Asllan, não faltam oficiais das Forças Armadas britânicas na Albânia antes da libertação; a investigação leva a uma incursão em vários pontos da península balcânica, ao tempo em que havia grão-vizir e paxás, em que a classe média superior se expressava em francês, em que se estudava tanto em Constantinopla como em Paris ou Genebra; entraremos na vida familiar da família Leskoviku, de onde provinha Leman, Lea Ypi esquiça primorosamente a atmosfera desse período de mudanças radicais em que caíram impérios e apareceram repúblicas pelos Balcãs, em que ainda se combinavam casamentos e haverá uma noiva um tanto forçada que porá termo à vida no dia da boda.
É uma leitura um tanto compulsiva, comovente, o leitor é levado à velocidade da mudança de regimes, de invasões, de países devastados, de execuções; tempo em que os judeus gregos fogem pelas montanhas e são recolhidos pelos muçulmanos, isto numa Albânia onde os alemães vasculham tudo à procura de novas vítimas para Auschwitz. No vórtice da investigação, a autora interroga-se: “Às vezes sinto-me como uma historiadora dos princípios da Idade Moderna, a estudar os julgamentos de bruxas colhendo provas pelos registos da Inquisição. Nos raros momentos de lucidez que tenho a propósito do método que estou a seguir na minha investigação, ocorre-me que estou a alinhar com quem espiou a minha avó. Posso andar à procura dos mesmos factos que as pessoas que vigiavam Leman; até posso estar a fazer as mesmas perguntas. Porém, tenho algo que essas pessoas não tinham: a capacidade de interpretar a realidade, de julgar a partir de uma perspetiva moral diferente. Afinal, o poder que é conferido ao arquivo é precisamente o poder que estou a tentar desmantelar.”
O informador determinante de Leman era conhecido nos serviços secretos por A Tribuna, no arquivo perguntam à autora se ela quer saber quem era o denuciante, o que na prática se irá demonstrar ser inviável, afinal de contas descobriu-se que havia uma outra Leman, quase uma duplicação, assim se descobrirá depois de tão aturada investigação que se fica a conhecer e a não conhecer Leman Ypi. E voltamos à fotografia dos Ypi em plena lua de mel, ao peso memorial que ela comporta: “A fotografia em si nunca importou; a memória sim. O passado nunca é passado, é como um parente afastado que continua a envelhecer algures, enquanto estamos ocupados a tratar do presente. A memória, diria a minha avó, e diria Santo Agostinho, é o estômago da mente, guarda as coisas sem as consumir.”
Há factos comprovados na investigação: a avó nasceu em Salónica, nas vésperas do colapso do Império Otomano, tem etnia albanesa e cidadania grega, vem de uma família rica e com terra, de uma classe social privilegiada; as fronteiras mudam à volta dela, os limites do mundo passam a ser os da língua que fala; muda-se para Tirana, com o regime comunista nasce a suspeita que ela conspire contra o recém-criado Estado, é posta sob vigilância.” Só que as histórias agora baralham-se, há duas mulheres vigiada com o nome de Leman Ypi, descobrir-se-á que A Tribuna será executada por traição. Uma investigação que leva a autora a ler os relatórios dos serviços secretos, a conhecer a documentação britânica, a ler os apontamentos diplomáticos das autoridades fascistas, e muito mais.
É uma investigação que conduz a autora a uma sala de espelhos um tanto estilhaçados, a analisar a culpa e a responsabilidade, a questionar o que é uma reparação para quem foi sujeito à indignidade. E como se falasse em voz alta, a autora responde-nos: “A minha avó já morreu e eu sou produto do sistema que lhe arruinou a vida. Porém, nunca me vi a mim como vítima desse sistema. Afirmar o contrário seria fazer pouco do sofrimento dela.” Porque no meio de toda esta investigação há a avó Leman e há a outra Leman que provoca um autêntico rodopio de perguntas sem resposta.

É nessa sala de espelhos que a autora questiona o que é a dignidade, para que serve, sente-se pronta a desistir, de vasculhar mais sobre aquele passado, mas reconsidera, afinal não está pronta para desistir, e assim termina esta luminescente viagem, redigida com filtro mágico:
“Talvez as duas Lemans sempre devessem ter estado juntas, como versões diferentes da mesma humanidade. Perdidas para o passado, mostram como a dignidade está em tentar agir com um propósito moral, mas ao mesmo tempo são idealizações dessa mesma postura. Talvez a harmonia não tenha tanto a ver como chegar ao fim de um processo, mas antes como encontrar um caminho entre os conflitos do presente.”
Uma investigação que nos agarra do princípio ao fim, porque no fim ficamos a pensar se não desfrutámos de um belíssimo, inquietante, inesperado, romance.
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