Salário baixos e medianos cada vez mais próximos
Portugal é, atualmente, o país da Zona Euro onde a diferença entre o salário mediano e os salários mais baixos é mais reduzida. Em 2024, um trabalhador que recebe o salário mediano ganha apenas mais 11% do que um trabalhador situado no percentil 10 da distribuição salarial, ou seja, entre os 10% de trabalhadores com remunerações mais baixas.
Trata-se do menor diferencial entre todos os países da moeda única. A distância é significativamente superior em Espanha (28%), Itália (30%), Países Baixos (44%), Finlândia (45%), França (46%) e Alemanha (64%). Em economias como a Croácia ou a Letónia, essa diferença ultrapassa mesmo os 100%.
A evolução em Portugal é particularmente expressiva. Em 2010, o salário mediano era cerca de 38% superior aos salários mais baixos. Em apenas década e meia, essa diferença encolheu para apenas 11%, revelando uma forte compressão da estrutura salarial. Na prática, significa que uma parte crescente dos trabalhadores portugueses se concentra em níveis remuneratórios muito próximos da base da distribuição.
Esta transformação resulta de dois movimentos distintos. Por um lado, o salário mínimo nacional registou um crescimento muito expressivo ao longo da última década, elevando os rendimentos dos trabalhadores com salários mais baixos. Por outro, os salários intermédios evoluíram a um ritmo insuficiente para acompanhar essa subida, reduzindo progressivamente a distância entre ambos.
A valorização dos salários mais baixos constitui um objetivo legítimo e desejável. No entanto, quando esse processo não é acompanhado por um crescimento semelhante dos salários intermédios, surgem desafios relevantes para a economia. A compressão salarial tende a reduzir a diferenciação entre níveis de qualificação, experiência e responsabilidade, tornando menos evidente a recompensa associada ao investimento em competências, formação ou progressão profissional.
Uma estrutura salarial excessivamente comprimida pode também dificultar a retenção de talento e reduzir os incentivos ao aumento da produtividade, fatores essenciais para o crescimento económico sustentado. Mais do que aproximar salários por via do aumento da base, o desafio passa por criar condições para que toda a distribuição salarial evolua de forma consistente, permitindo que os trabalhadores progridam e vejam refletido nos seus rendimentos o valor acrescentado que geram.
- Os factos vistos à lupa por André Pinção Lucas e Juliano Ventura – Uma parceria do POSTAL com o Instituto +Liberdade

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